D. Dinis – Túmulo da filha Infanta Maria Afonso (1)

Por Terras de D. Dinis - Maria Máxima Vaz - © Capeia Arraiana

O que nos dizem os Cronistas e os Historiadores: «Teve elrei D. Dinis duas filhas bastardas, ambas do nome de Maria, uma que se conservou no século, outra que foi recolhida no mosteiro de Odivelas.» Foi esta a primeira informação que tive sobre a Infanta sepultada em Odivelas. Nenhuma outra certeza completava esta. Borges de Figueiredo no seu livro «O Mosteiro e Odivelas – Casos de Reis – Memórias de Freiras» teceu algumas conjecturas por confirmar ainda hoje.

Túmulo da Infanta Dona Maria Afonso, filha natural do Rei D. Dinis, no Mosteiro de São Dinis e São Bernardo em Odivelas - Foto: Capeia Arraiana

Túmulo da Infanta Dona Maria Afonso, filha natural do Rei D. Dinis,
no Mosteiro de São Dinis e São Bernardo em Odivelas – Capeia Arraiana

Se existem documentos que nos tirem dúvidas sobre a vida da Infanta Maria Afonso, filha natural (bastarda) de El Rei D. Dinis, ninguém as encontrou ainda, apesar do muito que se tem escrito. Somam sempre dúvidas a outras dúvidas. Propostas e certezas não confirmadas, é o que não tem faltado. Nada confirmam, porque nenhum documento que lhes poderia dar credibilidade acompanha as afirmações nem as propostas mais recentes.
Borges de Figueiredo, no seu livro «O Mosteiro e Odivelas Casos de Reis Memórias de Freiras», abre o capítulo dedicado a este túmulo, afirmando: «Mesmo ao fundo da abside lateral da banda da epístola, ou capela de São Pedro, que sempre conservou esta invocação, vê-se um túmulo de pedra ocupando o lugar do antigo altar.»
Mas esse monumento funerário nem sempre esteve naquele local. Nem o túmulo que hoje lá está, como se afirmou recentemente, nem outro, porque ali havia um altar. Enquanto o altar existiu, não sobrava espaço naquela capela para colocar um túmulo, porque nas paredes laterais muito chegados ao altar, há dois arcos de volta perfeita encimando dois portais que dão passagem, do lado esquerdo para a capela-mor e do lado direito para a sacristia, não sobrando espaço para colocar um túmulo daquelas dimensões.
Num artigo da autoria do Coronel Frederico Ferreira Simas, publicado em 1943 no Boletim da Sociedade de Geografia, quando era Director do Instituto Feminino Educação e Trabalho, com sede no Mosteiro de São Dinis e São Bernardo, em Odivelas, lança alguma luz que nos permite direccionar também para o túmulo de Dona Maria Afonso, a propósito das mudanças em que andou o túmulo do rei D. Dinis:
«D. Diniz determinara que o seu túmulo ficasse na igreja do Mosteiro das Freiras Bernardas que fundara em Odivelas e à guarda das mesmas religiosas.
Marcou mesmo o lugar da sua jazida a meio da igreja.
Findava portanto o túmulo no coro que era no rés do chão e não no alto como se acha agora. As paredes laterais encontravam-se recobertas com grandes quadros pintados a óleo representando cenas do Velho Testamento. A situação do túmulo desejada pelo rei impedia, porém, as freiras a que do coro vissem o oficiante da missa.
Passados alguns anos sobre a data da morte do rei D. Dinis mandaram aquelas encostar o túmulo à teia onde se conservou até 1880, ano em que o Arquitecto Nepomuceno encarregado de restaurar a igreja o meteu, destruindo um altar, numa capela, a que se encontra do lado da Epístola do altar-mor.
Ali ficou o túmulo de D. Diniz mal instalado porque dificilmente se podia passar para examinar os baixos relevos e a estátua jacente.»

