A «taurocultura» na obra de Alcínio

Alcínio Vicente - Aldeia do Bispo - © Capeia Arraiana

Num mês de Agosto em que as tradicionais Capeias fizeram renascer as aldeias da raia sabugalense (a nossa «época taurina» iniciou-se no dia 6, na Lageosa, e terminou no dia 25, em Aldeia Velha), apresentamos um dos mais significativos quadros de Alcíno sobre essa temática.

Ao Forcão - pintura de Alcínio

Ao Forcão – pintura de Alcínio

Esta pintura de Alcínio retrata o momento de deleite de uma capeia: quando o touro bravo embate no forcão, sustido por valentes pegadores. O quadro faz-nos viver o momento febril em que o pó se ergue do solo e o povo clama nas calampeiras, em manifestações cruzadas de assombo, pânico e êxtase.
Este magnífico quadro, pleno de cor e movimento, foi reproduzido na edição de Maio de 2011 da revista tauromáquica «Novo Burdalero», ilustrando um artigo do escritor e investigador Vítor Escudero.
O texto aborda a «taurocultura», que o autor traduz como a aficion natural que desabrocha nos apreciadores do espectáculo tauromáquico. Realça a paixão pelos touros na zona fronteiriça beirã, onde há «maneiras de estar e de ser peculiarmente distintos», que são «padrão de uma multiculturalidade étnica e cénica, onde as similitudes são muitas das vezes bem mais evidentes que as diferenças que nos separam…».
O investigador manifesta que é nessa zona, esquecida e menosprezada pelos poderes centrais, que a paixão pelos touros dá as mãos com uma verdadeira cultura popular, fazendo a diferença no panorama tauromáquico nacional. Tendo «peregrinado» por estas terras raianas, Vítor Escudero testemunhou a força que esta tradição popular mantém, e o empenho que as gentes colocam em cada época para a viverem por inteiro, destacando uma juventude de rapazes e raparigas que «reinventam e recriam os usos e costumes dos seus maiores, sem complexos nem tibiezas».
Depois destaca a pintura de Alcínio, um homem nascido nesta valerosa raia sabugalense, em Aldeia do Bispo, licenciado em Artes Plásticas pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa, com obra reconhecida e presença assídua em exposições e colecções de arte, «conceituado e premiado pintor das tradições taurinas e raianas».
Vítor Escudero acaba o artigo sintetizando o valor da laboriosa arte do pintor que assina a tela que ilustra o seu artigo:
«Pela espantosa tela cromática, pelo arrojo do movimento, pelo esqueleto seguro de um bom desenho e pela gestualidade que se afirma como grito de contemporaneidade, em temas de grande força telúrica, logo ancestral, onde homens e toiro se reclamam, protagonistas maiores do eterno jogo da vida e morte, de luz e trevas, de bem e mal… Alcínio Vicente deixa-nos com a sua interpretação do forcão, emblemática representação de uma Taurocultura que está viva e se recomenda.»
plb

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