D. Dinis – Bom poeta e mau marido?

Por Terras de D. Dinis - Maria Máxima Vaz - © Capeia Arraiana

Como ficou dito e provado na última crónica, o rei D. Dinis teve, pelo menos, sete filhos naturais. Por essa razão se considera que foi um marido infiel e daí, mau marido. Coloco à consideração dos leitores factos que permitirão julgar se é justo chamar-lhe mau marido. Que não era mau já ficou provado. Que não impedia a rainha de ser caridosa, também. Resta-me tentar compreender o que causou a fama de bom poeta e marido infiel.

Catedral da cidade de Albi - Sul de França - Capeia Arraiana

Catedral da cidade de Albi – Sul de França (foto: D.R.)

Numa visita ao Mosteiro de Odivelas de que fui guia, sempre que eu falava de D. Dinis, ouvia alguém dizer: «Bom poeta e mau marido!» Eu respondia: «Não é verdade. É desconhecimento.» E aleguei sempre as minhas razões.
No fim da visita o senhor que assim falava reconheceu a validade dos meus argumentos e apresentou-se – «Reis Torgal diz-lhe alguma coisa?»«Claro que diz Professor!» – Quem não conhece o Doutor Luís dos Reis Torgal, grande Historiador?!
Pois foi este Professor que me andou a provocar só para me ouvir defender o Rei D. Dinis. Disse-me no fim – «Defendeu-se muito bem!» – E defendi-me com o que vou contar. Com o aval dum grande Historiador tem mais credibilidade.
Em minha opinião, o Rei D. Dinis não foi um mau marido. Em que me fundamento? Na vida, na natureza humana e em factos. Mas para uma análise que se deseja justa, não podemos estar dependentes de ideias feitas nem de preconceitos.

Isabel de Aragão tinha 11 anos quando casou com D. Dinis
Isabel de Aragão nasceu a 4 de Janeiro de 1271. O casamento com o rei D. Dinis celebrou-se no dia 24 de Junho de 1282, tinha ela 11 anos, 5 meses e 20 dias.
A Infanta D. Constança, sua primeira filha nasceu no dia 3 de Janeiro de 1290, tinha a Rainha 19 anos, ia fazê-los no dia seguinte.
No dia 8 de Fevereiro de 1291 teve o segundo filho, o rei D. Afonso IV. Tinha ela 20 anos.
Do casamento ao nascimento do primeiro filho, vão oito anos. Entre o nascimento dos dois filhos houve o intervalo de um ano.
Só temos que reflectir sobre a natureza humana. D. Dinis casou com 20 anos. Alguém já pensou por que razão o casal esteve oito anos sem ter filhos? E por que razão teve dois filhos com o intervalo de apenas um ano? Em minha opinião, D. Dinis teve a delicadeza moral de esperar que a Rainha se tornasse uma mulher adulta para ser mãe. Com o nascimento de D. Constança, ficou provado que não era estéril. No ano seguinte nasceu um filho varão, o herdeiro que os reis sempre esperavam com ansiedade.
Por que não tiveram mais filhos? A rainha não era estéril. O Rei queria certamente mais filhos. Os reis querem sempre muitos filhos, para que haja um sucessor disponível, caso morra o mais velho. Tal como a história prova com outros exemplos, acredito que não foi pelo Rei que o casal Real não teve mais filhos.
Seria pela Rainha? Para termos uma opinião precisamos de conhecer alguma coisa da história da sua família e dos valores morais em que foi criada.

Cátaros expulsos da cidade francesa de Carcassonne - Capeia Arraiana

Cátaros expulsos da cidade francesa de Carcassonne (foto: D.R.)

