As capeias

Fernando Lopes - A Quinta Quina - © Capeia Arraiana

Finda a época das capeias pela raia, importa trazer aqui algumas considerações. Fazer uma espécie de balanço. Não uma análise exaustiva, porque, para isso, implicava o assistir a todas as capeias (confesso que não o fiz) e analisa-las uma por uma. Não é esse o propósito desta crónica.

Capeia Arraiana (foto de Francois Miguel Baltazar)

Capeia Arraiana (foto de Francois Miguel Baltazar)

Começo por recordar que a capeia arraiana é hoje Património Cultural Imaterial nacional. E, claro, para que assim fosse houve um trabalho de levantamento deste património e foi apresentado, a quem decide sobre estas coisas, a especificidade da capeia arraiana. Aquilo que foi candidatado e foi aprovado não é o que em algumas aldeias se está a passar. O que prova que, por um lado, as aldeias não estão a respeitar a própria tradição e, por outro que, da parte das autoridades competentes, não se está a exigir o seu cumprimento. Aqui, começo por deixar duas observações, a primeira, louvo a ideia de um calendário das capeias e das garraiadas. A segunda observação, o desdobrável (ou panfleto, como quiserem) publicitando as datas em que se realizam as capeias e garraiadas traz logo um erro de rigor, anuncia-nos encerros e garraiadas e encerros e capeias arraianas. Pergunto: uma capeia arraiana não implica intrinsecamente a realização de encerro, espera ao forcão e desencerro? É que havendo, somente, encerro, espera ao forcão e não havendo desencerro, não há capeia arraiana. A capeia arraiana para o ser, necessita desses momentos como conditio sine quo non. Desta forma, para quê colocarem encerro e capeia arraiana? A capeia arraiana é única, precisamente porque engloba esses momentos ou rituais. Se da parte de quem publicita não há rigor, pode levar a que qualquer espaço onde se espera um touro ao forcão é uma capeia arraiana. E isso não é verdade. Se foi por ignorância, então, a coisa é bem mais grave.
Neste contexto, interessa realmente que cada aldeia e todos em conjunto consigamos fazer uma auto-crítica e verificar se estamos a ir pelo caminho mais certo. As onze aldeias (um número que me parece exagerado) devem exigir-se a realização de capeias arraianas, com todos os seus momentos. Se não o fizerem não devem ostentar a realização de capeia arraiana.
Costuma-se dizer que «os touros são como os melões», que é preciso abri-los para se saber se são bons. Pois bem, com os touros só sabemos se são «bons» depois de estarem na praça. E este é um assunto que importa discutir. A verdade é que a maioria dos touros que chegam às nossas capeias já foram corridos ou são o refugo dos ganaderos. O tema é delicado, mas gostaria de deixar a opinião de que valia a pena uma maior exigência com os touros que apresentamos nas nossas praças. Da mesma forma com os encerros. Pois assistimos aos mesmos touros em quase todos os encerros. Como que numa repetição em que a qualidade vai piorando. Os encerros devem ser sérios. Sei que as mordomias que organizam as capeias tentam fazer o melhor, mas para isso é preciso que todos nós, repito, todos nós, estejamos conscientes da nossa comparticipação e participação. E não isento deste nós as instituições oficiais.
Assim, sem rigor sobre as capeias arraianas e, correndo o risco de me repetir, sobre aquilo que é património nacional, desvalorizando aquilo que é o maior cartaz do concelho, arriscamo-nos a matar a «galinha dos ovos de ouro». As capeias são demasiado importantes para estarem sem lei nem roque.
«A Quinta Quina», crónica de Fernando Lopes

fernandolopus@gmail.com

One Response to As capeias

  1. Francisco Vaz diz:

    Plenamente de acordo, nomeadamente quanto à exigibilidade das 3 fases da capeia (encerro, espera ao forcão e desencerro).
    Se não conseguirmos manter e preservar a tradição, a capeia arraiana tende a desaparecer como tal, dando lugar a mais um espectáculo ou divertimento que nada tem a ver com ela.
    Por vezes, tenho assistido a certas inovações (sevilhanas, supressão dos cavalos no “pedir a praça”, etc.) que, certamente introduzidas com a melhor das intenções, contribuem para “matar” a tradição.
    Não seria de pensar em criar algo, ao nível local, que, sem servir de “polícia”, pudesse contribuir para esclarecer e contribuir para preservar esta tradição?

    F. Vaz

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