Pelourinhos em Terras de Riba Côa (25)

José Fernandes - Do Côa ao Noémi - © Capeia Arraiana

:: :: JARMELO :: :: – De entre os antigos municípios do distrito da Guarda há um que merece um especial destaque não só pela dimensão que teve mas também pelos acontecimentos de natureza histórica de que foi alvo. Estou a falar do Jarmelo. Aqui não há pelourinho.

Marco Geodésico no Monte  do Jarmelo - Guarda - Capeia Arraiana

Marco geodésico no Monte do Jarmelo – Guarda

A Vila do Jarmelo, que era a sede do concelho com o mesmo nome, desenvolvia-se em duas colinas gémeas (germelas), sendo uma delas, a que mais visível é para quem por lá circula, encimada por um marco geodésico de grande dimensão. Desse ponto avistam-se, rodando o olhar desde a Guarda e no sentido anti-horário, um conjunto de fortalezas medievais em seu redor desde o Sabugal, Almeida, Marialva, Celorico da Beira e outras. Por isso e embora não esteja documentado, facilmente se pode imaginar que este ponto era de extrema importância do ponto de vista da defesa do território, numa altura em que as invasões e conquistas se faziam à vista e conforme a vista alcançava. Aqui, no Jarmelo, a atmosfera é límpida e visualmente desimpedida, e, à parte um ou outro dia durante o inverno em que o nevoeiro cerrado e baixo permite que o monte do Jarmelo fique acima das nuvens, conseguem ver-se ao longe as terras que mais longe estão.
O monte do Jarmelo que tão bem descrito tem sido ao longo de vários textos por Fernando Capelo (Aqui.) e (Aqui.) parece o resultado de um vulcão que, no planalto beirão tentou sair do interior da terra com a força telúrica deste tipo de fenómenos, empurrou de forma localizada a crosta para cima e, como que prevendo os desastres que iria provocar naquelas gentes, optou por não chegar à erupção e ficar assim mesmo. Um monte. Colocaram depois em cima do monte o «crucho» e, curiosamente, ambos passaram a cooperar num objectivo comum: Aumentar a visibilidade de ambos.
Basta ir lá para se perceber mesmo hoje, que o marco geodésico e o monte onde assenta, permitem que desde longas distâncias se aviste o Jarmelo e vice-versa, pois estamos num planalto aqui e ali salpicado com com algumas elevações e depressões. O candidato a visitante não precisa de guia ou GPS para encontrar o Jarmelo. Basta chegar à Guarda, apanhar a A25 para Vilar Formoso e, passados pouco tempo começa a ver à sua direita o Monte do Jarmelo. Claro está que, se quiser visitar o local, e deve fazê-lo, então à saída da Estação da Guarda deve apanhar a Estrada Nacional que acompanha do lado sul a A25.
Este Monte albergou um Município medieval cuja sede era exactamente ali. Do que na altura existia, hoje resta pouco, para além de parte da muralha, e claro, o Monte. Dentro das antigas muralhas restam meia dúzia de construções em ruínas que alguém vai mantendo, para além da casa da Câmara e da Igreja. Todo o restante espaço está livre de qualquer construção. É neste espaço que se realiza anualmente a feira de gado do Jarmelo.
Quem acredita em maldições, crenças, profecias, etc., acha que o local da antiga vila do Jarmelo está amaldiçoado desde os tempos de D. Pedro I e a sentença que terá proferido para esta terra, estará a ser cumprida, não se tendo edificado nada naquele local, depois de ter sido arrasado.
Pessoalmente tenho uma teoria diferente, mas é apenas minha, não está documentada, como documentada não está a que se conta, embora tenha lógica. Parece inquestionável que a vila do Jarmelo foi mandada arrasar e arrasada por D. Pedro I que reinou entre 1357 e 1367 portanto durante 10 Anos. O rei terá também proferido a sua sentença para as terras do Jarmelo, no sentido de não ficar pedra sobre pedra e nada lá se produzir. E até posso admitir que tudo isso tenha acontecido. As pessoas tiveram então que se deslocar para outros locais, para poderem sobreviver. E deslocaram-se para a base do monte do Jarmelo, fundando aí novas aldeias em seu redor.
As razões por que as pessoas não voltaram para dentro das antigas muralhas pode ter várias explicações mas a da maldição embora seja a mais romântica é a menos credível. Pessoalmente, inclinar-me-ia mais para a maior fertilidade dos campos na zona do planalto, no sopé do monte, por um lado; Por outro, com a celebração do Tratado de Alcanizes meio século antes, esta terra ficou mais longe da nova fronteira com o reino de Leão e por isso menos sujeita a investidas, logo mais segura. Assim, parece-me que as populações que entretanto se agruparam em aldeias, pura e simplesmente não quiseram voltar para dentro das muralhas entretanto reconstruídas por D. Manuel I, pois os proveitos para a sua subsistência melhor e mais facilmente eram obtidos nos locais para onde os empurraram (nas terras planas).
Aliás esta teoria não constitui qualquer inovação e pode facilmente ser confirmada em inúmeros casos em que não houve qualquer sentença real prévia de natureza semelhante. (Castelo Rodrigo, abandonado para criar Figueira de Castelo Rodrigo, Numão, abandonado o castelo para criar Freixo de Numão, etc.). Em resumo, os castelos serviram, durante o período das conquistas e reconquistas para garantir protecção às populações. Quando esses períodos de conquistas e reconquistas foram passados e as povoações começaram a crescer para o arrabalde, a segurança que as muralhas dos castelos proporcionava passou a ser menos importante para a sobrevivência do que permanecer junto dos terrenos produtivos.
O Jarmelo foi assim uma vila sede de um concelho, formado por várias freguesias na data da sua criação. O concelho foi criado por foral de D. Afonso Henriques em 1143. Depois da sua destruição fisica por parte de D. Pedro I as muralhas do Jarmelo tiveram de ser reconstruídas (mas apenas aas muralhas) logo no reinado seguinte por D. Fernando, em virtude das guerras com Castela que nessa altura eram acesas e que terminaram com a crise de 1385.
O concelho viu o seu foral renovado por D. Manuel I em 1 de Junho de 1510, em Santarém, no mesmo local onde D. Pedro tinha mandado destruir a vila 150 anos antes.
Inicialmente em 1143, o Jarmelo tinha um conjunto de freguesias (diz-se 12) que hoje poderiam ser enquadradas no território que abaixo se representa.

