O Nosso Divino Senhor já está no horto a orar

Manuel Leal Freire - © Capeia Arraiana

«O Nosso Divino Senhor já está no horto a orar» – é com esta jaculatória que o maioral da Confraria dos Solteiros, ou um seu delegado quando ao próprio faleça voz ou conhecimento bíblico, iniciava todas as noites da Quaresma a melopeia dos Martírios do Senhor.

O coro, formado por um grosso magote de rapazes, responde com um sonoroso e tremendo ar, ou seja com as duas últimas letras da antífona.
Levados pelos ventos os ecos daquele fonético ar, o maioral continua terminando a asserção:
Já está considerando na morte que os judeus têm para lhe dar.
E logo o magote atroa céus e terra com outro medonho ar.
Depois, sumariamente evocar-se-ão todos os passos até à Crucificação.
É compromisso levado a sério.
Durante o tempo quaresmal, os moços que tomaram a seu cargo entoar pelas ruas da povoação o cântico dos martírios quase não ceiam sossegadamente.
Na verdade, as últimas colheres do caldo – uma saborosa infusão de couves, batatas e feijões, enriquecida com um fio de azeite – que, por esta época do ano, encerra a última refeição do dia de ganhões e jornaleiros, são sorvidas precipitadamente.
É que, mal se acaba de cerrar a escuridão da noite, o grupo de cantadores começa logo a formar-se junto do campanário da igreja matriz.
Aliás, o canto é precedido de uma breve reza, segundo formula tradicionalmente consagrada, que, com piedosa unção é entoada de joelhos, junto à porta principal do templo.
Depois, os moços dividem-se em dois grupos.
O primeiro entoa o versículo – frase curta que narra um episódio da passagem do Senhor pelas ruas da Amargura.
O segundo, o que na linguagem popular puxa à corda, responde com a jaculatória:
Senhor Deus misericórdia.
Assim se vai dando volta ao povo, doseando o cantochão, para que dados passos sejam lembrados sempre na mesma boca-rua.
A toada da melopeia, triste e arrastada conjugada com a escuridão ou o tom baço do luar e o sibilar do vento ou fustigar da chuva – características quase constantes por estas bandas no ciclo quaresmal – não há Março sem Quaresma, nem Quaresma sem ceeiro – dão ao cortejo um ar lúgubre, quase sinistro.
De dentro das casas, saía, em coro abafado e soturno, a reza do terço em família, que, à mesma hora, se estava fazendo na generalidade das casas.
Por vezes, as raparigas, simulando recados urgentes, vinham à rua, ou então postavam-se à janela ou ao postigo, para contemplar, ou melhor, adivinhar o cortejo, embebecendo-se com a voz dos conversados.
Entretanto o coral dera volta às ruas da procissão, desembocando no adro da igreja, que fora o ponto inicial.
Seguia-se a encomendação das almas.
Mas deste rito nos ocuparemos de outra vez.
Bem como do piedosíssimo contrato espiritual.
…Assoldadamento com Nossa Senhora…
«O Concelho», história e etnografia das terras sabugalenses, por Manuel Leal Freire

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