Casteleiro – Quando íamos armar os costis

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

Um dia destes, em conversa de café a 300 e tal quilómetros do Casteleiro, uns amigos recordavam o «tempo em que íamos (eles iam) aos pássaros com as armadilhas e com as ratoeiras». Hoje, deu-me para também lembrar para si os tempos em que nós íamos armar os costis. E vi uma diferença: por aqui, longe das nossas terras, «a Guarda» (a GNR, claro) multava e tirava as armadilhas… Na minha terra, não. Nem sabíamos se era proibido. Vou falar disso já. Mas agora, uma nota de agenda: a edição desta semana do «Serra d’Opa» já está «on line» à sua disposição…

Pardais era o que mais havia

Pardais era o que mais havia (foto: D.R.)

Matar os passaritos com os costis era diversão e necessidade. Sei que me incomoda hoje pensar que nunca pensei que isso era mau para a Natureza. Mas também se matavam e matam os cabritos etc.. Coisa complexa, esta da sobrevivência.

Costil de arame

Costil de arame

Atenção: nós no Casteleiro sempre usámos os costis e nunca aquelas coisas de rede ou tipo gaiolas. Nada disso: costis e mais nada.
E soube agora que era afinal proibido e ainda é. No ‘site’ do Fórum Virtual da GNR pode ler-se uma nota sobre o assunto, já que para ali se verte uma notícia de um jornal sobre a detenção de pessoas por usarem as tais «armadilhas»: pode ler aqui.
Mas vamos então aos costis com que apanhávamos os pássaros.
Pois é: aqui, longe do Casteleiro, eu digo costil e ninguém me entende. Ficam a perguntar com os olhos. Repito:
– Costis. Nós íamos armar os costis para apanhar os passaritos.
Nada. Nem um sinal de entenderem.
Costis de pau

Costis de pau

Eles falam de armadilhas, de ratoeiras e de coisas assim.
Na minha terra, ratoeiras são para apanhar ratos – não será?
Mas a vida hoje não é tão simples assim.
Chego a casa e vai de abrir a «net», aquela senhora que sabe tudo – pensam alguns. Só «sabe» o que alguém lá inseriu, não será?
Pois bem: abro a net, pesquisa do Google e vai de escrever: «costil significado». É assim que se faz para saber o significado de uma palavra.
Julgava que era canja e que apareciam logo dez dicionários com a palavra.
Nada.

Não encontro a palavra
Não quero ser «chato», mas foi uma desilusão este recurso à «net».
Que gente!
Só lá para a 10ª posição é que me apareceu um tal Dicionário Global / Dicionário de Português que me deu razão: «Costil: Armadilha para apanhar pássaros». Embora com um amargo na boca, por considerar pouco para uma palavra que percorre toda a minha infância e juventude, que remédio se não contentar-me com este dicionário global.
É que nem sequer dá para chegar ao café e dizer:
– Eu é que tenho razão: um costil é para apanhar pássaros.
Talvez por falta de confiança no tal dicionário, sei lá.
Até queria dizer que vem do espanhol – porque tem todo o ar disso.
Mas não o afirmo.
Esperem, pensando melhor: peço que me ajudem a descobrir de onde vem e por que caminhos nos chegou a palavra.
Até fico com dor de ouvidos só de pensar que em vez de costil os dicionários me dizem que aquilo se chama costela. Que diabo é isso, então?
Sobre o «costil», Carlos Bento, das Mouriscas diz assim no seu blog, aqui: «Costelas. Armadilha de madeira e rede com que se apanham alguns pássaros com agúdias. / Costil- Armadilha para apanhar pássaros, constituída por um arco de arame, com mola aramada sobre uma tabuínha e um gancho, a que está preso o isco. Ratoeira».
Vá lá!

