Memórias sobre o Concelho do Sabugal (59)

:: :: VILA BOA :: :: O livro «Terras de Riba-Côa – Memórias sobre o Concelho do Sabugal», escrito há mais de um século por Joaquim Manuel Correia, é a grande monografia do concelho. A obra fala-nos da história, do património, dos usos e dos costumes das nossas terras, pelo que decidimos reproduzir a caracterização de cada uma das aldeias nos finais do século XIX, altura em que o autor escreveu as «Memórias».

Igreja Matriz de Vila Boa - Sabugal - Censos 1758 - Capeia Arraiana

Igreja Matriz de Vila Boa – Sabugal

E Vila Boa uma das mais antigas povoações do concelho, talvez do tempo anterior à monarquia. Vila, no tempo dos romanos, significava casa de campo, e, por simples casas de campo ou quintas, começavam tôdas as povoações; mas entre nós tal palavra foi há muito aplicada para designar povoações que têm certa importância política, as sedes dos concelhos, dando-se ainda hoje o nome de vilas àquelas que perderam as suas antigas regalias de sedes de concelhos, como Alfaiates, Vila do Touro e Sortelha.
Não consta, porém, que Vila Boa tenha sido sede de concelho ou haja atingido certa supremacia sobre as aldeias que a cercavam.
Donde viria então o denominar-se Vila Boa?
Naturalmente do facto incontestável de ser a povoação mais populosa das vizinhanças. Situada, como é, em campina, em lugar baixo, nem mesmo podia ter sido escolhida para desempenhar papel importante de sede de concelho, ou município independente. Todas as terras importantes eram situadas em pontos elevados, como Sortelha, Vilar Maior, Alfaiates, Vila do Touro e mesmo a antiga Vila do Sabugal.
Certo é que o uso consagrou-a, chamando-a boa para a distinguir doutras que mal poderíamos agora saber quais fôssem.
É situada a leste do Sabugal, de que dista uns 11 quilómetros, em local muito úmido e pantanoso, donde tem resultado o aparecimento de várias epidemias, tais como o tifo em 1882 e 1883, que dizimou consideràvelmente a população.
Outras causas concorriam para a pouca salubridade da povoação, como a existência do cemitério no interior dela e de charcos imundos, pocilgas e estrumeiras junto das casas e nas ruas.
Sezões, tifos, pneumonias e carbúnculos, estes devido às cabras que morrem desta doença não serem enterradas, sendo às vezes comidas as carnes delas, são doenças frequentes em Vila Boa.
A epidemia de 1882 e 1883 concorreu um tanto para os vizinhos cuidarem do aceio da povoação, sendo calcetadas algumas ruas e construido um cemitério fora da povoação, a que hoje chamam chão dos grabanços, porque o dono costumava ali semear grão de bico a que na raia chamam grabanço.
Em Vila Boa têm aparecido instrumentos de pedra, machados e uma raspadeira que enviámos nós para o Museu Etnológico de Belém.
No mapa da população da «Diocese e Districto da Guarda», que Várias vezes temos citado, diz-se que no fim do século XVII tinha 80 fogos e 320 almas e, nos princípios deste, 234 e 782 almas.
Tem crescido a população em Vila Boa, embora pouco tenham melhorado as condições higiénicas.
Não há em geral trabalho para a população da freguesia, indo por isso ranchos de homens e mulheres trabalhar noutras povoações.
Depois que a filoxera destruíu as vinhas, a falta de trabalho agravou as classes mais pobres, porque havia já em Vila Boa muitas vinhas, embora o vinho fôsse pouco alcoólico.
A produção da freguesia é abundante em centeio, batata, feijão, cevada, algum trigo, milho, linho e também castanha. Cria algum gado lanígero e caprino e tem muitas juntas de vacas.
Tem muitos lameiros e bons, pertencendo bastantes a indivíduos de fora.
Os seus limites não correspondem à população, havendo ainda muitos prédios rústicos de habitantes de outras povoações, motivo porque os vizinhos têm de procurar trabalho noutras freguesias, como vimos, para angariarem meios de vida. Existem ali muitos indivíduos pobres.
Temos notado que em Vila Boa há muitas pessoas com os olhos doentes, o que pode ser o resultado de fraqueza orgânica ou também de falta de asseio.

Fábricas de cobertores e tecidos grossos
Perto de Vila Boa, no sítio denominado Morganheira (1) existem duas fábricas de cobertores. Estas fábricas pertenceram aos irmãos Manuel e José da Engrácia e depois aos filhos.
Foram muito importantes no tempo dos primeiros e produziam muito, sendo os cobertores e mantas enviados para Lisboa e por vezes fornecidos ao Estado para o exército, por intermediários. O motor é hidráulico. Na povoação havia também muitos indivíduos que se dedicavam à indústria, como cardadores e tecelões.
Ainda hoje alguns lavam, cardam, fiam e tecem as lãs, que compram ou lhes dão a fabricar.
Cada teada ou maranha, como êles dizem, dá doze cobertores, que depois vendem por 900 a 1000 réis cada um.
As famílias também deitam maranhas, tecendo pano para cobertores e para os mantéus, saiotes e mantilhas ou capuchos das mulheres e capotes dos homens.

