Mosteiro de São Dinis e São Bernardo de Odivelas

Por Terras de D. Dinis - Maria Máxima Vaz - © Capeia Arraiana

O Rei D. Dinis mandou construir este mosteiro na sua quinta de Vale de Flores em Odivelas onde tinha um Paço Real. Edificou-se entre 1295 e 1305. As monjas de Cister habitaram-no de 1296 até 1888. De 1889 a 1901 funcionou como anexo do Hospital Escolar de São José, acolhendo os doentes inválidos. Em 1902 foi entregue ao Exército para ali funcionar o Instituto de Odivelas.

Mosteiro São Dinis e São Bernardo - Instituto de Odivelas - Capeia Arraiana

Mosteiro São Dinis e São Bernardo – Instituto de Odivelas

Para conhecer o Mosteiro de São Dinis é preciso penetrar na Idade Média, sentir a vida e a mentalidade das épocas que atravessaram a sua história, conhecer a vida da comunidade que o habitou cerca de 690 anos, mergulhar nos arquivos e decifrar documentos envelhecidos pela passagem dos séculos.
O local escolhido pelo rei foi a sua quinta de Vale de Flores, em Odivelas, que distava, na altura, duas léguas de Lisboa, no dizer de vários cronistas, incluindo Brandão:

A esta quinta se foi El-rei a vinte e sete de Fevereiro, aonde o Bispo de Lisboa, D. João Martins de Soalhães e Pedro Remígio, Chantre da Sé, por parte do Cabido, assistiram pessoalmente com o Rei e fizeram a carta de doação que assinaram em companhia de D. Frei Domingos, Abade de Alcobaça; assinou-a também El-Rei de mão própria e D. Elvira Fernandes, primeira Abadessa deste convento. Estava presente a principal nobreza da Corte, e na presença de todos lançou El-Rei a primeira pedra com grande solenidade.

D. Dinis ao referir-se-lhe dizia sempre «o meu mosteiro». Este era o seu mosteiro, que fundou como ele declara na carta de dotação:

Em nome da Santíssima Trindade Padre e Filho e Espírito Santo, ámen. Nós D. Dinis pela graça de Deus Rei de Portugal, e do Algarve em conjunto com nossa mulher a Rainha D. Isabel, e com nossos filhos Infante D. Afonso, filho primeiro e herdeiro, e Infante D. Constança, à honra de Deus, e da Virgem Maria e de toda a Corte Celestial, e especialmente à honra e louvor de S. Dinis, e de S. Bernardo, por nossas almas, e dos Reis que antes de nós foram, e remimento de nossos pecados, e de nossos sucessores, fundamos, e fazemos de novo em a nossa câmara de morada, que nós havíamos em o termo da nossa cidade de Lisboa, em lugar que é chamado Odivelas, com outorga e consentimento do honrado Padre D. Joane, pela graça de Deus Bispo de Lisboa, e Cabido desse lugar, com consentimento e autoridade do Religioso Abade Frei Domingos do nosso Mosteiro de Alcobaça.

