Sousa Martins – cientista, médico e humanista

Adérito Tavares - Na Raia da Memória - © Capeia Arraiana (orelha)

Na transição do século XIX para o século XX encontramos em Portugal uma notabilíssima plêiade de médicos-cientistas, cuja actuação contribuiu extraordinariamente para o desenvolvimento das ciências biomédicas entre nós. A história da cultura tem dado bastante mais relevo à literatura, às artes plásticas ou à música do que às ciências exactas e humanas. Proponho-me regressar ao convívio dos leitores do «Capeia Arraiana», agora renovado, com um ciclo de crónicas sobre alguns excepcionais homens de ciência, a começar pelo Doutor Sousa Martins, cuja actividade como tisiologista ficaria indelevelmente ligada à cidade da Guarda.

José Tomás de Sousa Martins
Página da Ilustração Portuguesa sobre a inauguração do monumento a Sousa Martins, em 7 de Março de 1904, sete anos apenas depois da morte do ilustre médico Estátua de Sousa Martins, no Campo dos Mártires da Pátria, em Lisboa Junto da sua estátua e do seu túmulo em Alhandra os devotos têm colocado centenas de lápides de agradecimento a Sousa Martins

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Todos conhecemos o entranhado amor que o povo dedica à memória de Sousa Martins, transformado numa espécie de santo cuja «canonização» resultou de um movimento espontâneo e duradouro. Tal como sucedeu com o Padre Cruz ou o Padre Américo, o povo soube distinguir e reconhecer a verdadeira bondade natural e não precisou que os pusessem no altar para iniciar a sua veneração. O culto popular a Sousa Martins começou muito cedo: uma caricatura de Rafael Bordalo Pinheiro feita em 1881, dezasseis anos antes da morte do ilustre clínico, representa-o aureolado, testemunhando assim a sua fama de santidade em vida. Depois da sua morte, em 1897, esse culto acentuou-se e reforçou-se, fazendo-se verdadeiras peregrinações ao seu túmulo no cemitério de Alhandra. Também a estátua levantada por subscrição pública, em sua homenagem, no Campo de Sant’Ana (em frente à antiga Faculdade de Medicina onde ele ensinou) se tornou outro local de culto persistente. Há uns anos, o sociólogo José Machado Pais publicou um estudo exaustivo e fundamentado sobre esta crença popular, cuja consulta recomendamos aos leitores mais interessados(1).
Mas o que justifica esta fama e este carinho popular por um médico? Vejamos algumas notas biográficas de Sousa Martins.
José Tomás de Sousa Martins nasceu em Alhandra, vila operária ribeirinha, terra de avieiros, em 1843, no seio de uma família humilde (o pai era carpinteiro e a mãe doméstica). Tendo ficado órfão de pai aos 7 anos, veio para ajudante de um tio farmacêutico, na Farmácia Ultramarina (que ainda hoje existe, na Rua de S. Paulo, em Lisboa). Foi um brilhante estudante-trabalhador – ia às aulas de manhã, trabalhava de tarde na farmácia e dava explicações à noite. Em 1864 completou o curso de Farmácia na Escola Politécnica e, em 1866, o curso de Medicina na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, com apenas 23 anos. Em 1872 era já lente da Escola Médico-Cirúrgica, onde viria a tornar-se um dos mais conceituados e respeitados professores. Dotado de extraordinários dotes de oratória, com uma palavra fluente e atractiva, tinha uma capacidade inata para captar a atenção e prender os alunos, que «bebiam» avidamente as suas lições e tinham por ele uma verdadeira adoração. Ficaram também célebres as suas palestras e discursos, feitos um pouco por todo o lado, no País e no estrangeiro. Aliás, Sousa Martins participou em inúmeras conferências internacionais, como representante de Portugal, como por exemplo a Conferência Sanitária Internacional de Veneza, onde foi eleito vice-presidente. Os seus trabalhos nos domínios do diagnóstico e tratamento da tuberculose, um verdadeiro flagelo do século, viriam a torná-lo um especialista de renome mundial. Ajudou a criar em Portugal os primeiros sanatórios, como o de Sant’Ana, na Parede, e o da Serra da Estrela, onde ele próprio viria a procurar a cura para a doença que o vitimaria aos 54 anos, em 1897, exactamente a tuberculose pulmonar. Já depois da sua morte, seria construído na cidade da Guarda outro sanatório ao qual foi dado o seu nome.
