Valverde – Padre Boaventura Alves Almeida

António Alves Fernandes - Aldeia de Joane - © Capeia Arraiana

João Duarte Mateus, mineiro e sindicalista das Minas da Panasqueira, lançou-me o desafio: «você, que tem tantas crónicas, tem de escrever sobre o Padre Boaventura Alves Almeida». E acrescentou: «não o conheci pessoalmente, mas conheço a sua obra em Aldeia de S. Francisco de Assis, principalmente na Ação Católica Operária, com um olhar diferente de outros para o trabalho e para os problemas dos mineiros e das suas famílias, atitudes pelas quais pagou a fatura. Muitos dos seus escritos na área sindical, pastoral social e laboral nas encíclicas do fim do século dezanove ficaram no esquecimento, porque tocava em muitas consciências individuais e coletivas. A sua saída daqueles territórios coincidiu com a nomeação do Padre Manuel Vaz Leal para capelão do couto mineiro.»

O Padre Boaventura Alves de Almeida em Valverde

O Padre Boaventura Alves de Almeida em Valverde

Este nome era completamente estranho, ouvi o apelo e segui o caminho da investigação, contando com os seus familiares, principalmente José Maria Freire.
Nasceu em Valverde (Fundão) no dia 12 de Março de 1892, filho de António Alves e de Maria da Piedade Almeida, numa família composta por mais cinco irmãos, tendo sua irmã Maria Josefina falecido muito nova, com a doença que na altura grassou em Portugal, mais concretamente a pneumónica.
Em Valverde fez os estudos primários, ingressando no Seminário Conciliar da Guarda, com a idade de 24 anos, já com os estudos secundários da época realizados.
Bastante jovem, envolveu-se nas ideias republicanas e foi um acérrimo combatente contra a monarquia, o que na época e em ambientes rurais não tinha aceitação. Como estudante destacava-se com os seus dotes oratórios e fervorosos. Sempre que o local e o público o justificassem, fosse em Valverde, Fundão ou Coimbra, agitava as consciências, juntamente com os seus colegas. Anunciava o declínio da monarquia e a urgência de um tempo novo.
Ainda jovem, e interpretando o sentir do “Diário de Notícias” de então, apresentou-se na Junta de Freguesia de Valverde, alvitrando o seguinte:
«Para que na zona do Carvalhal fosse construída um campo de aviação, para fins militares, como consta numa ata da Junta de Freguesia de Valverde, datada de dois de Outubro de mil, novecentos e dezanove. Na sala das sessões da Junta de Freguesia de Valverde reuniram-se em sessão extraordinária o presidente da mesma- Manuel Nunes- e os Vogais Estanislau Clemente, Manuel Caetano, Francisco Venâncio e José Manique. Aberta a sessão pelo Presidente foi dito que esta tinha sido convocada para apreciar e deliberar sobre o alvitre apresentado pelo cidadão Boaventura Alves de Almeida e que consiste no seguinte: Como é sabido, todas as nações estão neste momento, fazendo convergir as suas atenções para um dos problemas máximos da actualidade – a aviação. E mais estritamente entre nós, vem-se constatando dia a dia um patriótico movimento em favor do desenvolvimento da aviação. Assim vemos todas as Câmaras Municipais do país acorrerem pressurosas ao apelo lançado pelo importante jornal o “Diário de Notícias”, afirmando todo o seu concurso moral e material em prol da aviação. Nesta ordem de ideias, lembrava o referido cidadão a conveniência de esta Junta pôr à disposição da Câmara Municipal do Fundão o terreno necessário para a construção de um campo de aterragem de aeroplanos no sítio denominado o Carvalhal do Povo, e que é propriedade desta Junta. Foi este alvitre posto à descrição e apreciação pelo Presidente, deliberando esta Junta por unanimidade ceder à referida Câmara Municipal do Fundão no sítio denominado o Carvalhal do Povo, o terreno necessário para a construção do dito campo de aterragem. Mais deliberou exarar na acta um voto de louvor ao referido jornal «O Diário de Notícias» pela patriótica campanha que vem desenvolvendo em favor da aviação portuguesa, pondo-se incondicionalmente à disposição da Câmara Municipal do Fundão para que tal melhoramento seja levado a efeito. Não havendo mais nada a tratar foi encerrada a sessão da qual se lavrou a presente acta que vai assinada por todos. O Presidente – Manuel Nunes, os Vogais: Francisco Venâncio, Manuel Caetano, Estanislau Clemente e José Manique.»
O saudoso e prestigiado jornalista, director do Jornal do Fundão, António Paulouro, afirmou um dia, a um seu empregado e sobrinho-neto do Pe. Boaventura, que em Valverde nasceu três personalidades muito importantes para a região e para o país: João de Oliveira Matos, que foi Bispo da Diocese da Guarda, Boaventura Alves de Almeida, intelectual, sacerdote e professor e Manuel Nunes, Presidente da Junta de Freguesia local, homem de grande visão e proprietário em Valverde.
