Estudo da vida e obra de Nuno de Montemor (1)

Freguesia de Quadrazais - Sabugal - © Capeia Arraiana (orelha)

O livro «Subsídios para o estudo da vida e obra de Nuno de Montemor» mandado editar pela Câmara Municipal da Guarda no centenário do nascimento do escritor-padre de Quadrazais (16 de Dezembro de 1981) é composto pelos dois ensaios que obtiveram os primeiros prémios. Associando-se à feliz iniciativa da Junta de Freguesia de Quadrazais vamos divulgar no Capeia Arraiana um dos ensaios premiados pela autarquia guardense da autoria da historiadora sabugalense Maria Máxima Vaz. O estudo inclui cartas inéditas de Nuno de Montemor. (Parte 1 de 4.)

Subsídios para o estudo da vida e obra de Nuno de Montemor - Maria Máxima Vaz - Capeia Arraiana

Subsídios para o estudo da vida e obra de Nuno de Montemor – Maria Máxima Vaz

Justificando uma iniciativa
Em Outubro de 1981 a Câmara Municipal da Guarda, através do Pelouro da Cultura, comemorou o primeiro centenário do nascimento do escritor-padre Joaquim Augusto Álvares de Almeida conhecido no mundo das letras por Nuno de Montemor com conferências e um certame literário. Para tornar mais conhecida a obra do homenageado foi deliberado em sessão camarária mandar editar um livro composto pelos trabalhos que obtiveram os dois primeiros prémios. «Nuno de Montemor – um escritor guardense, sua vida e obra», da autoria de Maria Máxima Vaz e «Nuno de Montemor – Sua vida e obra», da autoria de Fernando Jorge dos Santos Costa.
A autarquia guardense justificou assim a iniciativa: «Julgamos, deste modo, ter contribuído para o melhor conhecimento dum dos maiores vultos das Letras, que viveram na nossa Terra. Descreveu, com realismo inexcedível, costumes e tarefas das nossas aldeias, divulgando o folclore regional, entoou cânticos de louvor a tudo o que há de belo e singular na nossa Estrela, em páginas dignas de figurarem em qualquer antologia da Língua Portuguesa.»

Ensaio de Maria Máxima Vaz
O livro «Subsídios para o estudo da vida e obra de Nuno de Montemor» há muito que está esgotado. Socorremo-nos de um exemplar que está na posse de Maria Máxima Vaz e que a historiadora nos facultou para escrever esta crónica. Da rápida conversa que tivemos quando fui recolher o livro não resisto a partilhar algumas recordações. «Cheguei a Quadrazais para substituir um professor já por alturas do Natal. Estávamos no ano lectivo 1957-58. Os pais estavam com os cabelos em pé porque os seus filhos já tinham estado muito tempo sem aulas. Fiquei com a turma da quarta classe com 48 alunos. Nos meses que me restavam até aos exames preparei 15 admissões para o Liceu da Guarda. Passaram tudos!», diz-nos com orgulho. A seguir aproveitou para nos falar da sua «relação» com Nuno de Montemor: «A Madre Rosário foi minha professora de português no segundo ano no Colégio do Sagrado Coração de Maria na Guarda. Tínhamos uma aula semanal com leitura dos livros de Nuno de Montemor. Recordo, por exemplo, no livro Amor de Deus e da Terra a qualidade do prefácio assinado pelo poeta Afonso Lopes Vieira e das opiniões finais de Antero de Figueiredo, Augusto de Castro, Fernando de Sousa ou Guido Battelli.»
(Sensibilidades ao alcance de poucos! – dizemos nós.)

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Reprodução do trabalho «Nuno de Montemor – um escritor guardense, sua vida e obra»
(Parte 1)
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Introdução
Realizar o trabalho que nos é proposto, envolve mais dificuldades do que à primeira vista pode parecer, sobretudo se não dispusermos de abundantes testemunhos orais.
No meu caso pessoal, busquei sobretudo fontes escritas que são relativamente escassas no que se refere à vida de Nuno de Montemor. O mesmo não posso já dizer no respeitante à sua obra. Para levar a cabo esta segunda parte do trabalho, bastar-nos-iam os livros por ele escritos, se nos fosse concedido um prazo suficiente para os ler e meditar, pois numa leitura apressada dificilmente se poderão retirar das suas obras as mensagens que elas nos trazem. Sendo a sua obra tão vasta, o tempo estabelecido é demasiado restrito para uma análise crítica. É que os livros de Nuno de Montemor são como as parábolas de Cristo – por detrás de uma encantadora história está sempre a transmissão de um conceito moral.
É certo que a singeleza com que nos fala, toma esse conceito facilmente reconhecível, mesmo pelas pessoas com pouca preparação literária, mas o mesmo não acontece com os princípios políticos, que estão muito mais ocultos. Há ainda a considerar as questões sociais que são uma constante da sua obra e que merecem ser analisadas, tanto na maneira como as apresenta, como na solução que lhes dá.
Sendo muito poucas ainda as pessoas que escreveram sobre este autor, a tarefa que nos propõem toma-se morosa e envolve risco de erro, embora seja mais aliciante. Não há teorias feitas, nem sequer opiniões gerais emitidas. Encontra-se apenas na imprensa, uma ou outra referência a este ou aquele livro de Nuno de Montemor, quando ele os publicou. Uma visão de conjunto de toda a sua obra não existe e seria útil que alguém a apresentasse.
Para a elaboração do presente trabalho fundamentar-me-ei no testemunho oral de um contemporâneo e amigo do autor, Monsenhor Moreira das Neves, nos livros escritos por Nuno de Montemor e ainda nalgumas referências que a imprensa lhe fez, de forma a obter uma imagem o mais correcta e aproximada, do homem e do escritor.
Assim, o ensaio sobre Nuno de Montemor está dividido em: (1) O Homem; (2) O Escritor; (2.1) O Poeta; (2.2) O Romancista; (2.3) Conclusão; e (2.4) Apêndice – com cartas inéditas de Nuno de Montemor – que vão ser publicados entre esta sexta-feira, 3 de Janeiro, e sábado, 4 de Janeiro, dia em que se comemoram numa feliz iniciativa da Junta de Freguesia de Quadrazais os 50 anos do falecimento de Nuno de Montemor.
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(Parte 1 de 4 – Continua.)
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jcl

One Response to Estudo da vida e obra de Nuno de Montemor (1)

  1. Eu fui autarca e trabalhei com grandes autarcas com os quais muito aprendi. Como faziam?
    O Vereador da cultura reunia no início do mandato, com todo o pessoal da Divisão de Cultura e reflectiam sobre o que deveriam fazer naquele mandato: Factos, acontecimentos, comemorações, iniciativas culturais, projectos a conceber e levar a cabo, etc.
    Quando acontecia uma situação deste natureza, se chegavam à conclusão que deviam comemorar, procuravam os colaboradores e, se aceitavam trabalhar no projecto, começavam com antecedência suficiente para se fazer investigação e produzir um texto que desse um retrato fiel.
    Colaborei algumas vezes e o resultado foi satisfatório.
    Este trabalho sobre Nuno de Montemor não dispôs de tempo suficiente. Tudo foi feito à pressa. Eu só pude fazer este modesto trabalho, porque tinha lido quase todos os livros do autor e os possuía. Mesmo assim, “descalcei-me ” para correr e sinto-lhe as fraquezas.
    Nunca mais tive tempo para retomar este assunto.

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