Memórias sobre o Concelho do Sabugal (62)

:: :: VILA DO TOURO (3) :: :: O livro «Terras de Riba-Côa – Memórias sobre o Concelho do Sabugal», escrito há mais de um século por Joaquim Manuel Correia, é a grande monografia do concelho. A obra fala-nos da história, do património, dos usos e dos costumes das nossas terras, pelo que decidimos reproduzir a caracterização de cada uma das aldeias nos finais do século XIX, altura em que o autor escreveu as «Memórias».

Casa antiga de Vila do Touro

Casa antiga de Vila do Touro

O assassinato do Dr. José da Costa
O assassinato do Dr. José da Costa, vulgarmente conhecido pela alcunha de Dr. Caravela, por ser natural da Quinta da Caravela, no período terrível das convulsões políticas, causou a maior impressão em toda a freguesia e mesmo em todo o distrito, porque era um cidadão respeitável. O infeliz tinha, diz-se, na qualidade de juiz, condenado vários indivíduos que faziam parte dum bando político, ou antes, duma guerrilha que lançara fogo às casas do padre Manuel Jorge, sendo êsse o principal motivo porque os Midões o perseguiram à sua vez. Depois de entornarem todo o vinho da sua adega e de lhe saquearem a casa, saciaram o seu ódio matando-o bàrbaramente, sem respeito pela sua posição e avançada idade. Eram filhos dêle o padre Joaquim Capela e D. Ana Capela.
Diz-se que o assassino fôra um indivíduo de apelido Cardoso, que fazia parte do bando, e que segundo uns pertencia à Guarda Nacional e segundo outros a uma simples guerrilha, que roubara tudo quanto encontrara, inutilizando o que não pudera levar.
Esse indivíduo, por um acaso, veio a residir para estes sítios e foi servir em casa duns parentes da sua vítima.
Um dia, entrando êle no pátio da casa dessa família, onde estava uma égua pertencente ao Cameira do Marmeleiro, esta deu-lhe um couce tão violento que o Cardoso apenas soltou estas palavras: «Quem a ferro mata a ferro morre; neste sítio matei eu o doutor Caravela» – É o que se diz ainda na Vila do Touro.

O «Sete Capotes»
Aí pelos meados do século passado várías quadrilhas de bandidos assolavam o país e não lhe fêz excepção esta parte onde os assaltos causados pelos bandidos foram grandes. Célebre se tornou um indivíduo cujo nome ignoramos, conhecido geralmente pelo «Sete Capotes». Tinha, segundo nos contaram, duas amantes na Vila do Touro, Isabel Nabais e Maria Nunes.
Cercada uma noite a casa desta, por ciúmes e denúncias da primeira, foi o «Sete capotes» prêso pela manhã. Pouco depois de efectuada a prisão era fuzilado ao pé do cruzeiro pela fôrça que viera do Sabugal.
A casa onde foi prêso fica ao fundo da povoação e era pertencente ao Dr. Madeira, de Manteigas, que só vinha à Vila do Touro para receber as rendas das mais importantes propriedades.

