D. Dinis – Protegeu pobres e desvalidos do seu Reino

Por Terras de D. Dinis - Maria Máxima Vaz - © Capeia Arraiana

Contrariamente ao que a tradição popular tem vindo a repetir, D. Dinis criou obras de assistência e olhou pelos súbditos mais necessitados. Foi um rei caridoso, como se prova com as instituições que fundou e com as disposições testamentárias que destinam verbas para assistência aos mais humildes.

Claustro do Silêncio no Mosteiro de Alcobaça - Construído por D. Dinis - Capeia Arraiana

Claustro do Silêncio no Mosteiro de Alcobaça – Construído por D. Dinis

Os investigadores têm trazido novos contributos ao nosso conhecimento, sobre a obra de D. Dinis, também neste campo.
São três os testamentos: o primeiro foi feito em 1299, o segundo em 1322 e o terceiro e último, em 1324, um ano antes da sua morte.
Desde o início do seu reinado deu mostras de sentir a obrigação de olhar pelos desvalidos da sorte e da fortuna.
Cinco anos depois de subir ao trono, no ano de 1284, por sua ordem foi fundado o hospital de Santo Elói numas casas que possuía na freguesia de São Bartolomeu em Lisboa e doou-lhe o padroado da mesma igreja dessa freguesia. E nesse mesmo ano assinou a autorização para se fundar o convento de São Domingos de Évora.
Apoiando-nos na palavra do seu biógrafo, ficamos a saber dos seus legados para muitas obras pias e para obras de caridade. Em todos os testamentos são contemplados os pobres e necessitados. Mantém em todos os testamentos o que lhes deixava no primeiro e até aumenta as quantias, nalguns casos.
Considerando que tinha 38 anos à data do primeiro testamento, 60 anos à data do segundo e 63 quando mandou redigir o último, podemos afirmar que foi constante nele, este cuidado em auxiliar os desvalidos.

Claustro do Silêncio no Mosteiro de Alcobaça - Construído por D. Dinis - Capeia Arraiana

Claustro do Silêncio no Mosteiro de Alcobaça – Construído por D. Dinis

Muitos conventos e mosteiros eram casas de caridade e o que lhes destinava era igualmente para os mais pobres que neles se recolhiam.
As quantias em dinheiro para os pobres são significativas:
«2 000 Libras para os leprosos; para vestir os pobres vergonhosos 10 000 libras; 10 000 para casar mulheres pobres; para o Albergue de Criação de Coimbra 200 libras e para o Hospital dos Meninos Enjeitados de Lisboa 300 libras, zelando para que os meninos enjeitados fossem criados com amas; 2 000 libras para albergarias e hospitais e a significativa importância de 20 000 libras para remissão de cativos em África, pelos mouros».
Ainda no campo da caridade é muito revelador o cuidado posto pelo monarca na protecção dada aos gafos de Santarém, indo em pessoa avaliar a qualidade do terreno onde se deveriam instalar, comprando-o pessoalmente em 1302, ou a forma como protegeu os pobres de Lamego. Neste último caso, em 1301 o rei tinha doado ao bispo de Lamego um souto situado no termo da vila, e que estava muito abandonado, com a condição de rezarem duas missas diárias pela alma da rainha D. Teresa que o tinha deixado para os pobres de Lamego. Como entretanto D. Dinis soubesse daquela cláusula, revogou a doação em 1304, nos seguintes termos:
«Quando lho dei não sabia que era dos pobres, porque se soubesse de tal doação como esta não faria. E eu, com o conselho dos letrados achei que tal doação como esta não podia eu fazer sem perigo da minha alma.»

Maria Máxima Vaz no Claustro do Silêncio do Mosteiro de Alcobaça mandado construir D. Dinis - Capeia ArraianaDestaco as maiores quantias: uma de 10 000 libras para os pobres envergonhados. É uma grande demonstração de sensibilidade, além de nos provar que era uma pessoa que se compadecia profundamente com as dificuldades dos seus súbditos. Só um rei de grande bondade se lembraria dos pobres envergonhados e de lhes legar uma tão elevada quantia. Teria, possivelmente, o conhecimento da real dimensão deste problema e não o quis ignorar.
Deixa a mesma quantia para dotar mulheres pobres, a fim de contraírem casamento, numa época em que sem dote, nem as aristocratas se casavam. Foi para as livrar de uma vida de pobreza que fundou o mosteiro de Odivelas. Concedendo-lhe um dote, dava-lhes uma alternativa: podiam casar, caso não fosse de sua vontade entrar num convento ou instituição de caridade.
Também as instituições religiosas e da Igreja foram contempladas no testamento:
Alcobaça receberá 3 000 libras para obras e mais 5 000 para serem celebradas missas por sua alma; S. Dinis de Odivelas 4 000 libras; a todas as Sés catedrais mandava dar 200 libras a cada uma e para os mosteiros de todo o reino, as ofertas oscilam entre as 400 e as 100 libras.
Considero de uma enorme injustiça que se continue a acreditar e, ainda pior, a dizer, que a Rainha escondia as esmolas, querendo com isso provar que o rei não via com agrado esses actos de caridade. 750 anos depois, esta calúnia ainda persiste.
Para enaltecer as virtudes da Rainha Santa Isabel, não é necessário denegrir a imagem do Rei seu marido. A Rainha brilhava com brilho próprio, independentemente do Rei.
A santidade da Rainha não dependeu do rei, mas da educação que recebeu e do seu temperamento. Praticava a caridade, cuidava dos enfermos, dos velhos e dos pobres, é uma verdade reconhecida por todos. Mas o Rei não se opunha às suas obras. Não ministrava por suas próprias mãos os cuidados que a Rainha ministrava, mas fundou hospitais, albergues, casas para recolher crianças abandonadas, distribuía com justiça os dinheiros da Coroa, destinando verbas importantes a quem necessitava.
A obra do Rei D. Dinis no campo da assistência é notável e não a podemos ignorar como tem acontecido até aqui.

Mosteiro de Alcobaça - Capeia Arraiana

Mosteiro de Alcobaça

Não é justo nem é correcto em termos históricos, que não se fale nela, havendo tantos documentos que o comprovam. E se não tivermos acesso a documentos de arquivo, consultemos pelo menos os testamentos, que se encontram em alguns livros impressos. A meu ver, deveria fazer-se uma análise crítica aos três testamentos, acrescida da análise a outros documentos de doações feitas a instituições de caridade, incluindo a maior parte dos conventos. Justifica-se mesmo uma publicação para disso dar conhecimento público.
Teria sido uma forma de comemorar os 750 anos do nascimento deste monarca e pôr um ponto final nesta calúnia indigna.
«Por Terras de D. Dinis», crónica de Maria Máxima Vaz

Deixar uma resposta