Memórias sobre o Concelho do Sabugal (58)

:: :: VALONGO :: :: O livro «Terras de Riba-Côa – Memórias sobre o Concelho do Sabugal», escrito há mais de um século por Joaquim Manuel Correia, é a grande monografia do concelho. A obra fala-nos da história, do património, dos usos e dos costumes das nossas terras, pelo que decidimos reproduzir a caracterização de cada uma das aldeias nos finais do século XIX, altura em que o autor escreveu as «Memórias».

Ponte de Sequeiros -  Valongo Côa - Sabugal - Censos 1758 - Capeia Arraiana

Ponte Medieval de Sequeiros (possivelmente séc. XIII) – Valongo do Côa – Sabugal

Na margem direita do rio Côa e a poucos metros de distância dêle, ao fundo dum extenso vale que começa no sítio da Arieira, é situada a povoação de Vàlongo, que está a uns 18 quilómetros a N. do Sabugal e a cerca de 5 da estação da Cerdeira.
Além da séde da freguesia, pertencem-lhe: Valongo ou Quinta de Cima e Valongo de Baixo, aquele à distância dum quilómetro e este apenas de duzentos e tantos metros.
É terra muito antiga e, a comprová-lo, está o facto de nela se falar já no foral de Castelo Mendo.
Pouca ou nula importância devia, porém, ter a freguesia, porque a população era no fim do século XVII apenas de 15 fogos e 60 almas, tendo actualmente 71 fogos e 266 almas (1905).
Vamos transcrever do referido foral antigo de Castelo Mendo a parte em que ali se descrevem os limites do concelho, do qual se vê que a Vàlongo chegavam as duas terras.
«Teneatis de ociade (?) et deinde per monasterium de Magidi, et per fundum de Azias velido, et quomodo intra Pizio in Pinel, et per portelIam adima et deinde per portum mouriscum et per cabezam de Cerzeira et deinde ad cabezan homine et quomodo intrat Vallongum in coam» (Vid. Portugalia Monumenta Historica).

A lapa de Maria
A respeito desta lapa veio publicada no Archeologo Portuguez (Vol. XI, pág. 133) uma notícia por nós enviada ao sábio director daquele jornal sob a epígrafe «Antiguidades do concelho do Sabugal», que fazia parte desta Memória, onde se diz o seguinte:
«Existe (a lapa) no limite de Vàlongo, margem direita do rio Côa, a poucos passos deste rio e perto do moinho de Afonso Pires. É dificílima a entrada nesta gruta porque tem uma abertura muito estreita e baixa, espécie de cano natural, feito de rochedos graníticos que se afastaram por onde a custo passa um homem deitado, subindo dificilmente e sem poder dobrar-se na extensão de 1, 5, tapando-o herméticamente se quiser chegar ao interior. Depois chega-se a um recinto muito irregular, constituido por diferentes anfractuosidades de rochedos e onde mal penetra a luz. Consta que existia alí outrora uma galeria que a ligava ao rio de que não dista vinte passos».
«Nesta gruta estiveram escondidas trinta pessoas no tempo da guerra peninsular, algumas das quais nós conhecemos e que da gruta nos dera conhecimento, assim como de assassinatos e barbaridades cometidos pelos soldados franceses».
«Em volta do terreno que a cerca foram feitas várias excavações no intuito de procurarem riquezas, porque muitos têm sonhado com elas naquele sítio».
Ignoramos se apareceram alguns instrumentos de pedra, e que seriam ricos para uma região onde o estudo da pre-história é ainda quási um mito. Tudo leva, porém, a crer que fôsse gruta utilizada pelo home pré-histórico».
Depois de publicada esta notícia soubemos que Afonso Pires era neto do moleiro que ali estava no tempo da guerra peninsular e que o moinho pertence actualmente ao rico proprietário de Vàlongo João Fonseca Vaz.
A uma dessas pessoas que estiveram na Lapa de Maria ouvimos contar que á distância de três quilómetros, pouco mais ou menos, dali, franceses enforcaram Paula Pinta, mas esta foi ainda salva porque teve felicidade de em seguida aos franceses passar um indivíduo que vendo-a suspensa num carvalho correu a cortar-lhe a corda que lhe apertava o pescoço, reconhecendo-a então porque, como êle, era de Vale das Eguas. A pequena distância, no sítio da cruz das Eiras, mataram os mesmos franceses Manuel Jacinto.