Ordenado sacerdote, o Padre Boaventura celebrou a sua primeira missa em Valverde e o senhor bispo D. Alves Matoso encarregou-o de paroquiar diversas freguesias, nomeadamente: Valezim, S. Romão, Aldeia de S. Francisco de Assis entre outras. Homem muito temente a Deus procurou sempre estar do lado dos mais fracos e desprotegidos. Em Aldeia de S. Francisco de Assis, foi Presidente da Junta de Freguesia e foi aqui que teve uma acção mais consentânea com o seu espírito sacerdotal, não se ficando pelas palavras, por sermões inúteis, mas de enorme ajuda aos mais pobres, ao mexer nos interesses instituídos. Isso valeu-lhe por parte de algumas pessoas menos escrupulosas algumas calúnias, que teve de suportar. Ao serem totalmente falsas, magoaram moralmente aqueles que estavam ao seu lado, nomeadamente a sua mãe que sempre o acompanhou enquanto foi viva, assim como três sobrinhos de tenra idade a quem os caluniadores lhes chamavam «filhos do padre», quando a situação era bem clara e humana: a sua irmã tinha morrido da doença que nessa altura devastou famílias inteiras em Portugal, que deu pelo nome da pneumónica, como atrás referimos.
No campo sindical e do operariado é mencionado diversas vezes em teses de doutoramento, conjuntamente com o Padre Abel Varzim. Assim acontece por parte de Maria Inácia Rezola, no seu mestrado em História do Século XX, sob a temática «Católicos, Operários e Sindicalistas». Também Cátia Sofia Ferreira Teixeira, na tese da obtenção do grau de Mestre em História Contemporânea, o menciona na Greve dos Operários de Lanifícios na Covilhã em 1941 e na agitação operária durante a II Guerra Mundial.
Era um acérrimo adepto da encíclica Rerum Novarum, publicada pelo Papa Leão XIII, a 15 de Maio de 1891, que tinha como finalidade instruir de uma forma especial os bispos de todo o mundo, a defender uma nova ordem para os trabalhadores.
Católicos, operários e sindicatos, da autoria da historiadora e investigadora, Maria Inácia Rezola: «Preocupado com o trabalho e a vida dos mineiros foi um dos grandes impulsionadores do sindicalismo católico, juntamente com outro sacerdote de nome Abel Varzim. No entanto, em 23 de Novembro de 1932, ao dar posse aos corpos dirigentes da União Nacional, Salazar afirma que o Centro Católico ia “revelar-se inconveniente para a marcha da sua doutrina”, convidando os católicos a pôr de parte a sua militância partidária e a integrarem a “Nova Ordem”. Esta posição marcava à partida um limite ao campo de acção da Igreja ao propor o fim do Centro Católico, Salazar deixará bem clara a sua vontade de limitar a ingerência dos católicos, como própria, no terreno político. O Padre Boaventura foi aquele que provavelmente mais sentiu o fim do sindicalismo livre. O padre Boaventura numa circular que enviou a todas as Dioceses de Portugal, enquanto Diretor do Secretariado de Acão Social, datada de 28 de Dezembro de 1933, deixa bem claro que “tal como foi decretada pelo Estado a organização corporativa está longe de merecer incondicional aplauso.” As razões apresentadas para esta posição prendem-se com a deteção dos pontos de discordância do corporativismo português com os ensinamentos da doutrina social católica, como seja a “coartação da liberdade associativa”. É esta mesma posição que defenderá um pouco mais tarde Francisco Inácio Pereira dos Santos na tese que apresenta na Universidade Católica de Lovaina sobre a Constituição Portuguesa.»
Homem de antes vergar que torcer, com todas as iniciativas que tomou, esteve prestes a ter problemas com a nova política do Estado Novo, valendo-lhe o colega de sacerdócio e de sindicalismo Abel Varzim, que entretanto recuou no modo de lidar com a nova situação política, tornando-se elemento que integrou a Assembleia Nacional e que o aconselhou a ter mais prudência.
Foi também um grande admirador das ideias do Bispo D. António Ferreira Gomes, que foi Bispo do Porto e que esteve exilado.
Já um pouco debilitado, acabou por ser nomeado pelo Bispo, para dar aulas no Seminário Maior da Guarda, onde ficou até ao fim dos seus dias. Faleceu com 71 anos de idade, doando muito dos seus bens ao Seminário. Está sepultado no cemitério da cidade da Guarda.
Ao desempenhar as funções de Presidente da Junta de Freguesia, destacou-se entre 1937-39. Assim, conseguiu que as Minas dessem autorização para que os donos dos terrenos e outros trabalhadores pudessem explorar minério nas suas propriedades, com a condição de o venderem ao quilo à Empresa. Ao valor do minério era descontada a percentagem de 2,5%, a qual, segundo o acordado, passou a ser aplicada na construção da Casa da Conferência de S. Vicente de Paulo. De Outubro de 1937 a 1939, a contribuição de todos os trabalhadores que se dedicaram a esta actividade foi de 43.639$19.
Mas o mais grave é que teve de lutar com unhas e dentes contra a Empresa Beralt Tin & Wolfram Limited, Câmara Municipal da Covilhã e Governador Civil de Castelo Branco, para que o imposto mineiro fosse entregue nos cofres da autarquia e não ficasse nos cofres da empresa mineira.
