A matança do porco

Manuel Leal Freire - © Capeia Arraiana

A matança do porco num trecho de Forjaz de Sampaio.

Matança do porco

Matança do porco

Um homem foi ao chiqueiro e laçou o animal renitente pelo focinho.
Outros homens prepararam entretanto um carro de bois, metendo-lhe sob o eixo um calhau, o que deu à carreta um declive suave.
Depois, sete ou oito deram ajuda ao do chiqueiro, aferrando pulsos musculosos à corda, que o porco persistia em puxar para trás, grunhindo desesperadamente.
Durou a luta minutos, que logo a matula caiu sobre o bicho, um porco enorme, e lhe açovavam o esforço, deitando-o sobre o carro, subjugando-o e ligando-lhe a corda do focinho ao varal, enquanto ele esperneava.
Debalde grunhiu, debalde chamou todas as forças. Nada lhe valeu.
Vendo a inanidade do seu apelo e da sua revolta, começou gemendo baixinho, num choro, num lamento.
Fechou os olhos.
Entretanto preparou-se um tabuleiro.
Uma criada vem com um grande alguidar e uma colher de pau.
O carrasco avançou com uma grande e aguda faca e arregaçou a camisola forte.
Então o espectáculo tomou a forma de apoteose.
O animal fechou os olhos e resignou-se.
Assim esteve um instante.
O carrasco persignou-se, passou o gume, raspando, na banha do pescoço a barbear.
Depois deu um lenho como quem abre um queijo ou um melão.
A muralha de carne fendeu e o animal estremeceu todo.
Abriu os olhos, tentou um derradeiro esforço.
Mas a corda começava a cortar-lhe a tromba arreganhada e a matula um segurem-no.
Raios do carniça, aferrou-o de todo.
Pelo buraco feito, de ponta, sumiu-se a faca.
O animal grunhiu, berrou, uivou, gritou num brado único, o último.
E a mão do homem, numa epilépsia de chacina, começou a revolver, na ferida, o ferro.
Um repelão de sangue golfou. Primeiro incerto, depois em torrente.
Em baixo, o alguidar ia-se enchendo e a rapariga no seu vaivém não o deixava coalhar.
A mão do homem estava vermelha.
O porco estava morto.
O homem tirou a faca e limpou-a sem pressa e sem remorsos.
Entretanto, tinha sido o bicho conduzido para a padiola e já de roda se começavam a juntar gavelas de palha para fazer o fogaréu com que o haviam de chamuscar.
Depois de volta ao lume desses improvisados archotes, dois ou três homens começaram a bater-lhe, espancando-o com a chama, que, crestando-lhe a cabelagem, queimando-lhe todo o pelo, o deixou branco como um pano de linho alvo.
Após, chamuscaram-lhe os pés e mãos, arrancando-lhe as unhas, que os rafeiros apanhavam no ar, lambareira, sordidamente.
Mas, a pouco e pouco a animação esmoreceu.
Espectadores e actores debandaram depois de o porco ser pendurado no chambaril.
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«O Concelho», história e etnografia das terras sabugalenses, por Manuel Leal Freire

One Response to A matança do porco

  1. Feliz Manuel Grilo diz:

    Gostei muito deste belo trabalho de Leal Freire. Agradeço.

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