Em nota de rodapé, esclarece o autor: «Estas telas estão arrecadadas numa dependência do Instituto e excelentemente conservadas.»
Este relato prova que o túmulo de Dona Maria Afonso não estava no lugar onde o vemos hoje. A suposição de que sempre ali esteve serviu de justificação, além de outras, a uma das últimas teses, que a história não confirma.
Essa mesma tese fundamenta-se em dois pontos, segundo me foi dito perante numeroso público, pelo orientador da mestranda:
«Esse túmulo está na igreja e Maria Afonso está sepultada no claustro. Por essa razão não é o túmulo da infanta filha de D. Dinis.» acrescentando que «se fosse da filha de D. Dinis, a estátua jacente teria o hábito cisterciense».
A isto apenas respondi:
– O Senhor Professor já pensou que se o túmulo estivesse na igreja, estaria danificado como o do rei D. Dinis, o que certamente teria acontecido, quando no sismo de 1755 as abóbadas caíram? Se partiram o túmulo do rei D. Dinis também partiriam este, caso estivesse na igreja.
Fez-se um silêncio ensurdecedor e o olhar do Professor deu-me uma resposta muito eloquente. Da sua boca não saiu uma palavra.
Vejamos o que sobre esta questão escreveu o cronista Frei Francisco Brandão:
«No dia de S. Dinis, de cuja invocação he o convento, celebrão as religiosas sua festa com grande solenidade, como he razão (…) Além da festa que se celebra por razão do Santo, fazem também h~u bodo por memória delRey D. Dinis seu fundador, cuja sepultura está honrando a própria casa. Além deste depósito se vem sepultadas em Odivellas algumas pessoas de sãgue Real, a saber. O Infante Dõ João neto delRey D. Dinis e filho delRey Dom Afonso IV, o qual está na Capella de São Pedro. A senhora Dona Maria, filha bastarda delRey D. Dinis, Religiosa professa deste Convento, a sepultura da qual está na parede do claustro, que responde à Capela de S. João Baptista. Junto a cadeira das Abadessas está h~ua cruz de mármore preto com h~u escudo aquartellado, que tem no alto, & no baixo da parte direita as armas de Portugal com orlas, & nas outras duas escudo com três leões na parte direita, & na esquerda três flores de lis, que era o escudo da Rainha Dona Felippa Ingresa, a qual morreu neste convento, e esteve quinze meses enterrada nelle, até ser tresladada para a Batalha. Está também sepultada na sacristia deste mosteiro sua neta a Senhora D. Felippa, filha do Infante D. Pedro, & da Infanta Dona Isabel de Aragão. No voto desta senhora Dona Felippa, que dei à estampa, disse que a Capella instituída com Missa quotidiana no Convento de Odivelas pela alma da Rainha D. Felippa, fora no anno de mil quatrcêtos & quarenta e sinco, por mandado do Infante Dom Pedro, filho da Rainha sobredita, & pay della (da Infanta D. Filipa): porem, vendo o instrumento original, achei ser no anno de mil quatrocentos & vinte e quatro.»
Borges de Figueiredo repete o que diz Brandão e faz comentários oportunos.
Faz uma descrição pormenorizada e de bom observador, da estátua jacente e quanto à forma como está vestida, refere, entre outras coisas: «Por sobre a túnica, ou hábito, mas deixando vê-la ao centro, desce naturalmente o manto dos ombros até aos pés.»
Constatamos, assim, que por debaixo do manto poderá ter vestido o hábito, como argumenta. As suas palavras não foram tidas na devida conta, mas ficam esvaziadas de sentido as bases desta tese que quer a estátua jacente vestida com o hábito e não colocou a hipótese que coloca, com toda a lógica, Borges de Figueiredo. Talvez tenha tido mais tempo para observar, não se ficando pelo «ver», visto que em 1889, ano em que encerrou o convento, andou dois meses observado…
É a única descrição e planta que existem do Mosteiro de Odivelas, tal como o encontrou nesse ano.
(Continua)…
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«Por Terras de D. Dinis», crónica de Maria Máxima Vaz

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