Memórias sobre o Concelho do Sabugal (72)

:: :: SABUGAL (6) – Fonte, ponte e edifícios públicos :: :: O livro «Terras de Riba-Côa – Memórias sobre o Concelho do Sabugal», escrito há mais de um século por Joaquim Manuel Correia, é a grande monografia do concelho. A obra fala-nos da história, do património, dos usos e dos costumes das nossas terras, pelo que decidimos reproduzir a caracterização de cada uma das aldeias nos finais do século XIX, altura em que o autor escreveu as «Memórias».

Sabugal - Largo da Fonte

Sabugal – Largo da Fonte

A Fonte antiga
A famosa fonte do Sabugal, como o castelo e a ponte há tantos séculos cantados, desapareceu em 1904.
Em vez dela existe agora um chafariz a poucos metros de distância. Depois de grandes tentativas para destruição daquela veneranda relíquia, só naquele ano ela se consumou. Muito desfigurada estava já a velha fonte há muitos anos; mas, tendo mitigado a sede a tantas gerações, deslizam agora as águas desse poderoso manancial para caírem das bicas dum chafariz, que uma vereação inimiga de velharias fez a grande custo levantar ao fundo da fraga, pondo-lhe no alto a coroa real.
Deve causar saudades aos velhos camponeses do concelho, que no lajedo do pátio da fonte, nos dias de S. Pedro, ali cantavam ao som do pífano e viola. Saudades nos causa a nós também, que tantas vezes ali vimos divertir o povo e saudades às velhinhas da vila que tantas recordações lhes há-de trazer.

A Ponte
Diremos agora algumas palavras a respeito da ponte do Sabugal, que com a fonte e castelo tão cantada tem sido.
Já dissemos que fora mandada edificar por D. Deniz, copiando a tal respeito a quadra que uns diziam estar numa das abóbadas da torre de menagem e outros num dos arcos da ponte.
Mas nem numa, nem outra parte existe aquela inscrição, que muito tem sido procurada. Não conhecemos documento algum com que possamos dar como certo que a ponte seja da época de D. Deniz; não repugna, porém, acreditar que fosse este rei o seu fundador, bem como da fonte e castelo, como já tivemos ensejo de demonstrar.
O que podemos asseverar é que é muito antiga e sólida, tendo resistido há muitos séculos ao embate das águas do Côa, cuja corrente é muitas vezes formidável, arrastando troncos de árvores, impetuosamente arremessados contra ela, sem nunca lhe deslocar uma só pedra (1).
Esta ponte concorre poderosamente para aformosear a entrada tão pitoresca da vila, fazendo com o rio e avenida que costeia a esplanada do castelo e sobre tudo com este, cujas muralhas estão profusamente revesti- das de hera, o mais harmonioso conjunto (2).
Tinha sofrido algumas modificações, sobretudo nas guardas, e alguns vandalismos.
Mais notável do que ela são a ponte de Sequeiros e a da Cerdeira, aquela também sobre o Côa e esta sobre o Noemi, perto da estação deste nome, do caminho de ferro da Beira-Alta (3).
Na margem direita do Côa e em frente da ponte do Sabugal vê-se, entre quatro cedros, a ermida do Senhor dos Aflitos, cuja imagem é muito venerada e da maior devoção do povo, embora sem mérito artístico. Quantas vezes, altas horas da noite, ali vimos mulheres dando volta à ermida, de joelhos, e quantas mais observámos que os Quadrazenhos se apeavam dos seus cavalos lestos, para lançarem uma moeda ao Senhor dos Aflitos, para que os livrasse dos guardas da alfândega, seus eternos inimigos e deixasse vender o tabaco espanhol, os lenços de seda, os caichenez, o chocolate, o azeite de anis e tantas outras coisas da mesma procedência.
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Já depois de termos saído da vila foi construída uma estrada de macadame, partindo da ponte, costeando o outeiro e terminando no largo da fonte, onde se liga à rua de S. Sebastião. Foi um bom melhoramento.

