Discurso de Rui Agonia Pereira

Sabugal - © Capeia Arraiana (orelha)

Por intermédio do nosso conterrâneo e colaborador do Capeia Arraiana Alcínio Vicente, chegou-nos o discurso proferido pelo Professor Rui Agonia Pereira por ocasião do 8º Encontro dos Alunos e Professores do Colégio do Sabugal, que aconteceu no dia 31 de Maio. Agonia Pereira foi docente de Matemática, Física e Desenho no Externato Secundário do Sabugal, tendo marcado a juventude e a vida de boa parte dos estudantes que por ali passaram.

Agonia Pereira à conversa com Rogério Lourenço Robalo (foto Natália Bispo)

Agonia Pereira à conversa com Rogério Lourenço Robalo (foto Natália Bispo)

Bem haja à Comissão que nos convidou, a mim e minha mulher Maria Alice – também Docente no Colégio – para aqui estarmos; é um gosto.
As Comissões de confraternização tornam perene o Colégio do Sabugal, Externato Secundário do Sabugal.
Nós todos sentimos a falta dos que já partiram. Todos fazem muita falta mas este encontro de confraternização a todos traz à presença. Uns educadores e outros aprendizes/alunos. Nos primeiros está o meu querido Amigo Dr. José Diamantino – o Autor do Colégio. Dos alunos já são muitos os que nos deixaram e muito também nos lembram. A mais recente foi a Isabel; e imediatamente antes fora o José Sapinho e logo antes o Joaquim Diamantino. Tinham todos a vontade de aprender – como todos os outros felizmente entre nós – e o Dr. Diamantino a motivação de ensinar. E o Colégio ensinava e educava.
O mais fundamental dos ingredientes foi e continua a ser a motivação- sempre apanágio das pessoas do Colégio do Sabugal.
Muito recordo o ambiente de entusiasmo e motivação que havia no dia-a-dia do Colégio – que se vivia.
Nesse tempo vigorava a aula presencial. Mas trocavam-se experiências e consentia-se a crítica.
Assistimos a que o professor no papel e função de informante passa a gestor de atividades e processos. A sua função é hoje maior e mais alargada, por mais alargadas serem as áreas do conhecimento, quiçá mais rica: a função de transmissor da informação está mais alargada com maior abrangência porque é um gestor das atividades dos formandos/alunos.
A aula presencial vem-se diluindo na riqueza do ensino à distância mediado pela Internet, o ensino virtual.
O conceito e prática do ensino presencial está obviamente em causa?
O ensino à distância virtual ganha jus porque a Sociedade obriga a uma educação permanente ou contínua; e o ensino presencial (mesmo ajudado pelo virtual?) não tem hoje possibilidades de cumprir esse desiderato.
A vida mudou e o ensino e a educação a montante ou a jusante têm de acompanhar a evolução (alteração) constante da Sociedade.
Ensinar é procurar colher informação selecionando-a e organizá-la de modo a que possa ser transformada em conhecimento sempre em contexto essencialmente comunicativo.
Essa organização da informação é hoje fortemente facilitada ou, melhor, auxiliada pela Internet que sem dúvida propicia uma melhor ligação do aluno ao professor e deste aos alunos e destes entre eles no dia-a-dia e daqueles que estão muito distantes. O mesmo é verdadeiro para os professores: da ligação de uns com os outros. E de todos com os alunos/formandos onde quer que todos estejam: geograficamente muito ou pouco distantes uns dos outros.
As trocas de experiências e as suas vivências por todos os atores, pelo menos alunos e professores, constituem a maior fonte de conhecimento proporcionado pela Web, instalada na Internet, com todos os seus recursos e meios que a consubstanciam.
Decorre também que o processo de avaliação, formativo e sumativo, no contexto resultante do aproveitamento da utilização da Internet já não é mais o que foi.
Pese embora a verdade de que a avaliação do meu tempo e do tempo dos tempos de trás ainda cisma hoje em prevalecer. Mas tem muitos inconvenientes, tantos quantos ao longo dos tempos o teve?
Tantos passavam de ano sem o merecerem e tantos não transitavam injustamente.
Se os processos de comunicação de professor/tutor e alunos/formandos são hoje outros, mais ricos e sobretudo muito mais interativos, mais eficazes e mais saudáveis pelos meios e recursos que a Web propicia e os meios de comunicação então implícitos a avaliação do meu tempo está em causa. Outra está em apreço?
As trocas de informação, o tirar de dúvidas e o à-vontade dos professores e alunos/formandos em rede tudo mudaram.
Isto não significa que não urja saber-se dos projetos pedagógicos que devem ser implementados no aproveitamento cada vez mais sofisticado dos meios tecnológicos e de comunicação e aprendizagem.
Mas não nos podemos esquecer que educar é aprender a gerir as informações e transformá-las para serem significativas – para se obter conhecimento. Informação significativa em contexto é conhecimento.
Hoje temos muita informação, porventura pouco conhecimento.
Mas educar não é só obter conhecimento. É também saber gerir valores, sentimentos, afetos, emoções e as regras da vivência ética, isto é, da sã convivência moral. É assim que educar é bastante mais que ensinar conceitos porque é fundamental gerir as emoções e os sentimentos e as sensações que nos permitem viver com confiança. Não basta trabalhar se lhe não dermos um sentido.
O professor/tutor que tem uma atitude de equilíbrio e que inspira confiança pode estar certo que os seus alunos/formandos são positivamente muito ajudados na aprendizagem- aprendem melhor.
A educação só tem sentido se trabalharmos com valores que nos ajudem a realizarmo-nos. Não basta o dinheiro. Trabalhar só para o ter e gastar não dá sentido e bastante pior se acima das nossas necessidades.
O ensino à distância de hoje, o virtual, chamado de e-Learning (o “e” é de eletrónico) aparece como um conceito genérico, abrangente, para o enorme domínio da formação com recurso às novas tecnologias e já sofisticados meios de comunicação onde a Internet é o meio que tudo suporta neste processo de ensino e aprendizagem.
A melhoria do tempo útil do trabalho e menores custos na formação/aprendizagem são razões fortes para a implementação do e-Learning quer nas instituições de ensino quer nas empresas.
É de se não subestimar a avaliação crítica da aprendizagem/formação pelos alunos /formandos na medida em que a crítica é um bem a que os alunos/formandos tacitamente se obrigam.
Admite-se que os níveis de iliteracia que grassam pelo mundo possam sofrer forte diminuição através do e-Learning. Convém que todos tenham computador a ligar-se á Internet.
Ora o Colégio do Sabugal realizava tudo que hoje se exige, naturalmente, com muitos mais e melhores recursos.
O Colégio tinha a motivação- porque lutam hoje as escolas secundárias e superiores-de todos que lá trabalhavam e estudavam- o pessoal administrativo, alunos e professores.
Lá se ensinava e educava. Tenho saudades desse tempo onde a avaliação era partilhada e o aluno muito colaborava para ela.
Não se pode esquecer o Colégio do Sabugal.
Disse.
Rui António Agonia Pereira

