O amigo ribacudense de Rembrandt

Adérito Tavares - Na Raia da Memória - © Capeia Arraiana (orelha)

Em 5 de Dezembro de 1496 o rei D. Manuel I assinou o decreto que forçava os judeus a converter-se ao cristianismo ou, caso recusassem, a serem expulsos de Portugal. Muitos dos que se viram obrigados a sair da terra onde nasceram foram estabelecer-se em países mais tolerantes, como a Holanda. Alguns deles eram cultos e dinâmicos, gente que viria a fazer muita falta em Portugal e que, em contrapartida, contribuiria para o progresso cultural e económico do Norte da Europa. Foi o caso de Martim Álvares (que depois adoptaria o nome hebraico de Ephraim Ezekiah Bueno), médico e amigo do pintor Rembrandt, que a Inquisição tinha forçado a sair de Castelo Rodrigo ainda criança.

Rembrandt: A Lição de Anatomia do Dr. Tulp (1632)

Outra gravura, esta de Jan Lievens, representando Ephraim Bueno em 1656 - Capeia Arraiana Ephraim Bueno numa gravura de Rembrandt (1647) - Capeia Arraiana Quadro a óleo de Rembrandt, de 1647, representando o médico Ephraim Bueno (Martim Álvares) - Capeia Arraiana

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O blogue «Capeia Arraiana» já publicou vários artigos sobre a presença judaica em terras de Riba-Côa, nomeadamente os da autoria do Doutor Jorge Martins. Na verdade, sabemos que as vilas da Beira mais próximas da raia, como Penamacor, Sabugal, Almeida, Belmonte, Trancoso, Castelo Rodrigo e Vila Nova de Foz Côa não só albergavam numerosas comunidades medievais de origem judaica como receberam, no tempo dos Reis Católicos, centenas de refugiados provenientes de Espanha.
Em 1492, Isabel e Fernando – os Reis Católicos – conquistaram o último território muçulmano da Península, o Reino de Granada. E foi justamente no belíssimo Palácio Árabe da Alhambra que, em 31 de Março de 1492, os reis de Espanha (cujo lema era «Manda tanto, tanto manda Isabel como Fernando») assinaram o decreto de expulsão ou conversão forçada dos judeus e dos mouriscos, contra o qual se levantou apenas uma voz corajosa, a do rabino D. Isaac Abravanel. Esta decisão haveria de inspirar, quatro anos depois, o rei de Portugal D. Manuel I (que era genro dos Reis Católicos) a fazer o mesmo.
Muitos dos judeus que partiram vieram fixar-se em Portugal, onde ainda reinava D. João II, que os aceitou, embora lhes impusesse pesados tributos. Foram muito numerosos os judeus que escolheram fixar-se nas vilas portuguesas fronteiriças porque desse modo continuavam mais perto das terras onde tinham deixado familiares, amigos e negócios. Muitos desses recém-chegados, porém, não ganhariam raízes nas terras da Beira, uma vez que o decreto manuelino da conversão forçada ou expulsão do Reino não demoraria muito a ser publicado.
A comunidade judaica de origem ibérica que se estabeleceu em Amesterdão acabaria por deixar marcas profundas na sociedade holandesa, marcas que perduraram até ao «extermínio» nazi. Aí seria construída a imponente Sinagoga Portuguesa, que ainda hoje se pode visitar (no século XVII viviam em Amesterdão cerca de 400 judeus de origem portuguesa).
Em Amesterdão diz-se que Deus criou o mundo e os Holandeses criaram a Holanda. É que a maior parte do seu território foi conquistado ao mar. No século XVII (o «século de ouro» da República das Províncias Unidas, que haveria depois de ser conhecida como Holanda), floresceu aí uma sociedade governada por um Parlamento de origem burguesa, uma sociedade onde encontramos o primeiro grande banco, uma bolsa financeira e uma bolsa de mercadorias, grandes companhias de comércio, e onde a arte da pintura atingiu um brilho inigualável, com Vermeer, Rembrandt, Frans Halls, etc. (estão contabilizados cerca de 350 pintores com obra conhecida, só neste século).
Rembrandt (1606-1669) viveu, com a sua família, no bairro judeu de Amesterdão (que não era um gueto). Aí conheceu e se tornou amigo de alguns judeus de origem ibérica, entre os quais Manuel Dias Soeiro (que depois adoptaria o nome israelita de Manasseh ben Israel) e Martim Álvares (conhecido como Ephraim Bueno). Manasseh ben Israel, que nasceu em Lisboa, foi um brilhante teólogo judaico e poliglota (dominava cinco línguas), tendo fundado a primeira tipografia hebraica da Holanda. Ephraim Bueno nasceu em Castelo Rodrigo, em 1599, e viria a formar-se em medicina na Universidade de Bordéus. Tornou-se um dos mais conceituados clínicos europeus do seu tempo, tendo sido médico de Rembrandt e da sua família. E, mais do que médico, Ephraim Bueno foi um dos melhores amigos do pintor, que o retratou em duas obras: uma gravura e uma tela a óleo (ambas aqui reproduzidas). Existe uma outra gravura, da autoria de Jan Lievens, que mostra Ephraim Bueno já um pouco mais velho, com 57 anos.
A influência desta amizade na própria obra de Rembrandt pode admirar-se na qualidade e fidelidade dos pormenores anatómicos de algumas das suas pinturas, como por exemplo na «Lição de Anatomia», também aqui incluída.
A História não se ocupa do que podia ter acontecido mas daquilo que aconteceu. Às vezes, porém, colocamos hipóteses a que chamamos «história contrafactual» – qual teria sido o caminho de uma determinada sociedade se… Neste caso, podemos perguntar: qual teria sido a história do nosso País se nunca tivesse havido Inquisição e se nunca tivessem sido expulsos os judeus? Se tivéssemos contado com o seu espírito de iniciativa, o seu empreendedorismo, o seu conhecimento, as qualidades que, afinal, foram colocar ao serviço de uma Europa mais aberta e mais tolerante? Nunca o saberemos.
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«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares

ad.tavares@netcabo.pt

7 Responses to O amigo ribacudense de Rembrandt

  1. Jose Marques Valente diz:

    Obrigado Dr. Adérito, nunca te canses de nos ensinar estas coisas. Um abraço José Valente

    • Adérito Tavares diz:

      Caríssimo amigo e colega Marques Valente
      Obrigado pelas tuas sempre estimulantes palavras. Descobri o Doutor Ephraim Bueno há pouco tempo, quando estávamos a preparar a última edição do manual de História para o 8º ano. Foi um homem fascinante e a sua amizade com Rembrandt foi muito profunda e duradoura.
      Um abraço.
      Adérito Tavares

  2. Maria Máxima Vaz diz:

    Gostei muito de saber! Obrigada Adérito. Ver crescer assim a História da nossa terra e do nosso país, enche-me de orgulho. Acrescenta o nosso saber a partilha que aqui se faz. Nunca é tarde para aprender.
    Um abraço agradecido,
    Maria Máxima

    • Adérito Tavares diz:

      Caríssima Amiga Maria Máxima Vaz
      Obrigado pelas suas palavras que, vindas de oficial do ofício, têm valor redobrado. Sem que seja entendido como troca de galhardetes, devo dizer-lhe que gosto sempre das suas crónicas no “Capeia Arraiana”, como acontece agora com a notícia do jornal “O Combate”, que eu não conhecia de todo.
      Retribuo o abraço amigo.
      Adérito

  3. Maria do Carmo Mugeiro Azevedo diz:

    Informação valiosíssima…..O meu obrigada,e é para mim, também, um prazer, ler o
    comentário da GRANDE SENHORA Drª Máxima Vaz.

  4. Parabéns, caro Colega! Além de ser um excelente autor de manuais escolares, que muitos de nós utilizámos com os nossos alunos, também revela mestria em incursões na temática judaica.
    Abraço,
    Jorge Martins

    • Adérito Tavares diz:

      Caro Doutor Jorge Martins
      Prezado colega
      Obrigado pelas suas palavras. Esta área é sua. Meti a minha foice em seara alheia porque achei que valia a pena revelar aos meus conterrâneos que o não conhecessem este fascinante amigo ribacudense de Rembrandt.
      Abr.
      Adérito Tavares

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