Ir armar os costis – e mai’ nada!
Paulo Leitão Baptista, há uns tempos, trouxe ao ‘Capeia’, no seu «Léxico de Ribacôa», a palavra em causa (ver aqui): «COSTIL – armadilha de arame para pássaros. Os dicionários chamam-lhe costela e costilha. Aliás, José Pinto Peixoto chama-lhe costilho».
Num comentário nessa mesma peça, eu mesmo escrevi logo o que segue (até parece que estava a adivinhar que um dia teria de escrever esta crónica!): « sobre o termo COSTIL – usamos, melhor, sabemos o que é, mas no Casteleiro quase não se usa no singular: «Vou ali para o olival a armar os costis». Porque ninguém tinha só um: era aos 20 e 30, única forma de garantir uma passarada na brasa ou na frigideira – fosse lá em casa, fosse com a malta, os amigos…».
Que me desculpem todos, mas tenho de insistir: nada de costela, nada de costillho nem de costilha. Nós íamos era armar os costis.
Coitados dos passarinhos – sobretudo os pardais, claro.

Aúdia ou formiga

Aúdia ou formiga

Pardais, sobretudo, mas não só
Depois de escolhidos os locais – normalmente debaixo das árvores – apanhavam-se umas aúdias – é assim que se diz na minha terra (também se diz e escreve agúdeas ou agúdias, conforme as terras, ao que sei).
Armava-se então o costil, escondia-se tudo o que pudesse brilhar (eram de metal) e vai de esperar.
Não era um costil: eram muitos. Cada um tinha uns quantos. E o dono tinha de ficar de alerta. Pássaro apanhado, aúdia substituída, nova armação, novo período de atalaia… e assim por diante.
Apanhavam-se sobretudo pardais. Mas não só: havia outras qualidades de passarada (ver adiante) a até bastantes tordos. E de vez em quando alguém pegava na pressão de ar e apanhava umas rolas – mas isso já era outro ramo!
As fotos para esta peça, quase todas, tive de as «roubar» – no bom sentido que a palavra comporta em tempos de partilha e de redes sócias: pedi-as emprestadas a um quase conterrâneo, «nascido e criado em Louriçal do Campo» (do concelho de Castelo Branco, no limite com o do Fundão). Encontrei essas fotos aqui. É que a passarada e os métodos de caça da miudagem era a mesma: o Louriçal é aqui a 40 km do Casteleiro…

Taralhão

Taralhão

Culinária da passarada
Mas depois de apanhados, os passarinhos eram um problema culinário – antes de se poderem comer exigiam uma série de operações em que as mães, as irmãs mais velhas se as havia, as tias ou mesmo as primas ajudavam de bom grado:
– era preciso antes de mais depenar os bichinhos, Coisa não fácil, porque as penas eram muitas e agarravam-se às mãos;
– era preciso depois estripá-los muito bem (mas mesmo muito bem);
– depois, lavar tudo;
– finalmente, abrí-los ao meio com um corte muito certinho, para se poderem estender na grelha.
Eu propriamente nunca fui grande praticante do ir armar os costis eu mesmo. Mas acompanhava os meus amigos e um tio que não perdia uma.
Mas o que eu não perdia era um desses petiscos.
Fossem assados (grelhados na brasa), fossem fritos. Eram um pitéu.
Até os ossinhos estaladiços se roíam – e eram bem saborosos.
O que havia mais era pardais. Mas também se apanhavam rouxinóis, tintelhões, taralhões e até melros. Havia picanços, tordos, rolas – menos e só no tempo delas (e isso era com chumbo que se apanhava, assim como os pombos). Havia piscos, codornizes, estorninhos e carriças. E havia os pintassilguinhos (dos bonitos e dos feios).
Também havia andorinhas. Mas essas eram um caso especial Às andorinhas não se podia fazer-lhes mal: eram as avezinhas de Nossa Senhora. Quem é que ainda se lembra disso? Mas eram. Ai de nós se matássemos uma. Caía-nos toda a gente em cima.
Nada de muito diferente do resto do País. Mas cada zona tem a sua fauna em matéria de aves. Encontrei um ‘site’ (Aves de Portugal) onde pode ver toda a passarada que há no País. É aqui.

Notas
1 – Registo com agrado e agradeço em nome da minha terra: a «Crónica de fim de Verão», a última, esteve nos cinco mais lidos (sobretudo em 2º e 3º lugares) durante 72 horas. É obra! Obrigado.
2 – Ainda pode aceder a outro noticiário regional: o “Serra d’ Opa” nº 6 já está na linha à sua espera. Basta clicar aqui.

