Memórias sobre o Concelho do Sabugal (46)

:: :: SANTO ESTÊVÃO :: :: O livro «Terras de Riba-Côa – Memórias sobre o Concelho do Sabugal», escrito há mais de um século por Joaquim Manuel Correia, é a grande monografia do concelho. A obra fala-nos da história, do património, dos usos e dos costumes das nossas terras, pelo que decidimos reproduzir a caracterização de cada uma das aldeias nos finais do século XIX, altura em que o autor escreveu as «Memórias».

Igreja Matriz de Santo Estêvão - Sabugal - Censos 1758 - Capeia Arraiana

Igreja Matriz de Santo Estêvão – Sabugal

Situada a 9 quilómetros do Sabugal, numa encosta abrigada do Norte, é uma das povoações mais florescentes e mimosas do concelho. A povoação oferece um aspecto pitoresco e dali se disfruta um belo horizonte, um extenso panorama, limitado pela Serra da Estrêla.
A povoação é ligada à Guarda e Sabugal por uma estrada que passa pelo Casteleiro e Santo Amaro, e deve terminar na Estação de Caria, caminho de ferro da Beira Baixa.
A estrada não passava no interior da povoação, mas, por iniciativa do falecido Conselheiro e Par do reino A. Teles de Vasconcelos, que ali tinha propriedades importantes, foi abandonado um extenso lanço e substituído por outro, de modo a passar no meio da povoação, em frente à casa de residência dele, com o que todos lucraram, embora com a variante se gastasse uma grande quantia e ficasse inutilizada a outra.
No limite de Santo Estêvão houve outrora um mosteiro, existindo ainda as ruínas de parte do edifício e uma fonte chamada a fonte das freiras.
Na parede duma casa, nesse sítio, pertencente à família Cardona, existe uma lápide com inscrição, que não lemos por estar quase toda tapada com pedras.
O sítio era realmente próprio para um retiro, tinha bom horizonte e devia ser saudável.
À saída de Santo Estêvão, junto duma grande porção de terreno de logradouro, ao lado da estrada, foi construído um bom chafariz com duas bicas que deitam água abundante. No dito largo há cinco fornos de telha, que dão rendimento, porque no concelho esta não se fabrica senão há pouco tempo, e em pequena escala, na Quinta dos Vieiros e na Cerdeira, vindo antes disso de Nave de Haver, há muitos anos pertencente ao concelho de Almeida.
A produção da freguesia consiste em centeio, trigo, batata, castanha, azeite, cevada, milho, vinho, linho e todos os mais produtos próprios do concelho.
Tem muitos gados, caprino, bovino e lanígero, porque nos extensos limites possui boas pastagens. Fabrica carvão nas serras, embora em pequena porção. Há em Santo Estêvão alguns almocreves e negociantes. Tem cadeira de ensino elementar para ambos os sexos, sendo a do sexo feminino criada em Março de 1909.
Os habitantes de Santo Estêvão são corajosos e altivos, tornando-se respeitados porque não admitem desconsiderações e fàcilmente passam a vias de facto; mas são lhanos e respeitadores em extrêmo de quem os trata com lealdade, São bastante industriosos e inteligentes, activos e empreendedores.

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Em Santo Estêvão há filões metalíferos de grande valor, havendo algumas minas manifestadas.
Foi pároco de Santo Estêvão o falecido padre Miguel Nabais, natural das Alagoas.
A igreja paroquial está quase no centro da povoação. É muito regular e decentemente ornada. Pertencia em 1320 a Sortelha, e foi taxada em 40 libras.
Há poucos anos foi construído um bom cemitério paroquial fora da povoação, sendo dos mais decentes e em melhores condições higiénicas que existem no concelho.

Eleições de 28 de Agosto de 1910 no concelho do Sabugal
Nas eleições de deputados que tiveram lugar em 28 de Agosto de 1910 tornou-se muito conhecida esta povoação, onde o candidato progressista Manuel Teles de Vasconcelos tem grande influência. Foram para ali mandadas duzentas praças de infantaria e feitas muitas prisões. Os jornais dos diferentes partidos políticos fizeram variados comentários, uns justificando a presença da fôrça armada, outros contestando tal necessidade.
Estas eleições foram assinaladas por excessos e perseguições aqui no Sabugal e em Alfaiates, em que se destacaram os nomes do Administrador do Concelho, Dr. Luiz Capelo, e do Dr. Manuel Nunes Garcia, este representante da autoridade administrativa na assembleia de Alfaiates, em que foi prêso o farmacêutico Pina Antunes, ali residente, mas natural da Nave.
No dia 29 foi prêso no Sabugal pelo alferes Sena Belo o padre Vital de Almeida, pároco em Rendo, sendo solto só no dia 9 de Setembro, bem como Manuel Vaz dos Santos, prêso na Nave em 29 pelo tenente Vasco Homem de Figueiredo. O padre Vital foi prêso por êsse alferes no Sabugal onde fora acompanhar o par do reino Luiz Teles de Vasconcelos. Manuel Vaz, segundo diz o Correio da Manhã, foi prêso em 29, quando, convidado pelo tenente, apareceu à porta da irmã onde estava hospedado. Dali foi remetido para o Sabugal acompanhado por soldados.
Na dita assembleia impediu Manuel Vaz o roubo da urna, entregando-a ao representante da autoridade, tenente Vasco, fardado e armado de revólver no acto eleitoral, explica o Correio da Manhã de 13-Setembro-910.
O professor de Rendo, cujo senso, rigidez e seriedade são proverbiais, foi antes das eleições avisado para comparecer na administração do concelho do Sabugal e ali deu-lhe ordem de prisão Luiz Capelo, a qual não manteve, contentando-se em lavrar um auto, em que o professor tomava a responsabilidade de palavras que lhe eram atribuídas.
Conta o Correio da Manhã de 14-Setembro-910 que Arnaldo Quintela, membro da mesa na assembléia do Sabugal, lançou na urna rolos de listas, gabando-se depois de lhe ter dado para isso 5.000 réis o administrador do concelho.
O quartel militar ardeu, bem como armamento e munições, dizem os jornais.
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Em 19 de Outubro de 1921 foi assassinado o professor Cândido Martins de Paiva, sendo prêsos muitos indivíduos, entre outros o Dr. Luiz Teles de Vasconcelos, que em telegramas e correspondência para os jornais protestou, dizendo estar desligado da política, ser estranho ao caso e estar nesse dia em Celorico, no exercício da profissão de advogado.
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Joaquim Manuel Correia

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