Quando o povo acredita…

Joaquim Gouveia - Capeia Arraiana (orelha)

Nos tempos que correm é cada vez mais difícil acreditar em promessas, a maior parte das vezes, usadas para alcançar objetivos que, de outra forma dificilmente assim aconteceria. Para muitas pessoas a «palavra» deixou de significar honra e vergonha, para dar lugar a um conjunto de vocábulos usados em contextos cirurgicamente trabalhados.

Oferendas a Santo António - Casteleiro - Joaquim Gouveia - Capeia Arraiana

Oferendas a Santo António – Casteleiro

Não, não é desse grupo de pessoas que me vou ocupar. Bem pelo contrário, desejo apenas que aprendam, isso sim, com o povo, com aqueles que sem qualquer maldade ou processo de segundas intenções são cegamente cumpridores da palavra dada.
São assim na relação que estabelecem com os outros, como perante Aquele a quem um dia mais tarde, quando o sino dobrar e o senhor prior encomendará a sua alma, prestará contas.
É esta relação profunda, a maior parte das vezes silenciosa, que o povo crente estabelece com os santos seus devotos, a quem confiou as sementeiras, os animais e a sua própria saúde e que em dia de festa, faz questão de acarinhar.
Numa análise criteriosa e objetiva à relação que o povo do Casteleiro estabeleceu entre a sua forma de vida e a sua fé, facilmente compreendemos que esta harmonia traduziu-se sempre em manifestações diversas que ocorriam ao longo do ano, culminando com a festa de Santo António, em pleno mês de agosto.
Não era por acaso que em pleno inverno, e, depois de morto, com sua licença, o porquinho, a dona da casa ofertava ao Santo António uma chouriça avantajada, muitas vezes utilizando uma tripa do tamanho do dito, que seria arrematada no largo da praça, num domingo à saída da missa, pelos mordomos responsáveis pela festa, em sinal de agradecimento pela mesa farta que o animal iria trazer à família.
Ou então, quando na antiga vila de Sortelha, as juntas de vacas muitas vezes exibindo uma vela em cada um dos chifres, acompanhadas dos seus ganhões, de fato domingueiro, participavam na procissão no dia de festa de Santo Antão agradecendo este potencial de força tão necessário nas tarefas do campo!
Ou ainda, quando os pastores guiavam os seus rebanhos de ovelhas pelas ruas dos Três Povos (Escarigo) em plena festa de S. Bartolomeu – 24 de agosto – cumprindo as promessas feitas em pleno rigor do inverno, altura em que os lobos esfomeados, constituíam uma ameaça constante às ovelhas e filhotes mais vulneráveis.
E como poderia eu não lembrar a Senhora da Póvoa, a protetora de todas as colheitas, da saúde de todos, romaria a que ninguém do povo faltava, incluindo a garotada. Era naquele santuário que muitos faziam a sua «desobriga», confessando-se e comungando para o resto do ano, entre o sermão do senhor prior e as promessas de joelhos ou de barriga, à volta da capela da Senhora, pedindo ou agradecendo graça tamanha!
Sem querer esgotar os sinais de honra da palavra do povo humilde e trabalhador do Casteleiro refiro, ainda, o acender de velas junto do altar do Santo a quem pretende agradecer ou, então, o acender de velas na igreja durante os quatro domingos imediatamente a seguir ao funeral do ente querido ou ainda em sinal de agradecimento ao Santíssimo Sacramento.
Estas manifestações religiosas e outras fazem parte o património imaterial do nosso povo. Cabe a todos nós compreendê-lo, respeitá-lo e preservá-lo.
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«Viver Casteleiro», opinião de Joaquim Luís Gouveia

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