Memórias sobre o Concelho do Sabugal (28)

:: :: FOIOS :: :: O livro «Terras de Riba-Côa – Memórias sobre o Concelho do Sabugal», escrito há mais se um século por Joaquim Manuel Correia, é a grande monografia do concelho. A obra fala-nos da história, do património, dos usos e dos costumes das nossas terras, pelo que decidimos reproduzir a caracterização de cada uma das aldeias nos finais do século XIX, altura em que o autor escreveu as «Memórias».

Nascente do Côa - Fóios - Sabugal - Capeia Arraiana

Nascente do Côa – Fóios (Foto: José Carlos Callixto)

A pequena distância de Aldeia Velha, nas margens do rio Côa, que nasce muito perto, no sítio de Sortelha, na Serra das Mesas, está a freguesia dos Foios no fundo dum vale, a 26 quilómetros de distância do Sabugal, situada entre elevadas serras.
A pequena distância começa o território espanhol, cuja linha divisória segue a serra de que acabámos de falar.
Diz-se que o nome dado à Serra das Mesas proveio do facto de no local terem existido umas mesas de pedra junto das quais estiveram antigamente sentados quatro Bispos, ficando cada um no território pertencente ao respectivo bispado.
Esses Bispos eram os de Ciudad Rodrigo e Coria, Lamego (de que se desmembrou o já extinto de Pinhel) e o da Guarda. Nesta serra nasce o rio Côa, que ao passar na povoação é ainda um pequeno ribeiro.
A pag. 181 do Vol. II do Archeólogo vem trasladada parte das Memórias Parochiais) do teor seguinte: «… a celebrada serra das mezas, aonde estão quatro Byspos sentados á mesa cada hum no seu Byspado, dividindo quatro Linhas superficiais, do centro aos angulos .. de cada Byspo que é: o da Goarda, Lamego, Coria e Cidade Rodrigo, e pelo meio huma Linha divide este Reino do de Castella e ha tradicção que por padroens esteve esta maravilha patente». (T. 2.° fl. 412 das Memorias Parochiais, Arq. T. 2, pág. 181).
A respeito da palavra Fojos achamos curiosa a transcrição dum trecho do «Portugal Antigo e Moderno, do falecido Pinho Leal: «significa cova funda, feita no fim de duas paredes (que principiam a 2.000 metros e vão ambas terminar na tal cova». Os caçadores e monteiros cercam os lobos e outros animais ferozes, impelindo-os para entre as duas paredes, depois os espantam para ellas hirem fugindo até que não tendo outra sahida, caem á cova, que está disfarçada com ramos».
Segundo afirma o Abade de Pera na sua obra, já citada, «Guerras da Beira», os castelhanos incendiaram Foginhos, nome que parece aplicar-se aos Foios, porque não existia outra povoação a que o diminutivo pudesse referir-se e porque efectivamente os castelhanos incendiaram muitas povoações da raia, sendo provável que esta não escapasse ao vandalismo.
Tudo leva mesmo a crer que o nome da terra foi alterado, chamando-se então Foginhos, talvez em contraposição aos Fojos, notável povoação espanhola, por nesse tempo ser povoação insignificante e pertencente à freguesia da Nave, sendo mais tarde o cura da apresentação do reitor desta.
Cria-se ali muito gado lanígero e caprino, podendo calcular-se o primeiro em 2.000 cabeças e o segundo em 150, em 1889, época em que colhemos informações a tal respeito.
São das melhores do concelho as vacas desta freguesia e o leite deas, das ovelhas e cabras, é muito saboroso, motivo porque os queijos dos Foios são muito apreciados, o que se justifica pelo facto .de ali haver belíssimas pastagens, frescos prados e lameiros, que produzem boa erva e feno. A produção principal dos Foios consiste em centeio, batata e legumes.
Fabrica-se também muito carvão nas serras próximas, onde há abundância de mato, torga, urze, carqueja e medronheiros. Como em Vale de Eipinho, abunda ali a caça. Existem poucas árvores frutíferas, em razão da aspereza do clima.
