O imparável fecho das escolas

Paulo Leitão Batista - Contraponto - © Capeia Arraiana (orelha)

O afã com o encerramento das escolas do interior volta no final de cada ano lectivo num processo frenético que destrói o pouco que resta nas aldeias. O Sabugal, perante o anunciado fecho da escola de Santo Estêvão, foi um dos concelhos afectados, mas isso não parece preocupar suficientemente os responsáveis políticos do Município.

O governo decidiu encerrar a escola de Santo Estêvão (Sabugal)

O governo decidiu encerrar a escola de Santo Estêvão (Sabugal)

O ministro da Educação e Ciência, Nuno Crato, afirmou que o encerramento de escolas com menos de 21 alunos «é normal e já está previsto há bastante tempo». Para o governante, o objectivo é para cumprir, tendo enviado aos municípios indicações para encerrarem 311 escolas. Boa parte dos autarcas, como foi o caso do edil sabugalense, resignaram-se, mas outros, como o presidente da Câmara da Guarda, Álvaro Amaro, contestaram a decisão e garantiram que continuarão a debater-se para que as escolas não fechem efectivamente.
Desde o ano 2005 foram encerradas em Portugal 4.031 escolas, quase todas no interior, onde o imparável processo de despopulação fomentado pelos sucessivos governos lançou a desgraça e a desolação.
O desbaste foi de tal ordem que o número de escolas fechadas ultrapassa largamente o das que se mantêm abertas.
No concelho do Sabugal todas as escolas estão em risco. Cada ano que passa há novos encerramentos e em breve restarão apenas as do Sabugal e do Soito, ainda que ninguém saiba por quanto tempo.
O governo move-se pela ideia da eficácia financeira, mas apresenta outro tipo de argumentos: reduzir os riscos de abandono e insucesso escolares; integração dos alunos em contextos educativos mais favoráveis e de melhor qualidade; redução do número de turmas com alunos de diferentes anos de escolaridade; erradicação do isolamento de estabelecimentos de ensino.
Mas há outra perspectiva, que tem em conta questões sociais e territoriais. Contesta-se a ideia de que o fecho das escolas erradica o insucesso escolar, pois não há resultados que o comprovem. Por outro lado, o fecho das escolas atira os alunos para longe do seu meio familiar e social, sujeitando-os a longas viagens e privando-os do acompanhamento e da protecção de quem os conhece e em quem eles confiam.
E o que tem feito o Município sabugalense? Afirma que a decisão veio de Lisboa e remete-se ao silêncio.
Ao invés de lavar as mãos como Pilatos, a Câmara deveria optar pela defesa intransigente dos interesses educacionais dos alunos do concelho, assim como das suas famílias e das gentes de onde os querem desenraizar. Deveria argumentar com a boa rede de transportes escolares, o fornecimento de refeições de qualidade, o acesso das escolas às tecnologias de comunicação e do conhecimento, as boas condições de segurança dos alunos, a sua profunda ligação à comunidade e a importância que as escolas rurais revestem no combate à desertificação humana.
A verdade é que o encerramento de uma escola rural corresponde à morte da aldeia onde a mesma estava implantada. Esse é o fatalismo atroz a que estamos sujeitos.
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«Contraponto», opinião de Paulo Leitão Batista

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