Concelho do Jarmelo em 1143 - Capeia Arraiana

Concelho do Jarmelo em 1143

Passados anos foram-lhe anexadas as freguesias do Lamegal, que entretanto havia sido a sede de um pequeno concelho medieval, Codeceiro e Penha Forte, passando a ocupar uma área sensivelmente igual à que abaixo se representa.

Concelho do Jarmelo quando foi extinto - Capeia Arraiana

Concelho do Jarmelo quando foi extinto em 1855

Em 1855 o concelho do Jarmelo foi extinto e as suas freguesias foram integradas nos concelhos da Guarda e Pinhel.
Como Município que era, a Vila do Jarmelo, provavelmente possuía um brasão, uma bandeira e um selo. Não consegui localizar esses elementos relativos à primitiva Vila. Provavelmente terão sido destruídos com o cumprimento da sentença de D. Pedro. Provavelmente também na mesma data poderá ter sido destruído o pelourinho que certamente existia no Município, e de que não se conhece qualquer rasto.
Não querendo enveredar pela discussão do drama da vida e morte de Inês de Castro, cuja descrição já foi por muitos feita, não posso deixar de fazer uma referência à descabida sentença do Rei D. Pedro relativamente à Vila do Jarmelo. Uma coisa é a sentença contra quem terá morto Inês de Castro. Outra bem diferente é a destruição de uma vila só por que lá tinha vivido um dos executores. É, aos olhos de hoje, perfeitamente exagerada, descabida e até irracional. Mas pode falar-se de racionalidade quando estamos em presença de grandes paixões?
De qualquer modo, as freguesias que se reagruparam depois da destruição da vila, fazem reflectir no seu brasão os antecedentes concelhios de que faziam parte, quatro torres prateadas. Os restantes elementos do brasão de cada uma das duas freguesias são elementos recentes e como facilmente se percebe apresentam referências às características das terras, caça, artes do ferro e justiça no caso de São Miguel. No caso de São Pedro o elemento mais preponderante é a vaca Jarmelita a par do troço de muralha e das chaves da vila.

