D. Dinis – e depois de Alcanises…

Por Terras de D. Dinis - Maria Máxima Vaz - © Capeia Arraiana

O Sabugal foi a terra preferida pelo Rei D. Dinis em toda esta zona de fronteira. Basta lermos os textos dos cronistas para chegarmos a esta conclusão…

Rei D. Dinis e Rainha Santa Isabel - Capeia Arraiana

Rei D. Dinis e Rainha Santa Isabel

«Deu elRey Dom Dinis volta a Portugal concluídas as vistas de Alcanises e foi recebido por todas aquellas Villas das comarcas de Tralosmontes e Riba de Coa com notáveis demonstrações dos povos. Visitou Riba de Coa para animar e favorecer os novos vassalos, e dar vista àquelles castellos que fortificava como tão importantes à fronteira do Reino. Na Villa do Sabugal, residência da Corte, e casa do Infante D. Pedro, e seu filho D. Sancho, senhor daquelas terras, na qual por duas vezes teve vistas elRey Dom Dinis com seu tio Dom Sancho Rey de Castela, estava o nosso Rey a seis de Outubro, onde por honrar a Infanta Dona Brites sua nora, lhe deu carta de arras.» (Doutor Frei Francisco Brandão).

Depois do tratado assinado, havia que fazê-lo cumprir e no Sabugal se manteve até lhe dar cumprimento, o que só estava assegurado no dia em que lhe fossem entregues todas as terras enumeradas no documento de Alcanises.
Depreende-se da transcrição acima, que os castelos do Sabugal, Alfaiates e Vilar Maior estavam já em obras, possivelmente desde 1296, quando entraram na nossa posse, de facto, aquelas terras, embora o reconhecimento se tivesse verificado somente em 12 de Setembro de 1297. Isto mostra-nos como o rei estava determinado a defendê-las e a conservá-las depois que as tomou em 1296.
De realçar a expressão – Visitou Riba de Coa para animar e favorecer os novos vassalos.
Os historiadores vêm constatando que várias medidas tomadas por D. Dinis e registadas em documentos, indiciam o cuidado que tinha com a sua imagem junto dos seus súbditos – um rei que quer ser visto como promovendo o bem-estar do povo. Foi essa a imagem que deu quando publicou a lei da Apelação, quando construíu a muralha da Ribeira de Lisboa, quando desenvolveu a construção naval e organizou a defesa da costa, quando fez concessões na plantação de vinhas e montados e quando desenvolveu as pescas.
A estadia do rei no Sabugal foi de alguns dias, pois ainda aqui permanecia quando mandou tomar posse de S. Fellices de los Gallegos. Daqui se deslocou à cidade da Guarda onde a vinte de Outubro deu foral àquela vila e ainda nesse ano, mandou dar início à construção de um castelo que até hoje ostenta o escudo português, apesar de há muito ser castelhana.
Logo a seguir, quis tomar posse de Campo Maior e Ouguela, as quais nos foram entregues a trinta de Outubro de 1297. Também Olivença passou à posse de Portugal por aqueles dias, desconhecendo-se, por enquanto, o dia exacto. Há um documento do rei de Castela, datado de dezassete de Setembro desse ano, ordenando a sua entrega, dando cumprimento ao tratado.
Durante a estadia da Corte no Sabugal a Infanta D. Brites (ou Beatriz como também se dizia), nora dos Reis de Portugal, com apenas quatro anos, foi regiamente presenteado por seu sogro. Consta de uma carta de doação o seguinte:
«Eu Dom Dinis, pela graça de Deus Rey de Portugal e do Algarve, dou a vós, a Infanta Dona Brites por arras, por cada anno seis mil libras da moeda velha de Portugal…. E dou-vos Évora, … e Villa Viçosa … e Villa Real … e Gaia com Villa Nova. E estas Villas sobreditas vos dou com todos seus direitos e com o senhorio dellas… guardando todavia o meu senhorio…»
Enumera todos os procedimentos que os funcionários régios devem ter para com a Infanta e as normas que ela deverá cumprir em relação a todos – funcionários e habitantes.
E termina esta carta:
«Dada no Sabugal dezasseis dias de Outubro. ElRey o mandou. Francisco Annes o fez. Anno de mil duzentos e noventa e sete.»
Foi selada com o selo de chumbo do rei e encontra-se na Torre do Tombo, Chancelaria de D. Dinis.
Partiu a Corte para Lisboa nos primeiros dias do mês seguinte, encontrando-se a sete de Novembro em Coimbra, o que nos permite ter uma ideia aproximada do tempo que passou em terras de Ribacoa.
No dia 1 de Dezembro estava finalmente na capital, depois de cerca de seis meses de ausência.
Não estava ainda tudo feito. Faltava recompensar o homem que foi o responsável pelas negociações e cuja missão não pode ficar ignorada – João Afonso de Meneses.
Quando os dois soberanos se encontraram em Alcanises já havia muito trabalho feito anteriormente. O sucesso daquele tratado, que implicou tantas cedências, exigiu um grande esforço negocial que não podia ser feito no próprio dia. Tinha que ser preparado com antecedência, mediante orientação e cumprindo ordens do rei. O escolhido para tão melindrosa tarefa foi um nobre, rico-homem de Castela, que se tinha rebelado contra Sancho IV, agora falecido, e se declarou vassalo de D. Dinis, ao serviço de quem se encontrava há vários anos. Pertencia à mais alta nobreza. Não era raro nobres de um país, tornarem-se vassalos de reis de outros países. (Em 1385, o Mestre de Avis pensou tornar-se vassalo do rei de Inglaterra. Quem o impediu foi Álvaro Pais, padrasto do Dr. João das Regras).
«Estando a Corte em Santarém em recompensa dos seus serviços, D. Dinis fê-lo conde e deu-lhe o senhorio da vila de Barcelos com seu termo, por carta passada a 8 de Maio de 1298.
Foi o primeiro conde vitalício com determinado condado, de que há memória. Casou com D. Teresa Sanches, filha bastarda de Sancho IV de Castela.» (Doutor Frei Francisco Brandão).

Este nobre foi o primeiro Conde de Barcelos e foi-lhe dado o condado pelos bons serviços prestados nas negociações preparatórias do Tratado de Alcanises.
Relativamente às memórias da nossa terra, recordo que foi uma filha desta princesa tão bem dotada no Sabugal, que muitos anos depois veio realizar o seu casamento em Alfaiates, com Afonso XI de Castela, seu primo direito, filho de D. Constança, portanto neto de D. Dinis. Era a «formosíssima Maria», como a apelidou Camões nos Lusíadas.
Por alturas deste casamento, mais uma vez voltou a Corte a fixar-se no Sabugal, porque D. Dinis e a Rainha Santa Isabel é que foram os padrinhos de casamento de seus netos, reis de Castela.
«Por Terras de D. Dinis», crónica de Maria Máxima Vaz

4 Responses to D. Dinis – e depois de Alcanises…

  1. Jose Jorge Cameira-beja diz:

    Gostei. Muito bom trabalho. Ao ler, penetrei mentalmente nesses tempos…
    José Jorge Cameira-Beja

  2. António Alves Fernandes diz:

    Gostei. Sou seu leitor assíduo

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