Está bem expressa neste documento a religiosidade do homem medieval. Fica também evidente a importância do herdeiro ao trono, da família real e da Igreja. O Infante D. Afonso não era o primogénito, mas era o que estava em primeiro lugar na linha dos herdeiros, visto ser o filho varão. Por isso diz o monarca Infante D. Afonso, filho primeiro e herdeiro. E é sempre esta a forma como D. Dinis se refere ao seu filho herdeiro do trono: filho primeiro e herdeiro, apesar de a Infanta D. Constança ter nascido um ano antes do Infante.
Há obstáculos intransponíveis ao seu estudo: não se conhecem plantas do primitivo edifício e os abalos sísmicos, em várias épocas, afectaram grandemente a região de Lisboa. Foi particularmente agitado o século XIV, com abalos nos anos de 1309, 1318, 1321, 1337, 1343, 1344, 1347, 2 no ano de 1355, 1 a 11 de Junho e outro a 14 de Agosto e ainda outro particularmente violento a 24 de Agosto de 1356, com réplicas por vários meses. É possível que estes sismos aqui tenham também feito alguns estragos, cujas reparações são menos perceptíveis do que as que foram levadas a efeito após os sismos do século XVI e XVIII, porque se mantinha o sistema gótico de construção, enquanto que os posteriores arranjos foram submetidos já às regras clássicas e neoclássicas sendo, por isso, mais evidentes.
Seguindo a planta e descrição que nos faz Borges de Figueiredo em «O Mosteiro de Odivelas», concluiremos que, posteriormente, este mosteiro sofreu mais um terramoto com obras de adaptação a outras funções. Antes de intervir no edifício deveria ter-se respeitado a sua história. Precisavam de fazer-se obras de adaptação e deveriam ter-se feito sem mutilações. O coro das freiras era um espaço importante de qualquer casa religiosa. Deveria manter-se. O que restava do Paço Real, mesmo arruinado deveria ser consolidado e a casa da Madre Paula também.
A história é a vida da Humanidade, com tudo o que tem de positivo e de negativo. Não podemos alterar os factos para ficar mais de acordo com os valores que julgamos superiores.
Os escritores antigos falam deste mosteiro como uma grandiosa obra real:

O Real Mosteiro de São Dinis de Odivelas é com razão estimado pelo de maior magnificência que tem o Reino e ainda na Europa se pode verificar que não há outro que lhe exceda. El-Rei o fundou para testemunho de sua grandeza, neste ano de mil duzentos e noventa e cinco.

Mosteiro São Dinis e São Bernardo - Instituto de Odivelas - Capeia Arraiana

Mosteiro São Dinis e São Bernardo – Instituto de Odivelas

Logo no ano seguinte, a 1 de Março de 1296, oitenta religiosas começaram a servir a Deus neste lugar. Por certo que as obras estavam ainda no começo, mas, as primeiras senhoras que aqui viveram tiveram aposentos em dependências do Paço Real. Opinam alguns que seria um grande paço, pois ainda em 1922/23 havia paredes de pé que foram apeadas nesse ano. E assim se perdeu a memória de um paço medieval.
Outras justificações, além das que já referi, são dadas para a sua fundação, as quais me parecem de considerar:

O intento que El-Rei teve para recolher nele religiosas (…) foi, ao que parece, porque tinha duas filhas bastardas, que desejava acomodar no estado de Religião, e a esse fim fundou junto à Corte de Lisboa este mosteiro, no qual uma delas tomou hábito (…). Que fosse esta a causa, ao menos parcial de se fazer o mosteiro (…), não parece pouco conforme à boa razão.

Quando decidiu construir este edifício, era apenas nascida uma das filhas naturais: a Infanta Maria Afonso mais velha, filha de uma senhora nobre de Lisboa, Dona Marinha Gomes, dona de Valverde que é hoje toda a Avenida da Liberdade e zonas limítrofes. A segunda Infanta, com o mesmo nome da primeira, ainda não era nascida. Foi contudo essa, que foi recolhida no mosteiro de Odivelas, onde faleceu adolescente em 1320.
Uma vez fundado o mosteiro, dotou-o El-Rei de muitos e rendosos bens: casas, terras de cultivo, vinhas, olivais, moinhos, lagares, fornos, herdades, casais e quintas, rendimentos de igrejas e capelas.
Graças aos avultados rendimentos, puderam as residentes viver em abundância e riqueza durante séculos. Era o mosteiro de mulheres mais rico do nosso país.
A partir de 1834, depois que o estado nacionalizou os seus bens, conheceram maus dias. A pobreza levou-as a vender os bens de arte sacra para sobreviverem.
Em 1886 faleceu a última freira desta comunidade. Em 1888 foi encerrado o mosteiro.
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«Por Terras de D. Dinis», crónica de Maria Máxima Vaz

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