Brasões das Freguesias de São Miguel e de  São Pedro do Jarmelo - Capeia Arraiana

Brasões das Freguesias de São Miguel e de São Pedro do Jarmelo

Poder-se-ia pensar que pelo facto de esta Vila ter sofrido o resultado da ira do rei D. Pedro, que a mandou arrasar como se sabe e atrás se referiu, que a mesma desapareceria para sempre.
Isso não aconteceu e, antes pelo contrário, cada vez mais os naturais daquela zona em particular e das Beiras em geral, fazem com que não se esqueça a importância que concelho do Jarmelo teve na sua época. Há muitos séculos que os habitantes do Jarmelo deixaram de se sentir «culpados» por terem tido entre eles alguém que assassinou Inês de Castro. Desde há muitos séculos que os habitantes do Jarmelo não compreenderam a fúria real de mandar destruir a terra dos seus antepassados Há muitos anos que os actuais habitantes da zona do Jarmelo não compreendem por que razão o poder demora tanto para fazer a história do local.
Ninguém fala nisso, mas não será altura de investir na história associada ao turismo e de que certamente o Jarmelo, e agora principalmente a zona da antiga Vila, seria muito boa matéria prima?
Não pode falar-se do Jarmelo sem falar em duas coisas: O Monte e as Vacas.

Vacas Jarmelistas

Vacas Jarmelistas – Capeia Arraiana

Quanto ao Monte do Jarmelo, ele é o cerne de toda a vila que desapareceu e por outro lado é como que um marco que através do tempo recorda que aqui existiu em tempos que já lá vão um Município. A Vila foi destruída mas o Monte, não conseguiram destruí-lo. Como a Vila e o Monte tinham entre si uma relação de cumplicidade, este continua presente, recordando aquela que dificilmente alguém conseguirá fazê-la esquecer. Este texto é um pequeno contributo nesse sentido.
Quanto à Vaca Jarmelita, diremos que se trata de uma raça autóctone, do planalto Beirão tendo como principais características a sua cor amarelada, os cornos grandes e torneados e de ponta escura, com a marrafa entre os cornos, pendente para a frente. A caracterização da raça que levou ao seu reconhecimento como autóctone pode ser consultada. (Aqui.)
Nos últimos anos têm sido desenvolvidos pelo Presidente da Junta de Freguesia da altura, Agostinho Silva, diversas diligências no sentido de se obter o reconhecimento desta raça de vacas como autóctone situação que veio a ser concretizada recentemente por reconhecimento do Ministério da Agricultura.
As incansáveis diligências desse autarca conduziram ao reconhecimento da causa que defendia, tendo durante o processo, sido por vezes mal compreendido por aproveitar tudo o que era hipótese de visibilidade para conseguir os seus intentos. A verdade é que a vaca jarmelita foi reconhecida e hoje assiste-se a uma espécie de competição de contornos desajustados (judiciais???) entre as vacas desta zona e as de Mirandela como se qualquer delas tirasse o lugar da outra. Caros beirões e transmontanos: Deixem-se dessas brigas que não levam a lado nenhum.É dessas brigas que o poder precisa para se alimentar e não beneficiar nem uns nem outros. Claro que há duas raças distintas. São ambas úteis e únicas na sua região. Façam publicidade a ambas nos eventos que cada uma das regiões promove. Tragam vacas mirandesas à feira do Jarmelo e levem-se jarmelistas às feiras de Mirandela. Verão, quando colocadas lado a lado como são diferentes mas ambas muito úteis na sua região.
Sobre o Jarmelo existe a lenda dos amores de Pedro e Inês de Castro que convido o leitor a relê-la. (Aqui.)
As duas freguesias que herdaram a história do Jarmelo continuam após a reforma administrativa de 2013 a ser freguesias no concelho da Guarda: Jarmelo S. Pedro e Jarmelo S. Miguel. (Aqui.)
Muito poucas pessoas da zona da beira não saberão onde fica o Jarmelo. Muitas já visitaram o Jarmelo. Quem ainda o não fez, não perca mais tempo, dirija-se para lá que encontrará um local que apesar de não ter no monte pessoas a morar, tem certamente uma vista que nunca teve noutro qualquer lugar. Sentirá um ar sadio e fresco a fustigar-lhe a cara e a arejar-lhe os pulmões e, se isso acontecer no inverno poderá ainda ser bafejado com a sorte de ter uns flocos de neve. Não deixe caro leitor de visitar este local tantas vezes quantas o seu subconsciente lho pedir ou até mais pois em cada visita, apurará a forma de ver aquilo que na visita anterior observou.
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«Do Côa ao Noémi», opinião de José Fernandes (Pailobo)

jfernandes1952@gmail.com

One Response to Pelourinhos em Terras de Riba Côa (25)

  1. fernando capelo diz:

    Ótimo texto e, como se diz cá pelo Jarmelo, “bem haja por tudo”.
    Abraço
    Fernando Capelo

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