Edifícios públicos
Depois desta sucinta notícia a respeito das igrejas e ermidas, fonte e ponte do Sabugal, devemos fazer menção dos edifícios onde estão instalados o tribunal da comarca, cadeia e casa da câmara, repartição de fazenda e recebedoria, correio e telégrafo, administração, conservatória, quartel militar, matadouro e talho municipal.
A cadeia consta de dois compartimentos no rés-do-chão do edifício do tribunal, um deles de pequenas dimensões, ambos para homens, e de uma sala e um quarto contíguo, nos altos do edifício, para mulheres.
O edifício do tribunal e cadeia foi construído ou terminado em 12 de Setembro de 1852, por iniciativa do juiz dr. Vicente Pereira de Figueiredo, como consta da inscrição feita na padieira duma das janelas.
O resto do edifício, onde estiveram instaladas a administração do concelho e repartição de fazenda, antes de serem mudadas para o novo edifício que se vê na face ao norte do largo de Santiago, foi construído à custa da câmara e terminado em 28 de Setembro de 1859, como consta também doutra inscrição. Nos baixos deste esteve durante muito tempo instalada a escola de instrução primária, para o sexo masculino, apesar das suas péssimas condições higiénicas, tendo servido também para quartel militar.
O edifício, devido à iniciativa do juiz de direito acima referido, foi construído à custa de multas impostas por ele aos que eram condenados, dizendo-se que os Quadrazenhos contribuíram com a maior parte. Algumas vezes ouvimos dizer que a porta foi paga pelo Neto, da Nave, dizendo-se por isso que o Neto fechara a porta.
De 1903 a 1904 fizeram-se grandes alterações no interior do edifício. Tanto este, como a casa da câmara, foram construídos no ponto onde corria a antiga muralha da vila, e as fachadas e entradas principais são do lado da velha praça, na qual existia o pelourinho, cuja pedra foi aproveitada há muito para edifícios particulares. O pavimento da praça é de nível superior à estrada que vem da ponte e segue até Vila-Boa, sendo ornada de quadriláteros de cantaria, que servem de molduras a variados quadros em mosaicos, feitos com pequenas pedras de xisto, trazidas do leito do rio Côa, alguns imitando violas.
É ali que se realiza parte dos mercados dos domingos e das primeiras quintas-feiras de cada mês.
A casa da câmara é de modestíssima aparência e de exíguas dimensões, devendo mencionar-se, contudo, a sala das sessões, no centro da qual está uma boa mesa de nogueira. Vêem-se ali algumas estantes com a colecção da legislação, embora incompleta e outros livros mais, necessários à repartição.
Do mobiliário, devemos fazer menção das sete cadeiras estofadas, destinadas aos vereadores, tendo a do presidente’ as armas da vila feitas em baixo relevo no espaldar.
Do tecto pende um lustre de cristal. Esta sala é suficientemente espaçosa para o fim a que é destinada.
Tem a casa da câmara, além desta sala, a da secretaria, gabinete do secretário e o arquivo, e, no rés-do-chão, casa para aferição de pesos e medidas e arrecadação, estando ali também instalado há tempos o tribunal do juízo de paz.
E, visto que nos estamos ocupando da casa da câmara, para não empregarmos o nome pomposo de paço municipal, tão descabido num tão humilde edifício, faremos menção do arquivo, para lamentarmos a sua pobreza de documentos. Comparar a riqueza de documentos de alguns arquivos municipais com a miséria deste, causa grande tristeza.
Dos antigos forais, existem os de D. Manuel dados ao Sabugal e a Sortelha e não sabemos se ainda ali existe também o de Vilar Maior.
Muitos livros e documentos de valor que havia, desapareceram a pouco e pouco, e restos de alguns vimos nós em mãos de vendedores de pimento num dia de mercado. O resto que existe é já de mediana ou nula importância. Há poucos anos (1901) apareceu numa casa particular, que fora dum antigo funcionário da câmara, um cofre, ou antes, caixa, de bronze, que servia para guardar as antigas medidas. Pesava 6 quilos. Consta-me que fora oferecida ao governador civil do distrito da Guarda, em vez de ser restituído à Câmara.
Mas, ou quem a ofereceu àquele magistrado ou este mesmo, tiveram a consciência de que seria mais garantida a conservação d objecto nalgum museu e por isso não foi restituído a seu dono. Na tampa tem sete orifícios e dois no corpo principal, destinados aos pregos que seguravam a fechadura, que tinha sido retirada. A caixa tinha em letra gótica a seguinte legenda:
D. Manuel Rei de Portugal Ano de 1499.
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No arquivo existiam os tombos do concelho do Sabugal, Sortelha, Vila do Touro e os arquivos destes concelhos extintos, bem como do de Alfaiates.
Do livro destinado aos autos de arrematações da Vila do Touro se vê que para ser reparada a casa do povo foi a obra arrematada com a condição de o arrematante fornecer material e fazer o trabalho, podendo depois de concluída possuí-la durante seis anos, sem pagar renda alguma. Presidiu a esta arrematação o capitão José António Capelo e era escrivão Bernardo António das Póvoas. Este auto dá ideia da pobreza do extinto concelho da Vila do Touro.
Entre as arrematações figuram nesse livro as dos concelhos dos povos, do vinho ou obriga das tabernas, das marradas, afilamentos de peso e medidas, malhadas, ervagens, etc.
Do livro de contas, vindo do extinto concelho de Sortelha e relativo à freguesia da Bendada, em cujo rosto se lê: «Livro de receita e despesa do concelho do lugar da Bendada, vimos a sentença do teor seguinte: O dr. João Ferreira Sarmento Pimentel, cavalleiro Professo na ordem de Christo condecorado com as medalhas da Guerra Peninsular da Real effigie de sua Magestade Fidelíssima EI Rei Nosso Senhor que Deus Guarde, do Seu desembargo e Seu desembargador Provedor nesta comarca de Castello Branco, etc.
Faço saber que eu tomei contas ao rendimento do concelho do lugar da Bendada e pelo anno de 1829 e achei haver de receita a quantia de sessenta e quatro mil quatro centos e noventa e sete e despeza em igual quantia pertencendo a terça de Sua Magestade como se vê da Liquidação a fl. 240 a quantia de quatorze mil novecentos e vinte e três réis, o que tudo julgo pela minha sentença.
Dada e passada no Casteleiro em 18 de Outubro de 1830.
E eu Gregório do Nascimento Marôtto que a escrevi
a) João Ferreira Sarmento Pimentel
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Do livro das contas de Sortelha relativo ao ano de 1853 a 1854 se vê que o escrivão da câmara tinha de ordenado 6000 réis, o da administração do concelho 40000 réis, tesoureiro da câmara 9000 réis, professor de ensino primário 20000, carcereiro 10000 réis, administrador do concelho 50000 réis, oficiais de diligências da administração 12000 réis, e da câmara 9000 réis, pregoeiro 20000 réis, e estafeta 15900 réis, o que perfazia a soma de 136.900 réis.
A receita das contribuições directas no ano de 1848 foi de 423.082 réis, havendo apenas em dívida a quantia de 38.205 réis.
Compunha-se então o concelho de Sortelha das freguesias seguintes: Sortelha, Casteleiro, Moita, Malcata, S.to Estevam, Urgueira (ou Aldeia de S.to António), Aguas Belas, Lomba, Pousafoles, Pena Lobo e Bendada.
O tombo de Sortelha foi mandado fazer por Filipe II ao Dr. Pedro Godinho de Carvalho, do desembargo de el-rei, no ano de 1615, encarregado de prover com alçada sobre os bens dos concelhos e terças nas comarcas da Beira. Desse documento, existente no arquivo, consta que a vila era reguengo da coroa. Era então do conde D. Luiz da Silveira, que apresentava o ouvidor.
Serviam em cada ano dois juizes, dois vereadores e um procurador, tendo jurisdição nas eleições dos almotacés, posteiros, jurados e quadriIheiros.
No mesmo documento se relacionam algumas cousas da vila, tais como castelo e cadeia, que estava dentro e de que era carcereiro o lugar-tenente do alcaide-mor, praça, pelourinho, casa de audiência e sino, bem como a casa do açougue.
Na vila existia só uma freguesia, pertencente à comenda de Cristo. Havia muitas capelas de que a câmara era fabriqueira, figurando entre outras a ermida da Senhora da Graça, no limite da Aldeia de S.to António, a 2.500 metros pouco mais ou menos do Sabugal.
O concelho tinha a renda das Achadas e juizes das Varas nas freguesias do termo.
Por curiosidade vamos transcrever na integra os §§ 22 e 23 do dito tombo:
§ 22. «Os officiais da camera da villa do Sabugal tem obrigação em cada hum anno no dia que se apsentar darem hum jantar aos officiaes da camera e outras pessoas da governansa desta villa de Sortelha, que com ellas vão á dicta villa do Sabugal, e os juizes desta entrão lá quando vão a este jantar com as varas alçadas, e com ellas assistem emquanto lá estam e depois de jantar o Procurador da villa do Sabugal paga hum tostão dEl-rei D. Manuel ao Procurador do concelho desta villa que lh’o offerecerá em huma salva de prata perante todos; e os vereadores e o Procura- dor da villa do Sabugal servem aos sobredictos á meza.»)
§ 23. «Tem mais obrigação os officiaes da camera da villa do Sabugal virem a esta camera da villa de Sortelha pedir contas em cada hum anno, para poderem encoimar, dos pães e soutos, que tem nesta villa de Sortelha da limitação que tem para a parte da sua villa».
No mesmo tombo se vê a respeito da freguesia de Aldeia de S.to António que era realenga do Conde de Sortelha e que fora reguengo da coroa, pagando de nove um. Em 1615, como constasse a quem fez a correição, que o juiz das Achadas condenara as partes em vinho, ajudando depois a bebê-lo quis pôr cobro a tão estranha prática, dizendo: …«pelo que ordeno aos vereadores que procedam de maneira a evitar tais abusos; sob pena de 2000 réis a cada um para a terça de Sua Magestade».