Homens ilustres desta freguesia
Era natural da Vila do Touro António José De Gouveia Beltrão, pai de D. Bernardino Beltrão, 3.° Bispo de Pinhel, que foi lente da Universidade de Coimbra (1). Era parente do ministro José Seabra da S.ª, Professo na Ordem de Aviz, vigário capitular da Guarda e depois Bispo de Pinhel em 1798.
Foi desterrado para o Bussaco em 5 de Abril de 1823, como o tinham sido outros prelados e homens ilustres, como os meninos de Palhavã, o Bispo de Bragança de 1814 a 1818, o Cardial Patriarca em 1821, Arcebispo de Braga em 1823 e o Prior de Monsaraz desde 1829 a 1832 (2).
A causa do destêrro foi ter visitado o Cardeal D. Carlos, quando passou por Pinhel, para o exílio (França) a que fôra condenado por não querer jurar a ConstituIção. O destêrro foi determinado pelas Côrtes.
Este venerando prelado faleceu em Lisboa a 18 de Julho de 1828, tendo 79 anos de idade. Jaz sepultado na igreja de Santa Isabel (3).
Foi este Prelado quem aboliu o costume que os de Castelo Mendo tinham de ir à Sacaparte, 18 homens nus da cintura para cima, incorporados na procissão, levando cada um seu grande círio. Era da família dos Beltrões, do Carapito, freguesia de Trancoso (v. «Almanach de Trancoso» de 1917, p. 234).
P.e Joaquim António Marques, um dos eclesiásticos mais ilustres do seu tempo, falecido em 1907, vitimado por uma congestão cerebral, em Vale de Espinho, onde era pároco colado, tendo a estima de todos os fregueses.
P.e António Marques Pereira, pároco de Aguas Belas durante muitos anos, sendo ali muito estimado.
P.e Manuel Marques Pereira, que foi pároco de Malcata durante muitos anos, onde era respeitado. Faleceu em 1904 (?), vítima de uma congestão cerebral.
P.e Marques Pereira, que foi pároco na Ramela e em Pêga, dotado de qualidades que o recomendaram à estima dos fregueses.

Abitureira
É uma pitoresca povoação, pertencente à Vila do Touro, situada na margem esquerda da Ribeira do Boi e ao Norte desta freguesia. Não sabemos a origem do nome desta povoação, mas opina-se, não com grandes fundamentos, que deriva de abeto, embora ali não exista tal árvore.

Mercado de Vila do Touro
Nesta povoação realisa-se um bom mercado todos os meses na quinta-feira, constando de todos os produtos agrícolas e industriais mais susceptíveis de venda, gado vacum, lanígero e guino.
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No mapa junto ao decreto de 28 de Junho de 1833 no distrito da Guarda havia 25 concelhos; Alfaiates, Assores, Belmonte, Bemfeita, Caria, Castelo Bom, Castelo Mendo, Codeceiro, Covilhã, Folgozinho, Guarda, Linhares, Manteigas, Medelim, Mesquitela, Monsanto, Pena Garcia, Penamacôr, Sabugal, Sarzedo, Sortelha, Toro (sic), Valhelhas, Vila Nova de Famalicão, Vilar Maior.
Por aquele decreto dividia-se o reino em províncias, estas em comarcas, estas em concelhos e estes em freguesias; as províncias formavam distritos, com arcas, concelhos e freguesias.
Distritos judiciais no continente eram: Lisboa, Pôrto, Lamego e Castelo Branco (art. 6.°). (Vide dec. 16-V-1832, organização administrativa).
Nesse mapa não figura o Jarmelo, que aparece já no mapa de 1842, mas a Vila de Touro já neste ano faz parte do concelho do Sabugal, figurando no mapa junto à Lei de 5-3-1842. Ainda ali vem Vilar Maior (e não Alfaiates).
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O Diário de Noticias de 13-Fevereiro-1933 publicava a seguinte notícia:
VILA DO TOURO – A Junta de Freguesia, a que preside o sr. J. Brojo da Silva, resolveu proceder à reparação dos caminhos desta antiga vila, para o que pediu a todos os habitantes a sua colaboração. O povo de Vila do Touro, dotado de um bairrismo pouco vulgar, acorreu em massa a oferecer o seu trabalho gratuito, num total de 426 homens. Para se fazer ideia do entusiasmo da população local por tudo quanto seja o bem da sua terra, basta dizer-se que ontem, dia em que se procedeu à reparação do ramal para Pêga, se juntaram 96 homens. O gesto dos habitantes de Vila do Touro tem sido elogiado por todas as freguesias circunvizinhas.
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(1) – «Memória inedita do Bispado de Pinhel» pertencente ao P.e Gusmão.
(2) – «Guia do Viajante em Coimbra».
(3) – «Diocese e Districto da Guarda», pág, 491, nota.

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Joaquim Manuel Correia

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