Sobre as origens do Forcão

Adérito Tavares - Na Raia da Memória - © Capeia Arraiana (orelha)

Nas Jornadas sobre Tauromaquias Populares a que fiz referência na minha crónica anterior, realizadas no Sabugal em Novembro de 2012, intitulei a minha comunicação «O forcão como elemento identitário da capeia arraiana». De facto, é o forcão que dá verdadeira originalidade às capeias da Raia sabugalense.

Origens do Forcão - Adérito Tavares - Capeia Arraiana Origens do Forcão - Adérito Tavares - Capeia Arraiana Origens do Forcão - Adérito Tavares - Capeia Arraiana
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Qual a origem do forcão? Há quem veja o aparelho como um antiquíssimo instrumento pré-histórico utilizado na caça com armadilhas: serviria para encurralar animais, empurrando-os para precipícios ou, simplesmente para currais previamente preparados. Outra hipótese aponta para uma origem romana do forcão: derivaria de uma estrutura utilizada nos combates entre homens e feras nas arenas dos anfiteatros. Infelizmente, nem a arqueologia nem a arte nos revelam qualquer vestígio que confirme estas teses. Por outro lado, se assim fosse, por que razão esta «arma colectiva» teria sobrevivido apenas na Raia do Sabugal? É verdade que os caçadores-recolectores do Paleolítico faziam caçadas com armadilhas e é também verdade que as primeiras práticas de domesticação de caprinos e ovinos se efectuavam, frequentemente, após o encurralamento desses animais em estado selvagem. Todavia, embora não possamos colocar completamente de parte estas hipóteses, filiar o forcão em instrumentos desse tipo parece-me pouco convincente.
Outros autores consideram que o forcão se inspira numa antiga «máquina de guerra», utilizada para enfrentar e derrubar a cavalaria inimiga. Argumenta-se com o facto de a raia do Sabugal, tal como a de Almeida, ser zona de frequente atravessamento por exércitos inimigos, desde a Guerra da Independência de 1383-85 às guerras da Restauração e às invasões napoleónicas, e que as populações da região se teriam habituado a uma indispensável autodefesa. Vejo com alguma dificuldade o manejamento de um forcão nas apertadas ruelas das aldeias raianas. Em contrapartida, nas pesquisas que efectuei sobre a demografia histórica de Aldeia do Bispo encontrei inegáveis provas de que as gentes das aldeias fronteiriças, à passagem dos exércitos inimigos, preferiram sempre refugiar-se nos pinhais.
Na minha opinião, mais provavelmente o forcão deriva de instrumentos do quotidiano agrícola devidamente adaptados para a função, como o carro de bois ou a grade de arrasto, usada para deslocar cargas muito pesadas, sobretudo pedras. A grade de arrasto era frequentemente utilizada pelos «lavradores» em ocasiões de construção de paredes, palheiros ou casas, para arrastar os pesados blocos de granito com os quais os pedreiros talhariam depois as ombreiras, os lintéis e as escaleiras do balcão (a escada exterior de acesso ao primeiro andar da casa tradicional). Todos os raianos mais velhos nos lembramos ainda dos dias de «carreto», em que os «lavradores», com a sua «junta» de vacas, o carro ou a grade iam ajudar aquele que precisava de transportar pedra, num acto comunitário que um dia esperavam ver retribuído. Note-se a semelhança da grade de arrasto reproduzida numa das fotografias com a estrutura de um forcão. E, do mesmo modo, a semelhança com alguns modelos de carros ou carretas, usados dos dois lados da Raia.
Nas vizinhas aldeias da raia salmantina e cacerenha utilizavam-se, nas capeas, carretas agrícolas e cestos de verga. O cesto era empunhado por um jovem «capeeiro», que o colocava no peito e, amparado e reforçado atrás por mais meia dúzia de companheiros, recebia frontalmente a investida do touro. É admissível que estas práticas tenham influenciado os «capeeiros» da Raia sabugalense, levando-os a construir algo mais resistente que um cesto de verga. (Uma nota pessoal: quando era garoto e rapazote ainda assisti em Navasfrías e em Casillas de Flores, aldeias situadas a escassos quilómetros da fronteira, a capeias em que eram utilizados estes cestos).
Noutras das imagens aqui mostradas, ilustrando capeias espanholas, vemos, em pleno «côrro», carretas com pessoas e a utilização do cesto para enfrentar o animal. Se nos lembrarmos que o contrabando era uma forma «normal» de vida em toda a Raia sabugalense, que os contrabandistas falavam castelhano tão bem ou melhor que o português e que o «contrabando dos costumes» era fácil de fazer, não devemos admirar-nos de as origens das capeias e do forcão se encontrarem tão estreitamente ligadas ao «lado de lá» da Raia.
Finalmente, não podemos excluir ainda outra influência possível na estrutura de um forcão (e até no nome): refiro-me ao forcado (o objecto, não o moço de forcado). Originalmente, os moços de forcado eram os encarregados de guardar e defender a tribuna real. Utilizavam, para isso, um varapau em aguilhada, isto é, bifurcado, com o qual sustinham o touro à distância. Esse instrumento é que era o forcado. Mais tarde, «moço de forcado» passou a ser simplesmente forcado, como hoje dizemos. Se os leitores repararem, forcado (o objecto) e forcão têm origem semântica comum – o latim furca, que significa garfo; e daqui forquilha, ou o francês fourchette. Afinal, um forcão é uma espécie de gigantesca forquilha.
Convido os meus leitores a observar a curiosa fotografia que mostra os oito membros do Grupo de Forcados de Alcochete, nos anos 40, a utilizar simultaneamente os seus forcados contra um touro: na verdade parece que estão a utilizar um pequeno forcão.
«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares

ad.tavares@netcabo.pt

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