Nas serras abundam umas plantas chamadas chupameis, especialmente no Vale da Risca. Recordamo-nos de ouvir dizer há poucos anos a um indivíduo dos Foios «que iam aos chupameis ao Vale da Risca e que vinham de lá fartos com’uns novilhos».
Em 1889 poucas pessoas ali sabiam ler e escrever, por não haver professor de instrução primária, cuja cadeira só anos depois foi criada, sendo regida primeiro por uma professora e depois por José Magdalena Nunes e Francisco Manso, que tem sido encarregado da caixa do correio.
É natural dos Foios o padre JOSÉ MARIA MARTINS, que foi pároco do Meimão e, por falecimento do p.e Manuel da Costa Pereira (natural da Vila do Touro) em 20 de Julho de 1904 recebeu carta de pároco amovivel para Meimão e Malcata.
Há poucos anos foi edificada a nova igreja paroquial. O orago da freguesia é S. Pedro Ad Vincula.
Em 1889 tinha a freguesia 146 fogos e 418 almas.
O rendimento paroquial, segundo as declarações dadas pelo pároco, P.e Bernardino da Fonseca Panchorra, é o seguinte, calculado anualmente em 106.000 réis:
Côngrua, 76.000 réis; Pé de altar, 20.000 réis; Casamentos, 400 réis; Enterramentos de menores, 120 réis; Baptisados, 300 réis; Bens de alma, 3.000 a 9.000 réis.
Ora este foi o cálculo feito pelo referido pároco, já falecido; mas de vemos especificar o que os párocos recebem em géneros e objectos.
Casamentos – uma galinha pelos pregões (ou 500 réis), de cada padrinho 50 réis, um trigo de 3 arráteis, e três quartilhos de vinho.
Baptisados – 2 palmos de cera e um guardanapo (ou 240 réis), 50 réis, três arráteis de trigo e 3 quartilhos de vinho.
Entre toda a gorronia, disse-nos um vizinho, o bem dalma bota por 40.000 réis, com 3 ofícios, repertório e novena).
Perto dos Foios houve há anos um sério conflito entre vários indivíduos daqui e os carabineiros, de que resultou ficarem mortos 2 carabineiros e um português e muitos outros feridos. A origem dele foi o facto de os carabineiros terem indevidamente levado na direcção dos Foios de Azevo uma porção de gado pertencente aos Foios. Os pastores e outros indivíduos entraram em Espanha e trouxeram o gado.
Responderam em audiência geral vários indivíduos dos Foios e ficaram absolvidos.
O conflito deu lugar a troca de explicações entre os dois governos e o deputado pelo círculo do Sabugal, que era o malogrado Dr. Justino Bigotte, tratou o assunto na Câmara à verdadeira altura.
É digna de registo a coragem e audácia dos indivíduos dos Foios, que não hesitaram em bater-se com os espanhóios, mesmo dentro do seu país.
Era dos Foios um indivíduo por alcunha o Linhas, que dizem ter assistido ao assassinato do cura de Valverde pelo Montejo e quadrilha, denunciando os assassinos, que foram prêsos e enforcados em Valverde, excepto o Montejo, que fugiu e viveu durante muitos anos em Moncorvo.
Em 1900 deu entrada na Penitenciária de Lisboa um indivíduo daqui, pelo crime de homicídio.
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No Diário de Notícias de 7-1-936 veio a notícia de que Leopoldina Tavares, regressando de Valverde, onde fora levar uns litros de vinho (talvez ao marido) dera à luz num descampado, em dia de tempestade, três crianças, no dia 2 de Fevereiro, agasalhando-as num casaco e indo para casa (Foios). Morreram as crianças, escapando a mãe tratada pelo médico Dr. Francisco dos Reis Lopes, que vive em Alfaiates e é de Vale de Espinho.
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Joaquim Manuel Correia

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