Defesa marítima – «o construtor de naus a haver»

Por Terras de D. Dinis - Maria Máxima Vaz - © Capeia Arraiana

Não bastava a Portugal a defesa terrestre. A pirataria sarracena atacava e assaltava a costa portuguesa, com mais forte incidência no estuário do Tejo, e em particular na capital.

A cidade de Lisboa moura estava protegida pela cerca moura, mas depois da conquista por D. Afonso Henriques, foi crescendo para fora das muralhas, para Oriente e para Ocidente, sempre ao longo do Tejo. Toda esta área nova estava desprotegida e era alvo da cobiça do povo Berbere que subia até junto das costas portuguesas.
Uma rua nova se abriu para poente, do extremo da cerca moura até à base do Monte de São Francisco, no ponto onde hoje começa a Calçada do mesmo nome. Era a Rua Nova dos Mercadores, onde eles se instalavam, fazendo os seus negócios. É a actual Rua do Comércio, onde vão terminar as ruas da Baixa. Ali chegavam as águas do Tejo, dando fácil acesso às embarcações.
D. Dinis mandou levantar a muralha da Ribeira, a fim de proteger os mercadores e os artesãos que estendiam os seus artigos no Largo do Rossio e ao longo da Rua Nova dos Mercadores. Também os cambistas que pesavam a moeda para se conhecer o seu valor real, se aventuravam naquela zona, apesar do risco.
Esta muralha ruiu quando foi do terramoto de 1755.
Mas toda a costa só poderia ser bem defendida com a criação de uma frota naval, e foi isso que o rei fez.
Instalou as «Tercenas» para a construção de barcos, entre a Rua Nova e o Tejo e organizou a marinha.
Nomeou Nuno Fernando Cogominho Almirante dessa frota, no ano de 1307. Foi o primeiro almirante de que há conhecimento na nossa história.
Sucedeu-lhe no cargo, em 1317, o genovês Manuel Pessanha, a quem depois, em documentos muito conhecidos, foram dadas as melhores condições para organizar uma armada militarmente eficaz.
O equipamento das suas galés suscitou tal atenção a D. Dinis, que em Maio de 1320 obteve de João XXII uma bula, que lhe atribuía por três anos o dízimo das rendas eclesiásticas de todo o reino, para obter o necessário financiamento das galés, com o pretexto de fazer guerra aos Mouros.
Chamo à atenção do leitor para esta medida. O rei não tributou o povo. Foi buscar recursos onde menos custos tinham para a população e justificou de uma forma que não lhe puderam recusar o que pedia. Combater o infiel era recomendado pela Igreja.
«Mais do que atacar Marrocos ou Granada, o rei pretendia, evidentemente, combater a pirataria sarracena que assolava as costas portuguesas.» (J. Mattoso).
Evidentemente que fazer guerra aos mouros nunca foi propósito do nosso rei. A guerra com a moirama ficou terminada para Portugal, com D. Afonso III ao conquistar o Algarve. O mar era a nossa fronteira e tínhamos chegado lá.
D. Dinis só queria defender-se, nunca pretendeu ser o agressor. Mas solicitar a bula com esse pretexto, permitiu-lhe obter meios de equipar a frota para a defesa marítima. Causa alguma perplexidade que o papa tenha concedido o dízimo das rendas eclesiásticas e maior perplexidade ainda, que o clero não tenha protestado. Possivelmente, a pirataria moura seria causadora de grandes prejuízos que eram do conhecimento geral e vencê-la seria uma causa nacional e também religiosa, da qual o clero não poderia escusar-se. O rei deve ter calculado as possibilidades de obter esses recursos sem grande oposição. Os fins justificaram os meios e as galés, devidamente equipadas, e bem comandadas, puderam defender a nossa costa, com benefício para todos quantos se dedicavam à actividade comercial e para crescimento da nossa economia.
Do Tejo, frente ao Rossio, partiram os primeiros mercadores em direcção aos mares da Flandres e da Inglaterra. Correram muitos riscos, enfrentaram tempestades e piratas e os frequentes prejuízos daí resultantes, levaram esses mercadores à fundação da Bolsa de Marcadores, que o Rei aprovou e autorizou. O comércio foi próspero ao ponto de se fazer com a Inglaterra um tratado de comércio, no reinado de D. Dinis.
«Por Terras de D. Dinis», crónica de Maria Máxima Vaz

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