Sousa Martins exerceu clínica hospitalar e privada. O seu consultório (na Rua de S. Paulo) era procurado pelas elites de todo o País e Sousa Martins fazia-se pagar bem. Mas, qual Robin dos Bosques moderno, cobrava muito aos ricos e nada aos pobres. Uma vez por semana, com uma regularidade exemplar, dava consulta aos desprotegidos. E o consultório, as escadas e até a rua enchiam-se de gente humilde a quem Sousa Martins nunca negava atendimento, remédios e até dinheiro. Num volume com testemunhos de contemporâneos, publicado em 1904 («Sousa Martins – In Memoriam»), diz Maria Amália Vaz de Carvalho: «(…) nunca recusava um doente pobrezinho que a gente lhe impingisse! Visitava-o com a frequência com que visitava os ricos, ou talvez mais; e, quando percebia que em casa não havia dinheiro para aviar as receitas, nem para fazer os caldos, lá deixava em cima do miserável travesseiro com que satisfazer ambas as despesas.»
As incertezas do diagnóstico e da terapêutica compensava-as Sousa Martins com aquilo que podemos chamar «remédio psicológico». Falava carinhosamente com os seus doentes, criando neles ânimo para enfrentar o sofrimento e lutar contra a doença. Camilo Castelo Branco dizia que as drogas que ele lhe receitava pouco lhe faziam mas que o quarto de hora diário de conversa com Sousa Martins era um bálsamo precioso. António José de Almeida, o grande tribuno republicano, futuro Presidente, assistiu um dia à visita que Sousa Martins fazia aos seus doentes da Enfermaria de S. Miguel, no Hospital de S. José, acompanhado de alunos e jovens médicos: «Aproximei-me e vi que o grupo se deslocava, parando junto de outro leito. E assim sucessivamente, até ao fim, se foi Sousa Martins quedando junto de cada doente, carinhoso e suave, observando, discursando, consolando. (…) Fechando aquele ciclo de miséria, observou um pequeno imbecil, que recebeu Sousa Martins em grande festa, batendo as mãos e incendiando o olhar. Parecia efeito dos cuidados do grande mestre, que certamente se condoía das trevas daquele espírito. Chegou-lhe uma tigela de que ele bebeu água (…); aplicou-lhe o seu relógio ao ouvido, para o imbecil ouvir, o que fazia com grande delícia; e acariciou-lhe a grenha, meigamente, como se acaricia uma pequena fera familiar. Terminara a visita… Eu estava maravilhado com a poderosa manifestação intelectual que se tinha desenrolado aos meus olhos, durante duas horas. Parece que vinha de uma celebração e que aquele homem débil, quase raquítico, era um messias amoroso, trazendo nos lábios a narração de verdades ignoradas.»
O talento trouxe-lhe a celebridade e este seu espírito samaritano e humanista granjeou-lhe a fama de santidade. Outro testemunho, do poeta Guerra Junqueiro, sintetiza bem a personalidade deste homem de excepção: “Certas criaturas, com um gesto, uma voz, um olhar, determinam correntes, abalos magnéticos de simpatia ou de heroísmo. Em Sousa Martins houve esse dom de taumaturgo. O dom de levar aos corações o ritmo ardente e juvenil do seu coração prodigioso.”
Sousa Martins dedicou-se à Medicina como se fosse um sacerdote, ou um missionário. Talvez por isso, nunca casou. E morreu precocemente, vítima da mesma doença que tantas vezes combateu, provavelmente contraída à cabeceira de algum dos seus doentes. Depois da sua morte, o mausoléu de Alhandra passou a atrair fluxos de peregrinos vindos de todo o País, sobretudo de regiões piscatórias, como Vila do Conde, Vieira de Leiria, Nazaré, Peniche e Sines, o mesmo se passando com a estátua do Campo de Sant’Ana (hoje Campo dos Mártires da Pátria). J. Machado Pais contabilizou as lápides que foram depositadas por peregrinos nos dois locais do culto popular a Sousa Martins: 603 junto do monumento e 418 junto ao mausoléu do cemitério de Alhandra. Isto para além de ramos de flores, cartões, ex-votos, objectos de cera, etc. Embora a Igreja Católica se dissocie destas práticas (Sousa Martins era maçon), nem por isso o povo humilde deixa de continuar a acreditar nas virtudes e nos poderes do seu «santo». E que mal vem ao mundo que assim seja? É preciso acreditar. Em Deus, nos santos, nos médicos, nos políticos, nos vendedores de milagres, nos fazedores de chuva, na ciência, no dólar. E até mesmo os que se dizem incrédulos acreditam em alguma coisa. Como dizia Santo Agostinho: «Dizes-me que a verdade não existe? Então, existe pelo menos uma verdade, que é a verdade de a verdade não existir. Logo, a verdade existe.» Para os desenganados e os sofredores, a verdade tanto pode estar em Sousa Martins como na Senhora de Fátima, na santa da Ladeira ou no bruxo da Esperança.

(1) José Machado Pais, Sousa Martins e as suas Memórias Sociais – Sociologia de uma Crença Popular, Lisboa, Gradiva, 1994. As citações seguintes, de Maria Amália Vaz de Carvalho, António José de Almeida e Guerra Junqueiro, foram extraídas desta obra.

«Na Raia da Memória», crónica de Adérito Tavares
ad.tavares@netcabo.pt

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