A linguagem e costumes
São dignos de estudo especial a linguagem e os costumes de Vila Boa. Tanto em Quadrazais, como no Souto e Vila Boa o povo troca o v pelo b e fere muito a vogal final.
Em vez de vaca dizem bácà, em vez de Maria, Marià e Marié, acentuando exageradamente a última vogal.
Ouvimos ali muitas palavras desconhecidas, outras muito deturpadas trocando umas vogais por outras, assim como algumas consoantes.
Daremos uma amostra.
«Eh! Marià, di-ló tio que te dê um cacho de patatas e um bintem pró tê Zé prá ajuda de comprér um chambre e rópinhàs, qu’estas stão esbandulhédas.»
Assim como em Quadrazais e outras freguesias, os parentes e amigos, mesmo os vizinhos dos defuntos, gritam muito quando retiram o cadáver da casa do falecido e todos se dirigem a êle, ordenando-lhe que «dê lá visitas a seu irmão» e a quantas pessoas lhe vêm à mente. Seria manifestação de fracos sentimentos o facto de os parentes não contarem todos os actos que recomendam o defunto, todas as suas virtudes, e de os estranhos não fazerem um necrologio verbalmente, entrecortado de soluços e lágrimas. Não faltam nunca mulheres que oficiosamente vão chorar, espécie de carpideiras, que exploram a situação da família aflita. É difícil por vezes retirar o cadáver, porque parentes e amigos se abraçam a êle, num clamor que contrista os assístentes, mesmo os que reprovam tal costume.
Muito haveria que dizer ainda a tal respeito, mas isso seria, além de fastidioso, estranho ao nosso fim e mais próprio de uma monografia.

Corrida do touro
Não podia esta povoação escapar à influência dos vizinhos no que toca à selvática corrida do touro, e dizemos touro, porque nunca se corre mais do que um, cujo dono recebe geralmente 5.000 réis por cada corrida, a que chamam folguedo. A corrida é sempre ao forcão e vara larga ou garrocha, como em toda a raia lhe chamam, garrochões e maças. O côrro (curro) é feito num largo da povoação, tapando com carros cheios de lenha, tábuas e paus, as ruas que ali desembocam, o que parece uma barricada, sobrepujada depois pelo povo que se encarapita ali, armado de paus, de varas, foeiros, berrando, assobiando… As mulheres descompõem os maridos e ameaçam os filhos que vão tomar parte na corrida, choram, barafustam, numa gritaria infernal.
Os do forcão, ligados uns aos outros com as cintas, seguram o madeiro e esperam a investida do touro mal é aberta a porta da loja (assim chamam ao curral) onde o bicho está. As vezes põe tudo em debandada, mas geralmente é vencido pelos grossos ferros dos garrochões empunhados pelos mais valentes que ladeiam a frente do forcão.
O rabeador, como quem diz o chefe da quadrilha, regula os movimentos, desvia o forcão, de modo a evitar que a fera ataque pelos flancos, o que seria uma fatalidade. É por isso sempre um homem alto, vigoroso e possante, dotado de coragem e, como todos os outros, capaz de afrontar o perigo.
Os das garrochas cravam-lhe ferros e, quando o touro corre vertiginosamente, furioso, em busca de vingança, outros o ferem de novo. Avança para o forcão, mas este evita-lhe as investidas, e no focinho e peito penetram-lhe os grossos ferros dos garrochões, quando lhe não impossibilitam a marcha, inutilizando-lhe as patas. Urra então no meio do côrro, ouvindo a gritaria do povo insaciável de sangue.
O dono protesta, quer retirar o animal, mas o entusiasmo atingiu o auge, os assobios e gritos ensurdecem tudo e a corrida continua. Mas o touro, cada vez mais furioso, procura com o olhar enraivecido o ponto mais fraco e corre e salta, fugindo pelos campos, numa fúria medonha, deixando uns esmagados pelas patas, outros feridos pelas pontas, finas como agulhas. Foi numa dessas fugidas que o touro matou, haverá perto de trinta anos, uma pobre velha, a tia Angela, que nem o nome, nem a repugnância que sempre teve pelas corridas, salvaram ao passar, pacata, despreocupadamente, por uma rua.
Assim acabou uma das últimas corridas a que assistimos em Vila Boa.

Escola de instrução primária
A escola de instrução primária é de moderna criação. Foi nomeado professor António José Lourenço, natural de Vila Fernando.

Igreja paroquial e ermidas
A igreja paroquial desta freguesia é um templo de regulares dimensões, embora de singela arquitectura, decentemente ornado.O orago é S. Pedro ad Vincula.
O reitor da Nave apresentava o pároco, o que prova bem a importância desta freguesia.
Em fins do ano de 1903, faleceu em Vila Boa o P.e Joaquim Martins, natural desta freguesia, onde era pároco. Fora Pároco dos Foios, Rebolosa e Aldeia da Ribeira, por óbito do Padre João de Matos. Era homem honrado.
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Nota 1 -Morganheira, do nome duma planta, mas podendo significar sitio ou ninho de ratos (morganhos).
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Joaquim Manuel Correia

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