A casa dos Britos
Em frente da praça e tribunal e apenas separada pela rua vê-se uma antiga casa entre as ruas de Campos e de Carros, notável por uma curiosa varanda, cujo pórtico é encimado por um escudo, tendo de um lado um leão, duas flores de Iys e três costelas e do outro (esquerda do observador) duas flores de Iys, três costelas e um leão, de modo que dum lado está o leão em cima e do outro em baixo. A varanda abrange toda a largura da frente da casa e é toda de cantaria, assim como o pavimento da mesma, que tem acesso por “um curioso pórtico, ladeado de colunas jónicas, que suportam o escudo. Este destaca-se ao meio duma pedra quadrangular sobre que assenta simples cimalha coroada por outra em forma de concha. A varanda foi modificada, sendo agora coberta por telhado em substituição do pavimento doutros tempos. Outras colunas sustentam a parte superior da varanda, ornando as grandes aberturas que dão para as três ruas. Uma escadaria em semicírculo, formada de oito degraus, dá acesso a esta elegante varanda, que tem servido de abrigo a muitos viandantes e mendigos, devido à generosidade e altruísmo dos donos da casa, pertencente actualmente (1905) ao Dr. Emídio Gomes Dias e Neves, genro do saudosíssimo Dr. José Maximino da Silva Azevedo, que nesta varanda passava muitas horas e nela mitigou muitas mágoas e consolou muitos aflitos.
Esta casa pertenceu outrora ao Dr. Brito, uma das vitimas da guerra civil, que cruelmente foi perseguido. Cremos que era filha dele D. Rita de Brito, senhora muito respeitável, falecida nos fins do século passado, a qual recebia quatro mil réis mensais do Estado, assim como outra irmã, que ficaram na orfandade. Havia, porém, muitos anos que esta casa deixara de pertencer à família do Dr. Brito (4).
Quando em Agosto de 1902 Adelino Franco mandou rebocar e caiar a sua casa, que deita para a Praça, ficou tapada uma inscrição que existia numa pedra que fazia parte do peitoril duma das janelas, e dizia:
EST / AS /V / CAS/ M/DOU /FAZE[R]/SIMÃ/ VAZ /EST / COÃ / 160[?]

