D. Dinis – A Confraria dos Cavaleiros do Sabugal

Por Terras de D. Dinis - Maria Máxima Vaz - © Capeia Arraiana

«(…) A 15 de Outubro de 1307, fizeram os moradores do Sabugal, terra vizinha aos Reynos de Castella huma instituição para sustentar Cavalaria. (…)» As guerras internas de Castela ocorridas próximo das nossas fronteiras, segundo os cronistas, não teriam sido alheias à fundação desta Confraria dos Cavaleiros do Sabugal.

Confraria dos Cavaleiros do Sabugal - Capeia Arraiana

Recriação história no castelo da Aldeia Medieval de Vilar Maior no concelho do Sabugal

Não corrião as cousas de Castela com tanto sossego, porque El Rey Dom Fernando inquieto com as parcialidades dos grandes daquele Reyno, traçou várias vezes meios com que desuni-los…

Como afirmei numa das crónicas anteriores, já existiam os cavaleiros vilãos que prestavam o serviço militar a cavalo mas o rei D. Dinis renovou e reforçou esse corpo militar tornando-o permanente, e não recrutado apenas em caso de guerra.
Foram sentimentos de solidariedade, mas também razões de defesa, que levaram os moradores a criar esta instituição, destinada a dar ajuda aos donos dos animais quando lhe morria um cavalo. Era obrigatório, para homens abastados, o serviço militar a cavalo e não podiam furtar-se à sua aquisição e manutenção. Sendo certo que era um animal de elevado preço, muitos teriam algumas dificuldades em adquiri-lo e uma ajuda seria sempre bem-vinda.
Esta Confraria respeitava e cumpria as seguintes normas que passo a transcrever da crónica:
«Que os Cavaleiros daquela Vila e seu termo, que tinham cavalos no presente, ou quantia para os poder ter, morrendo a algum deles o cavalo, todos os mais lhe deem uma libra cada um para comprar outro, e comprando-o de menor quantia, que entregue à Confraria o que sobrar, para se conservar no depósito destinado a estes gastos.
Aquele que não pagar para a tal Confraria, seja condenado em cinquenta libras.
Que cada ano se eleja um Mordomo que arrecade o que cada qual há-de pagar para o depósito; o qual Mordomo terá poder executivo para a cobrança deste cabedal contra aqueles que não queiram pagar passados 15 dias depois de morto o cavalo de qualquer dos Confrades.
Não admitiam nesta Confraternidade a nenhum cavaleiro de espada à cinta, excepto Rui Caldelas e Martim Espença, moradores na mesma Vila, ou aos filhos deles, morando no Sabugal.»

Daqui se vê a diferença entre cavaleiros nobres e cavaleiros vilãos. Os dois cavaleiros aqui nomeados são nobres de linhagem e tinham sido armados cavaleiros segundo as regras de Cavalaria, cingindo-lhe a espada a madrinha, no acto religioso onde assumiam um compromisso de honra que decorria numa igreja, depois de uma noite de vigília e oração.
Os cavaleiros vilãos, todos eles e também os desta Confraria, serviam a cavalo, mas dispunham das mesmas armas dos peões e não havia nenhum cerimonial para passarem à condição de cavaleiros. O único acto suficiente e bastante era montarem o seu cavalo.
Porque considera o cronista que a fundação desta Confraria teve a ver com guerras em Castela?
Porque mais uma vez o rei D. Fernando pediu ajuda a D. Dinis, pouco tempo antes de se fundar. Estava a braços com a revolta de alguns nobres que ele tinha atacado com o objectivo de os enfraquecer, os quais responderam em força, defendendo-se valorosamente. Mas nada melhor do que ouvir o cronista:
«No ano presente, de 1307, caiu a sorte a D. João Nunes de Lara, e sobre ele descarregou o poder d’el-rei com maior fúria, cercando-o na Vila de Tordehumos, aonde se dilatou com várias hostilidades de ambas as partes. Sentindo-se El-rei D. Fernando falto de dinheiro para pagar a gente de guerra e receoso das novas imposições e pedidos com que o reino andava molestado, se valeu d´El-Rei D. Dinis seu sogro, que sempre em semelhantes apertos o ajudou. Para este efeito mandou a Portugal a rainha D. Constança sua mulher e a Infanta D. Leonor sua filha representando a El-Rei seu sogro o aperto em que estava e a necessidade que tinha de dinheiro para concluir aquele cerco. Com a vista da filha e neta, teve El-Rei Dom Dinis particular alegria e a Rainha Santa Isabel na mesma forma; no tocante ao socorro que pedia se não declara na Crónica daquele Rey e as nossas não dão notícias disto. O que é verosímil, justificado por todos os mais casos desta qualidade e boa correspondência que El-Rey D. Fernando achou sempre em El-Rey D. Dinis, que daria ele sobrado cabedal na ocasião presente, maiormente sendo a intercessora a Rainha sua filha e a Infanta sua neta, constando-nos também que logo no ano de 1309, acudiu El-Rey para o cerco de Algezira com grosso cabedal…. Entendo que agora também deve ter sido considerável o socorro, não só em dinheiro, senão também em gentes… posto o cerco em Setembro, logo em Portugal houve aprestos e disposições de guerra, não havendo guerra no nosso reino … devia sem falta ser para jornada ao Reino de Castela em favor d´el-Rey D. Fernando … e logo a 15 de Outubro fizeram os moradores do Sabugal uma instituição para sustentar Cavalaria… por ser neste tempo, me parece se originou da necessidade que de presente havia para aquele socorro e para sempre se conservarem com prevenção para qualquer ocorrência.»

Na opinião bem justificada do cronista, a Confraria dos Cavaleiros do Sabugal, provavelmente, deve a sua fundação á necessidade que o Rei D. Dinis teve, de auxiliar o rei de Castela em 1307.
Depois de tanto socorro, apesar da opinião da rainha Maria de Molina em contrário, podemos concluir que, quem fez bom casamento foi o rei de Castela e não a Infanta de Portugal.
«Por Terras de D. Dinis», crónica de Maria Máxima Vaz

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