Obrigado, Marcelo Caetano!

Joaquim Martins Tenreira © Capeia Arraiana

«Obrigado, Marcelo Caetano», foi uma das frases que o presidente da Associação Parcours pronunciou no discurso de despedida e de homenagem a João Fatela, em meados de dezembro, nos locais da associação que dirigiu durante um quarto de século, no centro de Paris. É que João Fatela não suportou o clima ditatorial que continuou reinante mesmo após a primavera marcelista e, em junho de 1971, exilou-se em Paris, onde teve de recomeçar uma nova vida.

A sala da associação que João Fatela fundou, designando-a com este emblemático nome de Parcours (Percurso – Caminhada) estava cheia de amigos e de profissionais para assinalarem a sua ida para a reforma.
Já há, portanto, mais de quarenta anos que João Fatela se fixou em Paris. Mas quando este beirão serrano passou clandestinamente a fronteira, ao lado da aldeia mítica de Vilar Formoso, com a ajuda de alguns amigos, levando na bagagem uma vontade firme de frequentar os arcanos do saber das ciências humanas, então quase inexistentes em Portugal, estava certamente longe de sonhar que iria ouvir tantos elogios, no dia em que se estava a comemorar a sua partida para a reforma, na presença de numerosos amigos, companheiros de trabalho e de pesquisa na referida associação e noutras atividades de reflexão e de escrita que João Fatela tem desenvolvido na chamada «Cidade das luzes».
João FatelaSe bem que no tempo em que ele e eu frequentámos os Seminários do Fundão e da Guarda, já era notória a sua capacidade de formular diagnósticos certeiros sobre a conturbada realidade em que vivíamos, não admira que noutras paragens ele a tenha aperfeiçoado com a ajuda de outros saberes adquiridos nas prestigiadas universidades de Paris.
A psicologia e posteriormente a antropologia forneceram-lhe as bases para se lançar na vida profissional. São numerosos os ensaios, intervenções e artigos que escreveu, divulgados em França e em Portugal.
As qualidades humanas que na juventude adquiriu naquelas instituições beirãs, predispondo-o para um apurado sentido de escuta dos outros, forneceram-lhe um bom terreno para se lançar numa trajetória profissional de que os franceses se orgulham, e que não deixaram de agradecer e elogiar nesta e noutras ocasiões.
Numa época em que a sociedade não sabia muito bem como dar resposta aos jovens marginalizados, sem rumo e colados a comportamentos inquietantes, João Fatela teve uma intuição original e criativa ao fundar a Associação Parcours, em meados dos anos oitenta. Não foram infrutíferas as deambulações com o seu professor e grande mestre Michel de Certeau para configurar a estrutura da futura associação que germinava já há algum tempo no seu pensamento e que poderia resumir-se da seguinte maneira: como passar da estigmatização dos jovens marginais e toxicodependentes para uma prática de apoio psico-social-educativo, em que a dimensão da escuta psicológica personalizada significa que o jovem com dificuldades é colocado no centro de uma caminhada (parcours) de inserção social e profissional?
Esta démarche inovadora e visionária considera a pessoa como ator e motor do seu próprio percurso, tendo em conta o aspecto global e não apenas os sintomas.
A inserção do jovem é pensada como um percurso que deverá basear-se na compreensão de si próprio e na procura da inserção socioprofissional, a fim de adquirir uma larga autonomia. Os diferentes profissionais da associação facilitam, assim, ao jovem uma escuta personalizada, com encontros regulares destinados a ouvir as dificuldades e os sofrimentos com os quais se defronta, resolver as angústias e traumatismos e ajudar a canalizar as roturas.
Na associação existem diversos ateliers, tais como, fotografia, ginástica, carpintaria, informática, etc. O objetivo destes cursos não é propriamente obter uma formação profissional, mas antes dar ao jovem a possibilidade de poder fazer um trabalho de estima de si próprio e de valorização das suas capacidades muitas vezes ignoradas ou incompreendidas. Terminada esta fase, a associação ajuda e orienta o jovem na inserção profissional, através da obtenção de estágios nas empresas que, com conhecimento de causa, lhes concedem um trabalho remunerado, dando-lhes assim uma chance para poderem voar para outros céus.
Desta maneira, o jovem descobre o valor terapêutico através do seu próprio percurso de inserção, faz a experiência de sair da espiral dos repetidos insucessos e, pouco a pouco, adquire autonomia.
Compreendem-se melhor agora as palavras que o presidente da associação dirigiu ao diretor da Parcours, João Fatela, na hora da despedida. É que esta associação, que felizmente não vai fechar, era uma referência inovadora no apoio a jovens marginais, na cidade de Paris, e, por isso, os poderes públicos nunca hesitaram em subsidiá-la.
João Fatela foi um dos portugueses que fora do seu país deixaram obra de reconhecimento público e que contribuíram, sem dúvida, para tornar este mundo melhor.
Então, bom vento, João, para outras aventuras!
Joaquim Tenreira Martins

One Response to Obrigado, Marcelo Caetano!

  1. César Pires Nabais Durão diz:

    Grande contributo por termos conhecimento de Grandes pesronalidades pela grande personalidade,pelos seus comportamentos sociais e humanas. Com muita estima

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