Ponte de Sequeiros
A pequena distância de Valongo, no caminho da Cerdeira para várias povoações de Riba Cóa, existe sobre este rio uma ponte antiquíssima, à qual nos referimos já noutro lugar. É geralmente atribuída à época de D. Deniz a sua fundação, mas nenhumas provas temos para confirmar tal asserção, porque dela não temos visto notícia em documentos dessa época. Não repugna admitir que date desse tempo, visto que então se fizeram obras notáveis, como a ponte do Sabugal e a restauração de vários castelos. Em abono dessa opinião, pode apresentar-se o facto de existir à entrada dela e na margem direita do rio um torreão onde existem duas portas amplas e altas, que não teriam ali sido feitas se porventura o território ainda não fôsse português. É por isso verosímil que fôsse edificada antes nessa época, que em qualquer outra. Mas há quem a considere anterior à época de D. Deniz, servindo nêsse caso o torreão para vedar a passagem aos portugueses. A ponte assenta sobre rochedos de granito, tem três arcos e o tabuleiro é muito inclinado, especialmente desde o meio até à margem esquerda do rio.

Igreja paroquial
A igreja paroquial é moderna, e, conquanto da mais singela arquitectura, está decentemente ornada. Os altares foram feitos pelo hábil artista, já falecido, António Luiz, da Guarda, em 1884 ou 1885. O orago é N.a S.a da Conceição.
Existe ali uma Irmandade, legalmente erecta, dedicada a Santa Bárbara, cuja receita provém dos anuais dados pelos irmãos.
Além da igreja paroquial existe a capela de Santa Bárbara, em Vàlongo de Cima.
A pequena distância da povoação, junto do caminho de Ruivós e Vale das Eguas fica o cemitério paroquial, onde repousam os restos mortais de pessoas que em Vàlongo foram muito estimadas, como, entre outras, o rico proprietário António Joaquim Simões, natural de Vilar Maior.
O rendimento paroquial, segundo as declarações fornecidas pelo P.e Bernardino Pires, é o seguinte:
Côngrua, 80.000 réis; pé de altar, 20.000 réis; casamentos, 500 réis; baptisados, 500 réis; enterramentos de menores, 120 réis; bens de alma, 3.000 a 6.000 réis. Mas, como é costume haver 3 ofícios, importam só estes em 18.000 réis.

Produção
Em Vàlongo produz-se bem a vinha, sendo muito afamado o vinho desta freguesia, não só porque o terreno é bom, mas porque o clima é mais temperado que noutras. Mas, desde a invasão filoxérica, a produção é insignificante, porque poucos proprietários plantaram bacêlos americanos. Colhe, porém, muito centeio, trigo, batata, feijão, milho e linho, nas férteis veigas das duas margens do Côa.
Cria muito gado, porque há em Vàlongo belos lameiros e outras pastagens, especialmente no extenso vale, que dá o nome à povoação.
Em Vàlongo acabou tràgicamente o célebre bandido Gázio, natural de Quadrazais, que era o terror daqueles povos. O sistema de roubar empregado por êle era escrever aos proprietários endinheirados, avisando-os de que em dia determinado lhe deviam entregar a quantia que desejava. Por diferentes vezes conseguiu do P.e Bernardo de Vàlongo quantias importantes.
Quando uma noite ali apareceu, acompanhado doutro indivíduo de igual condição, conhecido pelo ferrador de Trás da Serra, dois indivíduos, que, a convite do venerando sacerdote, estavam em casa deste (Ladeira e Cipriano se chamavam), puzeram termo às aventuras, um dando-lhe um tiro, que o tombou do cavalo, e o outro fendendo-lhe o crânio com um machado.
Coincidência curiosa: um dia o Gázio matou, quando criança e a convite do pai, um indivíduo de Vàlongo, na feira da Sacaparte e conta-se que o pai fôra precipitado do alto da ponte de Sequeiros sobre o rio Côa.
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Joaquim Manuel Correia

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