«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

8 Responses to Casteleiro – Quando íamos armar os costis

  1. georgina diz:

    Maravilhosa descrição de coisas que povoam a nossa memória. Admiro a delicadeza de sentimentos ao narrar um facto que, per si, seria “cruel” mas adoçado pela necessidade da sobrevivência e guloseima humana. A forma descritiva utilizada é linda, José Carlos Mendes.

    • José Carlos Mendes diz:

      Obrigado. Foram vivências tão intensas e repetidas que saem cá de dentro com toda a naturalidade, como deve calcular.
      A nossa vantagem é que vivemos tudo isto – por isso a sua descrição nada tem de artificial. é apenas uma conversa com amigos (neste caso, os leitores, meus conterrâneos quase todos).
      É bom saber que há quem aprecia.
      Volte sempre – e, já agora, dê um salto ao “Serra d’ Opa”, aqui:
      http://serradopa.blogspot.pt/
      … E divulgue pelos seus contactos…

  2. JFernandes diz:

    Caro JCMendes
    A descrição reproduz uma vivência rural do século passado, que eu próprio também pratiquei podendo por isso, afirmar que a mesma está rigorosa. Na minha zona, mais a norte do Casteleiro,estas armadilhas chamavam-se “costilhos”.
    Quanto às proibições também na minha zona ninguém multava por essa prática, como também se não multava por pescar à cana.
    Embora os tempos sejam outros, isto demonstra que no mesmo país as regras para determinadas actividades não devem ser iguais. Fazer leis nacionais nem sempre é a melhor forma de regular determinadas actividades. Há situações que apenas localmente devem ser reguladas, de acordo com os usos e costumes das populações.
    Claro está que vai aparecer alguém a defender o contrário.
    JFernandes

  3. José Carlos Mendes diz:

    Caro JF,
    Costil, costilho, costela… cada terra com seu uso / cada roca com seu fuso – como diria a minha mãe.
    Ora o que para mim está em causa (uma irreprimível necessidade intelectual) é descobrir de onde vem e que percurso fez esta palavra costil.
    Investigue, JF, e ajude-me nesta tarefa.
    Um abraço beirão. Ocelense, digamos.

  4. Manuel Carvalho diz:

    Caro José Mendes.
    Esta crónica fez-me lembrar a minha infância em S. Pedro do Sul. Lá o “costil” Chamava-se “costelo” deixo-lhes um link donde se fala dos costelos que presumo que tenham diversas grafias conforme a região do país.
    Um abraço.
    P.S. De Viseu mas ligado pelo casamento a Vila Boa

    http://mouramorta.blogspot.pt/2009/12/armar-aos-costelos.html

  5. José Carlos Mendes diz:

    Caro MC,
    Pelo que vemos, as vivências são idênticas.
    Isso prova algo – julgo.

    Obrigado pelo link.
    Vou divertir-me com esse texto e suas ilustrações – e com outras, provavelmente, no mesmo blog.

    Um abraço para Viseu.
    Mas tb para Vila Boa, claro, na Transcudânia!!

  6. Joaquim Neves de Almeida diz:

    Sr. Mendes
    Costuma-se dizer “cada terra tem seu uso cada roca tem seu fuso”, creio que é um ditado muito antigo. Isto vem a proposito dos costil ou costilhos. No concelho de Santa Comba Dao, de onde sou natural, iamos armar aos passaros com costilhos e costelas; os costilhos eram para os passaros pequenos que logo os matavam; as costelas eram para os passaros maiores, por exemplo melros, que normalmente ficavam vivos e iam para as gaiolas encantando-nos com o seu canto! Também lhe posso dizer que a GNR nunca multou ninguém
    e a verdade é que nos nao sabiamos se era legal!
    As costelas eram uma obra de arte, pois eram feitas com duas vergas de madeira em meia lua que levavam rede apropriada e motadas sobre um tronco trabalhado também em madeira. Sao tempos que nao esquecem porque lembram a nossa juventude mas sao tempos que nao voltam para tras!

    O seu artigo esta muito completo e é por essa razao que estou a dar a minha pequena ajuda.
    Um abraço com votos de boa saude.

  7. Josecarlos Mendes diz:

    Registo e agradeço os contributos.
    Já aprendi mais umas coisas…

    Um abraço e – volte sempre, pf.

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