A Confraria do Bucho Raiano na Casa Pia (1)

Adérito Tavares - Na Raia da Memória - © Capeia Arraiana (orelha)

Os leitores do «Capeia Arraiana» já tiveram conhecimento da magnífica jornada de intercâmbio gastronómico levada a cabo pela Confraria do Bucho Raiano em colaboração com um dos colégios da Casa Pia de Lisboa, o Centro de Educação e Desenvolvimento D. Maria Pia, onde funciona um Curso de Restauração. Em boa hora isso aconteceu: promoveu-se a região sabugalense, a sua cultura e a sua gastronomia. A presença da Presidente do Conselho Directivo da Casa Pia, Dra. Cristina Fangueiro, da Vice-Presidente da Câmara Municipal do Sabugal, Dra. Delfina Leal, dos dirigentes máximos da Confraria, bem como de outros confrades e conterrâneos sabugalenses contribuiu para dar solenidade e dignidade à sessão. Eu próprio tive oportunidade de conduzir os participantes, através de algumas imagens, «por terras de Riba Côa» e pelos principais pratos da gastronomia tradicional ribacudense.

Banda de música da Real Casa Pia de Lisboa em 1905
Baixo-relevo alegórico da Fundação da Casa Pia, no pedestal da estátua de D. Maria I, existente em frente do Palácio de Queluz. Pina Manique, vestido com a toga de magistrado, apresenta os seus protegidos à Rainha. O escultor é o casapiano João José de Aguiar, que também estudou no Colégio das Belas Artes da Casa Pia em Roma Pina Manique, o fundador da Casa Pia. Gravura de Domingos Sequeira, que estudou no Colégio das Belas Artes que a Casa Pia teve em Roma e pintou também uma grande tela intitulada Alegoria da Fundação da Casa Pia Arquivo Histórico da Casa Pia de Lisboa, no Centro Cultural Casapiano: Livros de Registo das Admissões. Estão preservados estes registos desde a data da fundação (1780)

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A Casa Pia de Lisboa merece ser conhecida pelas boas e não apenas pelas más razões. Infelizmente, porém, devido ao triste «caso da pedofilia», isso raramente acontece. Eis a razão por que me propus levar ao conhecimento dos leitores do «Capeia» um pouco da história da Escola mais antiga de Portugal, com excepção da Universidade de Coimbra. Dividiremos este texto em três partes, para não cansar os caríssimos frequentadores deste espaço.
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A Real Casa Pia de Lisboa (1780-1910)
Um dos principais colaboradores do marquês de Pombal, do qual recebeu óbvias influências, foi Diogo Inácio de Pina Manique, magistrado judicial na cidade de Lisboa.
Já depois do afastamento do marquês de Pombal, no começo do reinado de D. Maria I, Pina Manique foi nomeado Intendente-geral da Polícia, tendo fundado em 1780 a Casa Pia de Lisboa, destinada a recolher crianças pobres e abandonadas que, no rescaldo do grande terramoto de 1755, vagabundeavam por toda a cidade. Pina Manique tinha uma concepção preventiva da acção da Polícia: esta devia, mais que reprimir, prevenir o crime. E a Casa Pia, instalada no Castelo de São Jorge, em edifícios adaptados, viria a tornar-se uma escola precursora do ensino técnico, do ensino artístico e do ensino musical no nosso país.
Plano de Estudos da Casa Pia em 1780Na Casa Pia do Castelo praticou-se um ensino moderno e experimental: o Plano de Estudos e o Regulamento Interno, elaborados por José Anastácio da Cunha, antigo professor da Universidade de Coimbra e matemático ilustre, incluíam Física, Astronomia, Matemática, Farmácia e Línguas Estrangeiras (ensinou-se aqui, pela primeira vez em Portugal, Língua Alemã); eram proibidos os castigos físicos e existia (também pela primeira vez no nosso País), um Conselho Escolar. Os alunos mais dotados eram enviados para a Universidade de Coimbra, onde a Casa Pia tinha um colégio para os alojar. Pina Manique chegou a enviar bolseiros casapianos para Edimburgo e Copenhague para se especializarem em Obstetrícia. E aqueles que se revelavam particularmente dotados para as artes, foram encaminhados para o Colégio de Belas Artes da Casa Pia em Roma, como foram os casos de Domingos Sequeira e Vieira Portuense.
Depois do triunfo dos liberais na guerra civil, em 1834, a Casa Pia receberia novas e mais amplas instalações, no Mosteiro dos Jerónimos, acabado de «nacionalizar», como todos os restantes bens das ordens religiosas masculinas. Em 1836, Passos Manuel, a personalidade mais carismática e activa do governo setembrista, empreendeu uma série de importantes reformas culturais e pedagógicas, incluindo a criação de liceus, escolas técnicas, institutos universitários, teatros, conservatórios, etc. E a Casa Pia também beneficiou deste dinamismo reformista. Sob a direcção do provedor José Ferreira Pinto Basto (o dinâmico industrial fundador da Vista Alegre) reorganizaram-se os «estudos gerais», o equivalente ao actual ensino básico e secundário (primeiras letras, Latim, Grego, Filosofia, Retórica, Matemática, etc.). Prosseguindo uma tradição que vinha já do tempo da Casa Pia do Castelo, foram também criadas aulas de Música (o Conservatório Nacional, dirigido por João Domingos Bomtempo, foi fundado em 1835, tendo funcionado por alguns anos na Casa Pia).
Casa Pia - Na Raia da Memória - Adérito Tavares - Capeia ArraianaA segunda metade do século XIX foi o tempo em que Portugal arrancava, finalmente, para uma tardia e difícil industrialização, sobretudo graças aos governos de Fontes Pereira de Melo. Na Casa Pia, esta época ficou assinalada pelas provedorias de José Maria Eugénio de Almeida (1859-1872) e Francisco Simões Margiochi (1889-1897). É neste período que a Instituição alarga as suas instalações para os terrenos anexos ao Mosteiro dos Jerónimos, cuja cerca, bem maior do que o espaço que actualmente pertencente à Casa Pia, incluía toda a encosta do Restelo. Desenvolvem-se os ensinos artístico, musical, técnico-profissional e agrícola (sendo a Casa Pia igualmente pioneira nesta área). Esse pioneirismo revelou-se também na ginástica e na prática desportiva, que iriam dar excelentes frutos nas primeiras décadas do século seguinte.

(Continua)
«Na Raia da Memória», crónica de Adérito Tavares

ad.tavares@netcabo.pt

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