No livro «Aldeia de S. Francisco de Assis – A Questão do Imposto Mineiro», da autoria de Manuel Vaz Genro, editado em 1945 escreveu, «este assunto de grande importância na vida de Aldeia de S. Francisco teve o seu começo em 15 de Setembro de 1941 e o seu términus em Outubro de 1943. O Presidente da Junta de Aldeia de S. Francisco de Assis, Pe. Boaventura Alves de Almeida, enviou o 1.º ofício, em 15 de Setembro de 1941, um ofício, com o n.º 27 endereçado ao Director das Minas da Panasqueira, com o seguinte teor: Exmo. Senhor Director das Minas da Panasqueira – A fim de se dar cumprimento ao disposto no n.º 6 do art.º 777.º do Código Administrativo em vigor, peço a V. Ex.ª se digne mandar entregar ao tesoureiro desta Junta o produto de liquidação de 5% sobre o imposto de minas pago ao Estado por essa Empresa. A Bem da Nação – O Presidente da Junta – Pe. Boaventura Alves de Almeida.” Entretanto a Direcção do Couto Mineiro responde assim: “Minas da Panasqueira, 20-9-1941 – Exmo. Sr. Presidente da Junta de Freguesia de Aldeia de S. Francisco de Assis – Acusamos a recepção do ofício de V. Exa. n.º 27 de 15 do corrente, que agradecemos. – Ao querer dar execução ao seu conteúdo, surgiu a dúvida da maneira como devia ser distribuída a percentagem que esta Empresa é obrigada a pagar pelas freguesias que possivelmente serão interessadas no contingente resultante da aplicação da taxa de 5% e nesse sentido dirigimo-nos nesta data ao Exmo. Presidente da Câmara Municipal da Covilhã a fim deste se dignar dar-nos as suas instruções. Logo que o assunto esteja superiormente resolvido, voltaremos à presença de V. Ex.ª para se executar na forma que vier a ser determinado. Com toda a consideração, subscrevemo-nos. Beralt Tin & Wolfram Limited. A.A. Robb – Superintendente Comercial.»
Com estes dois documentos, estava travada uma das maiores questões em que a Freguesia se viu envolvida. Entretanto, a Junta de Freguesia, que neste caso deu provas de notável persistência de propósitos, foi auxiliada moral e monetariamente por um grupo de pessoas e voltou a avivar o assunto através do ofício n.º 31, endereçado ao Director das Minas. Este disse que o assunto estava a ser estudado. O Chefe da Secção de Finanças da Covilhã informava dois dias depois do resultado do imposto pago pelo couto mineiro, referente ao ano de 1940. Em 16 de Dezembro de 1941, o Presidente da Câmara da Covilhã, Dr. Luís Vítor Tavares Baptista, informava que tinha comunicado à Beralt Tin, que tinha de entregar à Junta de Freguesia de Cebola (atual S. Jorge da Beira) 58.000$00. Apressou-se a Junta de Freguesia a responder através do ofício n.º 52, de 21 de Dezembro ao Presidente da Câmara da Covilhã e enviou também um ofício ao governador civil de Castelo Branco, que era o António Maria Pinto Castelo Branco, pedindo para ser feita uma consulta ao Diretor Geral da Administração Política e Civil, para saber em concreto quem efectivamente tinha o direito a receber o imposto, pois a maior parte das instalações da Empresa estavam sediadas na freguesia de S. Francisco. A Direcção-Geral da A.P.C. deu razão à freguesia de Aldeia de S. Francisco de Assis. Também o «Jornal Novidades» de 29 de Dezembro dava relevo a esta questão mineira com o título «Atitude Inexplicável». Resumindo e concluindo, a Junta de Freguesia meteu o caso em Tribunal e a mesma ganhou a questão. Nos anos seguintes a 1940, este imposto passou a ser cobrado pela Junta de Freguesia e o seu valor a fazer parte do Orçamento da Autarquia até 1942, altura em que o Decreto n.º 31884 mandou dividir o imposto mineiro pelas Câmaras da Covilhã e do Fundão e pelas Juntas de Freguesia que faziam parte do Couto Mineiro da Panasqueira, a saber S. Francisco de Assis, Cebola, (S. Jorge da Beira), Silvares e Barroca do Zêzere.
Pessoa dotada de forte caráter, de fibra, de valentia, não se deixava amedrontar e atemorizar.
Ainda em Aldeia de S. Francisco de Assis, criou a Casa da Conferência de S. Vicente de Paulo, com diversas valências de apoio a diversos organismos e instituições católicas de cariz social e humano. Mas não granjeou o consenso da população que sempre viu nela a Casa do Povo. Esta casa foi construída com a força braçal da população e com a ajuda de 2,5% da contribuição do produto da venda do quilo do minério. Reconstruiu também a torre e reparou a Igreja Paroquial de Aldeia de S. Francisco de Assis, com a ajuda de algumas pessoas.
Dotado de grande inteligência, para isso muito contribuiu o facto de ler muito, todo o dinheiro que arranjava era para adquirir livros e após a sua morte deixou uma enorme biblioteca: livros de ciência, religião, política, de ensino, sociologia, em latim, francês, italiano e português.
Esquecido por muitas entidades, também na sua terra-mãe, Valverde, tem sido esquecido e não consta o seu nome na toponímia da freguesia. Como diz o ditado: «Santos da porta não fazem milagres». Ou o que diz uma passagem do Evangelho: «Ninguém é profeta na sua terra.»
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«Aldeia de Joanes», crónica de António Alves Fernandes

