Memórias sobre o Concelho do Sabugal (60)

:: :: VILA DO TOURO :: :: O livro «Terras de Riba-Côa – Memórias sobre o Concelho do Sabugal», escrito há mais de um século por Joaquim Manuel Correia, é a grande monografia do concelho. A obra fala-nos da história, do património, dos usos e dos costumes das nossas terras, pelo que decidimos reproduzir a caracterização de cada uma das aldeias nos finais do século XIX, altura em que o autor escreveu as «Memórias».

Capela da Senhora do Mercado - Vila do Touro - Sabugal - Censos 1758 - Capeia Arraiana

Capela da Senhora do Mercado – Vila do Touro – Sabugal

Situada entre dois outeiros, num dos quais fôra edificada a cidadela e no outro a ermida de S. Gens, fica esta tão antiga povoação ao norte do Sabugal, de que dista sete quilómetros.
Do cimo dos dois outeiros em elevados serros descortina-se um vasto horizonte e pode contemplar-se a cidade da Guarda, que oferece um aspecto imponente, alvejando ao longe, a desmentir a fama de feia, que se honra de ter perdido.
É triste o aspecto da Vila do Touro, com seus humildes casebres denegridos, muitos dêles em ruínas, alguns entre gigantescos rochedos ou barrocos de granito, que, donde em onde, lhes servem de parede. A contrastar com tudo isto, que nos causa singular impressão, vemos aqui e além uma varanda curiosa e uma janela ornamentada com requintado gôsto artístico.
Perto das ruínas da cídadela existem as da cadeia e casa da câmara, de. que restam somente as paredes.
Ninguém me soube dar notícia do local onde existia o portelo ou tribunal da vila, mas é natural que estivesse no referído edifício, onde compareciam os principais funcionários do extinto município – judex, meirinho, sesmeiro, alcaldes, posteiro, almotacés maiores e menores, também chamados andadores, os pregoeiros, os vozeiros, escrivão, etc.
Na casa de Isabel Micaela vimos uma linda janela manuelina e em frente uma varanda com colunas doricas. A primeira foi de D. Maria Osório.
É a Vila do Touro uma das mais antigas povoações do concelho do Sabugal. Em tempos remotos chamava-se Aldeia da Guarda (1). Foi sede de um concelho extinto no segundo quartel do século passado (1836-1842 (?).
A vila era cercada de altas muralhas de que restam ainda ruínas, assim corno da cidadela onde existira uma forte torre de menagem, tudo devido aos Templários e restaurado por D. Deniz. Urna das portas da cidadela ainda ali pode contemplar-se. Da antiguidade da povoação fàcilmente pode convencer-se quem a visitar, não só pelas ruínas de casas e restos de muralhas, mas também pelas duas sepulturas cavadas em rochas, que podem observar-se no adro da igreja paroquial. O próprio estilo de algumas casas revela certa antiguidade.
Parece mesmo incontestável que nos tempos pré-históricos ali ou nas proximidades habitaram os rudes e ignorantes homens de remotíssimas eras primitivos habitantes da península, iberos ou seus descendentes, o que mal poderíamos hoje averiguar.
Devem ter ali habitado os romanos e da época romana podem ser as sepulturas mencionadas, existentes no adro da igreja; mas isso é duvidoso, porque existem sepulturas cristãs semelhantes a essas por todo o país.
Não está bem averiguado que a ponte sobre a ribeira que passa perto seja da época romana, sendo natural que seja da época da fundação do castelo.
Perto dos Vilares, sítio que fazia parte do primitivo alfoz da antiga vila, ainda há poucos anos vimos uma sepultura que tem sido atribuída à época romana, o que mal pode averiguar-se, porque nem existe a cobertura, nem qualquer inscrição ou indício comprovativo de tal afirmação.
Já no «Archeologo Portuguez» demos notícia dela, assim como do aparecimento duma espécie de silo, onde se diz ter sido achado um bezerro de ouro.
Devemos, porém, dizer que já depois de publicada essa notícia nos afirmaram que tal silo ou cubículo fôra achado, não pelo marido de Maria Martins, do Baraçal, mas por um filho António Marcos Jorge e um pastor, que ao darem um rêgo de arado, viram que a água se sumira, indo depois ali de noite a mãe e os filhos, o dito António e José Jorge. Se o bezerro apareceu ou não dificilmente o podemos nós garantir, mas como certo o povo dá tal aparecimento.
Nesse sítio vimos uma pia que mediria 3m X 1,50, pouco mais ou menos, que devia ser lagar.
Nos limites de Vila do Touro têm aparecido objectos pré-históricos, como machados de pedra e de bronze, sendo um destes, que ali foi achado, remetido para um museu de Lisboa, pelo falecido escrivão de direito, Pais Furtado.
Perto do chafariz do Carvalho vimos duas pias em rochedos graníticos, que dizem ter servido para cortumes e duas que teriam servido de lagariças em tempos muito remotos.
No sítio de Vale das Vinhas vimos também umas grandes pias e ficámos convencidos de que se tratava de um lagar ou turcularium. Tem a forma quadrangular e em dois lados paralelos duas fossas onde provàvelmente se cravavam os postes, tendo numa das outras faces um escoadouro para dar saída ao líquido. A forma da pia e o nome sugestivo de Vale das Vinhas produziram-nos a convicção de que era realmente um lagar primitivo.
Contaram-nos também na Vila do Touro que um indivíduo chamado José Ribeiro, que ali residia, achou uma cunha de ouro que vendera por 25 moedas. Aqui arquivamos a notícia a título de curiosidade, embora nos inclinemos a que tal cunha seria um machado de bronze, que a tendência do povo para tudo exagerar teria convertido fàcilmente em ouro.
O Ribeiro teria dado grande valor ao seu achado se fôsse de ouro e mais lhe daria um arqueólogo, mas estes, em regra, são pobres e não podem ser pródigos ao ponto de, por machados de bronze, que são ainda vulgares, darem vinte e cinco moedas e um curioso não daria tal quantia por um objecto de cobre ou bronze.
Ao norte do cemitério paroquial vê-se ainda em regular estado o pelourinho da antiga vila, singelo como o de Alfaiates, como este de coluna monolítica de granito. Não sabemos quando foi construído este pelourinho, que, apesar do fim com que fôra edificado, como todos os outros, e de ser julgado instrumento de ignomínia e opróbio, tem sido respeitado, o que muito honra os vizinhos de Vila do Touro. É êle que ainda ali está atestando a antiguidade da povoação, embora já não tenha a argola, as cadeias do costume, com que seguravam os delinquentes, nem as hastes de ferro como tem o de Santa Catarina, concelho das Caldas da Rainha e poucos mais.
Eram os almotacés maiores que punham o delinquente no pelourinho e o obrigavam a pagar um certo número de soldos para o concelho. Devemos, porém, dizer que, na origem, os pelourinhos tiveram um fim diferente, simbolisavam a independência e importância da povoação onde se erguiam, sendo a princípio uma simples coluna, que, com o andar dos tempos, tomou formas artísticas.
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(1) – «Diocese e Districto da Guarda», pág. 33 e 484. Em 1221 foi doada pelo concelho da Guarda aos Templários a Cabeça de Touro, mais tarde Aldeia da Guarda e depois Vila do Touro, sendo êles que fundaram o castelo e deram ao mestre o terreno que pudessem lavrar seis juntas de bois.
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Joaquim Manuel Correia

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