Serpa, Moura, Mourão e Noudar – Terras recuperadas

Por Terras de D. Dinis - Maria Máxima Vaz - © Capeia Arraiana

Serpa, Moura, Mourão e Noudar são vilas que foram conquistadas pelo nosso primeiro Rei, D. Afonso Henriques, perdidas posteriormente e retomadas, anos depois, por D. Sancho II. Passaram indevidamente à posse de Castela por escambos que as Ordens Militares fizeram com Afonso X, e voltaram à posse de Portugal no ano de 1295, graças à capacidade diplomática de D. Dinis, quando negociou o acordo na Guarda. Foi esta a única cláusula que o Rei de Castela cumpriu. Tudo o resto que foi ali acordado nesse ano, só com o Tratado de Alcanises é que se veio a cumprir.

Ruínas do Castelo de Monforte, junto ao Rio  Côa no lugar de Bizarril, freguesia de Colmeal, concelho de Figueira de Castelo Rodrigo

Ruínas do Castelo de Monforte, junto ao Rio Côa no lugar de Bizarril,
freguesia de Colmeal, concelho de Figueira de Castelo Rodrigo (foto: D.R.)

Evitarei repetir informações já dadas noutras crónicas, a não ser quando são indispensáveis à compreensão dos leitores.
Antes porém de falar da entrega a Portugal em 1295, parece-me de interesse conhecer como é que estas terras foram parar à posse de Castela, uma vez que não foi por conquista.
As Ordens Militares foram as grandes conquistadoras da maior parte do solo a sul do Tejo e os reis entregavam-lhe as terras para defesa.
Moura e Serpa estavam na posse da Ordem Militar dos Hospitalários. Foram os freires desta Ordem que as trocaram a Afonso X, pelas vilas de Covelas do Douro e de Santa Maria de Castelo de Vega. O superior da ordem era castelhano e dispôs das terras portuguesas como se fossem propriedade da Ordem. Entregou estas e recebeu outras. A Ordem não perdeu, mas perdeu Portugal. Afonso X ficou assim com a posse de Moura e Serpa, bem como dos seus termos.
Esta foi uma das razões que levou o nosso Rei a nacionalizar as Ordens Militares, tornando-as independentes dos Mestres castelhanos.
Em 1283, Afonso X fez doação delas a sua filha a Rainha D. Beatriz, mãe de D. Dinis, que vivia com ele em Sevilha, depois que seu filho Sancho IV lhe tirou o trono.
Quando faleceu Afonso X, o seu sucessor Sancho IV, não confirmou a doação e ficaram na posse da Coroa Castelhana.
D. Dinis pensou em recuperar estas duas povoações e não perdeu a oportunidade que se lhe deparou quando o Infante D. Henrique, tutor do filho menor de Sancho IV, veio à Guarda para obter a sua ajuda, a fim de conseguir a submissão do Infante D. João ao herdeiro do falecido monarca.
D. Dinis dispôs-se a colaborar mas exigiu como contrapartidas, a restituição de todas as terras que eram nossas.
Reunidos em conselho os três interessados, Infante D. João, D. Dinis e Infante D. Henrique, retomaram a questão da herança ao trono de Castela/Leão. As propostas de D. Henrique alteraram o que tinha sido decidido anteriormente por D. João e D. Dinis. D. Henrique, procurando satisfazer os interesses de cada um dos contendores e para evitar uma guerra, em nome do Rei Fernando IV, confirmou a posse da Galiza e da cidade de Leão a D. João; declarou restituir a Portugal Moura, Serpa, Aroche, (não é Arronches), Aracena, Aiamonte e as terras indevidamente ocupadas na fronteira com a Galiza.
Como ficou dito em crónicas anteriores, estas promessas não foram totalmente cumpridas e daí todas as contendas que houve até ao tratado de Alcanises, assunto já aqui tratado.
Houve no entanto uma cláusula que se cumpriu e da qual não dei informação suficiente, pelo que retomo esta matéria.
O Tratado da Guarda foi ratificado em Ciudad Rodrigo a 4 de Outubro de 1295 e logo no dia 20 desse mês e ano, em carta mandada passar em nome do soberano castelhano, se ordenava:
«…D. Fernando, Rei de Castela e Leão, ordeno a vós, Estêvão Peres, meu Adiantado e Alcaide dos Castelos de Moura e de Serpa … que à vista desta carta entregueis esses castelos a João Rodrigues, Porteiro de El Rei de Portugal. E se assim não fizerdes, mando que sofras pena de traição…»
O monarca foi obedecido pelo seu alcaide e as vilas entregues a Portugal. Mourão e Noudar ficavam dentro do termo de Moura, pelo que vieram também à nossa posse nesse mesmo ano de 1295. Todas as outras que estavam previstas no tratado da Guarda, só passaram à soberania portuguesa em 1297, com a assinatura do Tratado de Alcanises.
Queria também dar notícia de Monforte, povoação pertencente a Ribacoa, situada «a uma légua abaixo de Pinhel em uma penha sobre o rio Coa, onde agora se conserva uma ermida de muita romagem da invocação de Nossa Senhora de Monforte», segundo nos diz o Doutor Brandão, acrescentando ainda que o castelo era um dos mais importantes da região, mas que, tal como o de Caria Talaia já não existia.
Terá intrigado os leitores mais atentos, tal como aconteceu comigo, porque não sei da existência de povoação com o nome de Monforte na comarca de Ribacoa e, por essa razão decidi investigar. Acerca deste assunto dá-nos o Doutor Frei Francisco Brandão a seguinte notícia:
«Em Trancoso esteve El Rei a 27 de Outubro (1285), onde confirmou o foral da vila de Nomão. Esta é a que se crê ser a Numância antiga. No ano de 1130, deu foral a seus moradores Fernão Mendes o de Bragança e lhe chama cidade, prova de que tão celebrada fora em outros tempos. «A vós homens da cidade de Nomão, que se chama Monforte…» Limita os termos de Nomão, que são os que vemos junto do rio Douro e Águeda vizinhos. Diz no fim da escritura que reinava então em Leão o rei Afonso VII e que era senhor de Portugal o Infante D. Afonso.»
Infere-se daqui que Nomão passou a chamar-se Monforte. Hoje será a freguesia de Numão, do concelho de Vila Nova de Foz Coa? Não encontro nenhuma povoação chamada Monforte neste concelho nem em qualquer outro das chamadas Terras de Ribacoa.
Há porém informações sobre Nossa Senhora de Monforte e da sua capela, que era próxima do Castelo de Monforte. A primitiva imagem encontra-se na povoação de Bizarril, que pertence à freguesia de Colmeal, no concelho de Figueira de Castelo Rodrigo. Colmeal é hoje «aldeia fantasma», porque os moradores foram desalojados em 1957, por sentença de tribunal. Contudo, mantém-se o nome da freguesia, formada pelas povoações que eram anexas.
A capela da famosa Senhora de Monforte lá está ainda para receber os festeiros no domingo de Pascoela. Como ficou dito acima, nas palavras de Brandão, esta capela era em Monforte.
A meu ver, a povoação de Monforte já não existe, mas teria sido no local onde hoje é Bizarril.
Apelo aos leitores que nos ajudem a solucionar esta questão, se tiverem conhecimento.
«Por Terras de D. Dinis», crónica de Maria Máxima Vaz

Deixar uma resposta