Esta casa parece ter sido construída há muitos anos com material de outras casas demolidas.
Em frente desta havia um grande edifício, todo de cantaria, ligado à chamada casa do passadiço.
Tal casa denota muita antiguidade. Foi incendiada no tempo dos Midões, mas parece que outrora tinha sofrido uma restauração. Contígua a esta havia outra, totalmente demolida e que serve agora de quintal, ficando em frente da casa da escada redonda. Quando foi construída a estrada de macadame que atravessa a vila e tem o nome de Rua de Carros, a câmara para aformosear a rua edificou a frontaria, que veda a entrada desse quintal, mas o proprietário, que era o já falecido escrivão António Joaquim Quintela, nunca fez o resto da obra (5).
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Nota 1– Em 22 de Dezembro de 1909, foi derrubado por uma cheia um dos seus arcos, pouco depois reconstruído.
Nota 2– A hera teve de ser arrancada há anos, por ameaçar destruir as muralhas com as suas raízes.
Nota 3– Também sofreu danos em 1909, mas não tantos como a do Sabugal.
Nota 4– Pertencia a esta família o famoso Rosalino Cândido de Sampaio e Brito, bem conhecido de quantos têm lido a história da boémia académica coimbrã.
Nota 5– Na casa deste viveu alguns anos o Autor, estando convertido em quintal o assento da mesma.

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Joaquim Manuel Correia

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