6 Responses to Discurso de Rui Agonia Pereira

  1. Este ilustre academico, continua a ser um HOMEM demonstrando a muitos que foram seus alunos, tal como eu, que valeu a pena ouvi-lo.Os meus sinceros agradecimentos.Gosto.

    • Cara Alcina Soares, Não tenho palavras que mostrem como aprecio a sua generosidade. Tive os melhores Alunos de sempre e milhares foram os que nas Universidades também tive mas a todos sempre apontei o entusiasmo que se vivia no Colégio do Sabugal que Vocês não deixam acabar.

  2. Natalia Bispo diz:

    Mais um dia que teima em se repetir para emoção de antigos alunos, professores e funcionários. Foi com surpresa que vimos o Dr. Rui surgir neste 8º Encontro e com atenção ouvimos palavras sábias que nos tocaram. Bem-haja pela presença.

  3. Natália, Foi um gosto enorme vê-la na Festa de Confraternização que a si muito deve. As suas palavras são as de uma Amiga que se tem presente. Bem haja e um beijinho à sua Mãe.

  4. Caro Professor Rui Agonia Pereira – Todas as suas comunicações contêm lições de vida, com as quais aprendemos nesta passagem terrena. Esta, sobre meios de educar nos nossos tempos, muito me alegrou, pois, como bem sabe, partilhamos esta boa missão de ensinar. Bem haja por mais esta sua lição.
    Gostaria de salientar das suas palavras, as que mais sonantes me ficaram:

    «Ensinar é procurar colher informação selecionando-a e organizá-la de modo a que possa ser transformada em conhecimento sempre em contexto essencialmente comunicativo.

    Assistimos a que o professor no papel e função de informante passa a gestor de atividades e processos.

    O ensino à distância virtual ganha jus porque a Sociedade obriga a uma educação permanente ou contínua; e o ensino presencial (mesmo ajudado pelo virtual?) não tem hoje possibilidades de cumprir esse desiderato.

    Isto não significa que não urja saber-se dos projetos pedagógicos que devem ser implementados no aproveitamento cada vez mais sofisticado dos meios tecnológicos e de comunicação e aprendizagem.

    … educar é aprender a gerir as informações e transformá-las para serem significativas – para se obter conhecimento. Informação significativa em contexto é conhecimento.
    Hoje temos muita informação, porventura pouco conhecimento.
    Mas educar não é só obter conhecimento. É também saber gerir valores, sentimentos, afetos, emoções e as regras da vivência ética, isto é, da sã convivência moral.

    A educação só tem sentido se trabalharmos com valores que nos ajudem a realizarmo-nos.
    »

  5. Caro Professor Paulo Silveira, Muito me sensibiliza a sua generosidade.As suas palavras são um bálsamo e são muito importantes para mim. O Sabugal e as suas Gentes são algo que me entusiasmou. O Colégio devia ser visto como um exemplo de entusiasmo e motivação nacional. O futuro desses brilhantes alunos foi previsto por mim e aí está: homens e mulheres sérias de educação esmerada. É assim o Sabugal. Um abraço do que o estima, R. Agonia Pereira

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