Tempo de cravelo

Joaquim Gouveia - Capeia Arraiana (orelha)

Longe vai o tempo em que o cravelo era uma refeição essencial para quem, de sol a sol, e por entre a seara dourada, desafiava o sol escaldante dos dias de Verão. Uma refeição ligeira a meio da manhã reforçava as energias, tão necessárias ao duro trabalho do campo.

espiga de trigo - capeia arraiana

Espiga de trigo

A jornada é longa e pesada, tão longa como os dias deste tempo de Verão, em que o calor persistente deixa o «renovo» seco e de folha torcida.
Lá ao longe o centeio dourado deixa suas «praganas» penetrarem bem fundo, no lenço que o Ti Manel trazia ao pescoço, para que o suor gemido pelo cabelo, algo enriçado, não penetrasse nas suas costas, também estas, escaldantes.
O dia tinha então começado e o grupo de homens e mulheres, de foice em punho, desafiavam-se mutuamente para mostrarem a sua garra e tenacidade. De perto, o patrão, bem do alto da sua altivez, acompanhava o grupo destemido, encorajando-o a chegar, ainda mais longe.
Para trás as «poveias» multiplicavam-se, evidenciando assim, uma boa colheita, coisa que a todos agradava pois, quanto mais grão e palha produzia a seara mais bem visto ficava o grupo de ceifadores e, com pouco de sorte, seriam recompensados no dia de receber.
Por momentos fez-se silêncio… um silêncio que ecoava naquela serra a que, um dia, alguém chamou de Ópa. Do povo vinham as dez badaladas do sino da igreja.
Era hora de parar! Era a pausa para o cravelo. Reunidos junto à pequena sombra de umas giesteiras bem perto da casa, que mais tarde haveria de receber a palha a quem já tinham extraído o centeio, sentavam-se no chão e aconchegavam o estômago, que o almoço já tinha sido há muito tempo.
Retomado o trabalho, agora com o corpo recomposto, o Ti Manel encarregue de manter os «nagalhos» sempre bem molhados dirigiu-se até à mina, de onde saía a água fresca que acalmava as gargantas dos ceifadores. Depois de os «batchicar» bem «batchicados» regressou ao grupo, desta vez com a cântara de barro cheia do precioso líquido.
As cantigas entoadas de forma sôfrega ajudavam a ritmar o trabalho braçal e a levar por diante aquela «frente de batalha». À lembrança vinham os versos à Senhora da Póvoa, vizinha e companheira que ajudou ao «milagre da germinação», misturados com divertidas peripécias, a roçar o picante, das malandrices passadas por alturas das romarias.
E já com o sol no horizonte poente, a serra d’Opa despedia-se daqueles braços cansados, daqueles rostos tostados pelo sol, dizendo: «Que a manhã, outro novo dia nos traga.»
E a cadência dos dias cumpriu-se!
Na manhã seguinte, o sol voltou a brilhar e a beijar o rosto daqueles que o têm como companheiro.
:: ::
«Viver Casteleiro», opinião de Joaquim Luís Gouveia

Deixar uma resposta