Os Cátaros
A História diz-nos que o rei Pedro II de Aragão, bisavô da Rainha morreu na batalha de Muret, em defesa dos cátaros, tendo seu filho, Jaime I, ficado prisioneiro de Simão de Monfort e depois entregue aos Templários e criado por eles no castelo de Monzón. Isto implica sabermos quem eram os cátaros.
Os cátaros eram cristãos com valores e ideais que cumpriam com rigor.
As doutrinas cátaras tinham a sua fundamentação no «Sermão da montanha» pregado por Jesus Cristo.
Consideravam-se e eram considerados cristãos, de um cristianismo que seguia o exemplo de Cristo.
Desenvolviam uma vida mística, em comunhão com Deus. A exemplo dos primeiros cristãos, levavam uma vida ascética de alta espiritualidade, vivenciando na prática um cristianismo puro, numa total renúncia a tudo o que era deste mundo, num completo desapego dos bens materiais.
Levavam uma vida simples de castidade e de austeridade e condenavam o prazer físico.
Eram conhecidos como verdadeiros discípulos de Cristo ao serviço da Humanidade e um verdadeiro exemplo de amor ao próximo.
Prestavam tratamentos de saúde e de educação, gratuitamente, e pregavam o amor universal. Auxiliavam a população nas suas necessidades. Não descuravam os compromissos familiares e sociais.
Eram tolerantes com os membros de outros credos: judeus, pagãos, cristãos e muçulmanos.
A doutrina cátara não foi aceite pelo papado pelas seguintes razões:
– Rejeitavam os sacramentos;
– As doutrinas sobre a pobreza e o retorno ao cristianismo primitivo preocupavam Roma;
– Deixaram de pagar o dízimo;
– Não tinham hierarquias.
– A castidade era a suprema virtude individual.
Foram condenados por Inocêncio III no concílio de Latrão em 1215 e aniquilados pela Inquisição e a cruzada (1209-1229) levada a cabo pelo exército de Simão de Monfort.
A inquisição foi mesmo criada para condenar os cátaros, contrariamente ao que vulgarmente se pensa, julgando que foi para condenar os judeus. Já existia desde o século XIII e apenas foi reactivada depois para matar judeus.
Foi a Rainha de França (regente), Branca de Castela, mãe do Rei S. Luís quem deu por finda a perseguição, que foi um autêntico massacre, uma chacina, um genocídio. Como apenas nalguns pontos eram diferentes dos cristãos submissos a Roma, frequentavam as igrejas e conviviam pacificamente. Os comandantes dos exércitos exterminadores, não os distinguiam. Conta-se que perguntaram:
– Como é que saberemos quais os que devemos matar? Ao que um líder religioso terá respondido: «Matem-nos todos e Deus que os escolha!» Muitos cristãos não cátaros foram também mortos.
O último cátaro foi condenado por Bento XII, em 1321. Foi este papa que iniciou a construção do palácio dos Papas em Avinhão. Era portanto, um dos anti-papas.
Não houve na Europa um único rei que se tivesse atrevido a defender os cátaros a não ser o rei de Aragão e havia cátaros em vários países, sendo o maior número na França, predominantemente no Sul, na região e cidade de Albi. O maior massacre aconteceu mesmo dentro da catedral, onde se refugiaram.
Um monarca que corre o risco de enfrentar o papado, certamente acredita que é uma causa justa e sente-se solidário com os valores cátaros. Isabel foi criada na corte de seu avô Jaime I, conhecedor da doutrina e viver dos cátaros.
De Isabel de Aragão dizia o seu avô Jaime que era a mais bela flor de Aragão. Viveu com ele até à morte do rei Jaime e acredito que os valores dos cátaros não tivessem deixado de a influenciar. Reconhecemos a prática destes valores na vida da Rainha Santa quando tratava dos doentes, protegia os pobres, os idosos e as crianças. É conhecido o desejo de ser virgem. Não lhe sendo dado escolher, aceitou, obedientemente, casar com D. Dinis, mas seria vontade sua, seguir a vida monástica.
Eu admito que tenha abordado esta questão com seu marido. Teria admitido dar um herdeiro ao rei e aceitaria ele que depois disso levasse uma vida de castidade como ela desejava? É uma leitura possível, a meu ver. Admitindo que poderia ter sido assim, e o desenrolar dos factos assim permite que pense, poderemos continuar a dizer que D. Dinis foi infiel? E que foi um mau marido? Não estaremos a emitir um juízo errado?
Parece-me provável e até evidente, a influência da moral cátara na educação de Isabel de Aragão.
A biografia da Rainha Santa será a fonte onde se foram buscar os juízos que culpam o rei de infidelidade e o acusam de ser mau, mas a biografia é um escrito apócrifo, de um autor anónimo, possivelmente um frade e não pode ser considerado um documento com rigor histórico. Não devemos aceitá-lo acriticamente.
Além disso, ter filhos naturais, era comum nos reis e mesmo aceite na Corte e na sociedade daquele tempo. D. Afonso Henriques teve sete filhos legítimos e quatro naturais. D. Sancho I teve 11 legítimos e nove naturais. D. Afonso II, cinco legítimos e dois naturais. E foi porque morreu com 39 anos e era leproso. D. Afonso III teve oito legítimos e 10 naturais.
Considerando esta realidade, não temos que estranhar os filhos de D. Dinis. Não bateu nenhum record.
Sem ideias feitas nem preconcebidas, cada um procure uma resposta com lógica, levando em conta a natureza humana, os factos históricos e a mentalidade daquele tempo.
«Por Terras de D. Dinis», crónica de Maria Máxima Vaz

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