5 Responses to Valverde – Padre Boaventura Alves Almeida

  1. José Maria Ramos de Almeida Freire diz:

    Gostei por muitas razões, primeiro, por ser meu familiar e ter sido feita justiça a um Homem, que não se deixou amedrontar, com interesses instituídos; segundo, por saber que esteve sempre ao lado dos mais desfavorecidos; terceiro, por saber que foi um Homem que mexeu com um regime que estava a ficar obsoleto, mas depois, soube seguir o seu caminho, não se deixando impressionar com o todo poderoso Estado Novo. Por fim, só quem efectivamente não conheceu verdadeiramente a sua obra ou por má-fé, é que poderá dizer mal de um homem, que mereceu ser mais bem tratado em vida. Resumindo, seguiu aquilo que o Evangelho ditava e que também o Papa Leão XIII, tinha escrito na Encíclica Rerum Novarum.
    Por fim um agradecimento ao Jornal «Capeia Arraiana, pela publicação deste excelente artigo, da autoria do prezado amigo sr. António Alves Fernandes.

    • António Alves Fernandes diz:

      Senhor José Maria Ramos Pereira, obrigado pelas suas palavras muito oportunas e agradecer a sua colaboração, sem a qual não seria possível elaborar este texto que faz HISTÓRIA.

  2. Maria Victória Silva diz:

    No seguimento do que disse a minha irmã, Maria Beatriz. acrescento: A minha Mãe dizia ( e não era pessoa mentirosa), que este Padre, era pessoa de ditos e mexericos,
    por isso o mau ambiente que criou na Aldeia S. Francisco de Assis.
    Recusou casar os meus Pais, porque a minha Mãe era irmã do Padre João Firmino, e estavam zangados. O meu Tio não o tolerava. Por este motivo, a minha Mãe teve de
    ir casar a Silvares ( a alguns kms da Aldeia ).

  3. José Maria Ramos Almeida Freire diz:

    O meu tio-avô não era pessoa para salamaleques e por isso colocou três Câmaras Municipais em Tribunal e ganhou a causa: «Imposto Mineiro». Ao ter fundado conjuntamente com o padre Abel Varzim, os Sindicatos em Portugal, mostra bem a fibra que ele possuía. Defeitos obviamente deveria ter alguns, quem os não tiver que atire a primeira pedra. Apesar de ter sido perseguido pela própria polícia política de então, não teve de se ausentar do país para fora. Outros valores estão bem patentes em teses de mestrado que foram desenvolvidas com a sua obra. Portanto merece o maior respeito, primeiro por cá não estar para se defender, segundo se ele pugnava pelos interesses dos mais pobres, obviamente os mais ricos caíram-lhe em cima. Não se pode agradar a dois senhores a Deus e ao diabo.

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