Casteleiro – O «quê de nove»

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

Dois episódios simples deram-me esta semana a garra para arrancar umas recordações interessantes e isso acabou por dar material para esta crónica. Foi por um lado o que ouvi numa rádio local numa fracção de segundos – como se costuma dizer; e, por outro, uma conversa à mesa de um café aqui à porta… Isso, aliado a uma imagem recordatória há uns dias numa página de «Facebook» deram-me matéria mais do que interessante para estas linhas que está a ler. É assim a vida, quando queremos vivê-la. Leia, que eu explico tudo aí adiante. Mas não deixe de consultar também o «Serra d’ Opa» todos os dias pois agora tem edição diária de artigos, sem falhar a edição semanal, claro: vamos no número 26, cujo «link» encontra no final da crónica.
Boa semana.

A lousa e a pena

A lousa e a pena

Há uns dias, um dos responsáveis da página de ‘Facebook’ «Moita-Sabugal» inseriu uma foto que é um painel de imagens de material escolar do tempo da minha meninice (e da dele, claro). A imagem vem assinada do original (ver aqui), pelo que agradeço ao autor. A mim, fez-me andar anos para trás e achar piada. Houve quem reagisse mal porque constam lá as fotos de Salazar e Tomás. Isso é história. Estavam lá mesmo, mas nossas escolas todas. Só não sabe quem não quer saber. Basta perguntarem aos pais ou avós, consoante a idade que tenham…
Essa imagem, mais uma conversa de café e um pouco de rádio local… tanto bastou para vir aqui recordar a escola primária e outras coisas de que já não falava há décadas!

Ambiência escolar

Ambiência escolar

O material escolar
Uma tarde destas, em ambiente de convívio aí num destes cafés de tranquilidade, dois ou três à volta de uma mesa, a recordar como era o material antigo nas nossas escolas.
Para lá das referências sistemáticas a material que não era propriamente de ensino – como a régua (não é a régua de régua e esquadro, não: é a régua das reguadas, que a mim nunca me tocou, que me lembre, mas há aí poucos assim, segundo sei…), para lá da varinha, cana, cana da índia ou fosse lá o que fosse – e que também nunca me saiu na rifa, vá lá – , esses que eram materiais muito em voga nas mãos de professores e professoras da época, não há como não lembrar nomeadamente:
– o livro de leitura de cada classe,
– a tabuada (qual calculadora, qual computador para fazer contas: felizmente aprendemos a fazer contas nós mesmos. Ainda bem. E nada de contar pelos dedos, que as contas devem ser feitas na cabeça de cada um),

Livrinho da Tabuada

Livrinho da Tabuada

– o aparo e a caneta do tempo e o tinteiro ali na carteira (qual mesa, qual secretária, qual quê: carteira de tampo inclinado, pois então),
– o caderno de duas linhas,
– a pedra de ardósia e a pena (julgo que também de ardósia, nada de giz: isso já é muito mais tarde) com que se escrevia nela e se apagava com o dedo molhado em saliva uma vez e outra e outra a engolir ardósia moída – e ninguém morreu disso… Era a lousa.
A pedra é uma das minhas lembranças preferida – a pedra e o ponteiro que tanta vez se partia e vai de aproveitar os bocados até ao fim.
E, finalmente mas não menos importante, o afamado quadro da escola, à frente, enorme, que era quase sempre fonte de conflito: se ia ao quadro era de castigo e a seguir era pior ainda, para muitos, quase sempre…
Assim era a via de escola dos seis ou sete aos dez ou onze… quando não era para alguns até aos treze ou catorze.
Ah! Memorável! E as sessões de grupo coral a decorar a tabuada?
O inesquecível grupo coral de cada escola, tardes inteiras a cantar:
– 2 vezes 1, dois,
– 2 vezes 2, quatro,
– 2 vezes três, seis… e por aí adiante…
Ora, que julgo saber e constatei nessa tarde por aqui onde agora mais estaciono o carro agora, a cantilena era a mesma por todo o país, com a mesma entoação.
Letra e música feitas nas escolas do então Magistério Primário do País todo, pelos vistos!
E nessa tarde, dizia-me aqui um mais assanhado:
– Então eles agora andam na Universidade e não sabem quantos são sete vez nove!

Eis a tabuada de multiplicar

Eis a tabuada de multiplicar

O alfabeto
Nós líamos o alfabeto assim:
«A, Bê, Quê, Dê, E, Fê, Guê, Agá, I, Jê…» etc..
Hoje é o que você sabe.
Ora esta situação e este modo de ler os nomes das letras levavam a que houvesse sempre uma grande confusão sobre duas letras cujo nome era lido da mesma maneira: o c e o q. Ou seja, com leitura da época: o quê e o quê.
Como resolver essa situação?
Muito simples:
O c era quê e pronto.
Quanto ao q, passou a ser chamado como «quê de haste», porque o nosso desenho da letra era mesmo essa – fosse na pedra de escrever, fosse no quadro preto da escola, fosse no caderno. A letra tinha mesmo uma haste. Ainda hoje, se a escrever à mão, há-de reparar que tem mesmo a haste para baixo da linha de escrita.
Ah! Era sagrada, essa linha: a barriga de cada letra tinha de assentar nela.
E para os principiantes até havia cadernos de duas linhas. Ou seja: cada «linha» de escrita eram afinal duas linhas e era dentro delas que se escrevia: nem para cima, nem para baixo. À excepção, claro, da haste do quê para baixo, a do dê para cima, a do pê pra baixo, o h que ultrapassava a de cima etc..
Volto ao quê – aquele que fica lá para a frente no abecededário, depois do pê.
Era então o quê d’ haste.
Mas havia uma fórmula muito – mas muito – mais antiga de o chamar: era o «quê de 9». Já nem me lembrava dessa. E é mesmo. Se reparar, esse quê e o 9 são iguais no desenho. O que estão é em posição diferente relativamente à linha de escrita: o quê assenta a barriga na linha, ao passo que o nove assenta na linha a pontinha da haste!
Quê de nove! Meu Deus, há quanto tempo não ouvia essa.

Pois bem: uma tarde destas, voltava para casa sossegado a ouvir música e, quando passo pela zona do Seixal, pus o rádio à busca de outra estação. A busca do aparelho caiu numa das duas rádios locais. E, imediatamente, antes de continuar a busca, o que oiço? Um diálogo entre um ouvinte e animador de um programa de música na tarde:
– Então e qual é o seu nome, car’ òvinte?
– Sou o Tóquim.
– Tóquim, com quê de nove?
– Sim, com quê de nove.

Fiquei siderado. Há quantos anos não ouvia tal. Andei mais de 50 anos para trás naqueles poucos segundos. E achei piada: gostei… Foi aí que nasceu definitivamente este artigo.

Notas
– As fotos assinadas com ‘SN’ saíram, de um blog chamado ‘Santa Nostalgia’, a cujo autor agradeço. Numa delas fiz esta brincadeira do quê de nove, pelo que peço a compreensão de todos: vale a boa vontade…
– Para aceder à edição 26 do «Serra d’ Opa», siga por aqui.

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«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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