Sexto aniversário do Capeia Arraiana

Parabéns ao «Capeia Arraiana» e aos seus mentores, José Carlos Lages e Paulo Leitão Batista! O «Capeia» dinamizou extraordinariamente a comunidade arraiana, transformando-se numa tribuna de divulgação e de defesa da cultura local. E, quanto mais não fosse, incentivou à leitura, ao debate e à reflexão crítica.

Leitura em papel e online

Leitura e literacia, como se sabe, são conceitos distintos. Literacia implica compreensão daquilo que se lê e, sobretudo, aplicação das capacidades e competências adquiridas em novas situações: interpretar uma notícia de jornal, consultar um horário de comboios, preencher uma declaração de impostos, etc. E, neste domínio, apesar da alfabetização crescente da população portuguesa, a cultura incipiente da maioria conduz à iliteracia.
Alguns estudos recentes revelam «que se lê mais em Portugal» mas terão que nos esclarecer sobre «o que se lê». Claro que não é a mesma coisa ler jornais desportivos ou ler os grandes diários ou semanários de referência; ler revistas cor-de-rosa ou ler poesia e ficção. A verdade é que a grande maioria dos portugueses não compra habitualmente livros e jornais. As causas são de natureza económica e/ou cultural. Muita gente não gasta dinheiro com a leitura porque ele não chega para satisfazer as necessidades básicas do quotidiano. Noutros casos, a vida é de tal modo trabalhosa e absorvente que pouco ou nenhum tempo resta para a leitura. Mas mesmo muitos dos que têm algum poder de compra também não compram livros porque não têm motivações de natureza cultural: não lhes foram incutidas na infância ou na juventude e as solicitações da vida moderna são numerosas e muito fortes. Como é o caso da televisão, que se consome sem esforço (daí o sucesso dos programas sem legendas, como as telenovelas, os concursos e os «talk-shows», com tanto mais sucesso quanto menos obriguem a pensar).
E, já que falamos de televisão, repare-se noutro fenómeno paralelo: os livros ultimamente mais vendidos em Portugal foram escritos por «gente da televisão»; quem aparece regularmente no pequeno ecrã, escreva sobre o que escrever, «vende».
Claro que esta é uma análise rápida e superficial do problema, sem qualquer base científica de natureza sociológica. É a visão imediata resultante do senso comum. Os sociólogos terão outras explicações para a realidade preocupante de iliteracia e da incultura na sociedade portuguesa. O poeta João de Deus dizia que nenhuma revolução se ganharia se não começasse pelo a e i o u. E, coerente com esta afirmação, elaborou a sua Cartilha, por onde inúmeras gerações de portugueses aprenderam a ler. Só que hoje já não basta saber ler, é preciso ler. Mais do que possuir competências, é preciso aplicá-las.
Fala-se de crise no sistema de ensino desde que existem escolas. A irreverência e a inquietude dos jovens, a sua proverbial oposição ao status, o enfrentamento das gerações, tudo é natural e saudável. A maioria das crianças e dos jovens percorrem a idade da inquietação sem grandes sobressaltos, sem problemas de maior. Sou optimista quanto à capacidade das novas gerações para aprender. Se não sabem o que se sabia há 40 anos (os rios e os seus afluentes, as vias férreas, as serras, os cognomes dos reis…) sabem outras coisas. E, principalmente, muitos dos nossos jovens dispõem de outra utensilagem mental.
Os problemas mais graves da sociedade portuguesa contemporânea são de natureza económica e social: a crise que atravessamos reflecte-se da família e na Escola, que são espelhos da sociedade. Nem outra coisa seria de esperar. Mesmo os problemas de indisciplina e de violência na Escola têm na sua origem, quase sempre, causas de natureza social e/ou familiar. A sociedade tem que proteger cada vez mais a maternidade/paternidade, apostar no ensino pré-escolar, na formação de docentes e de pessoal não-docente, criar unidades escolares de média dimensão em vez de escolas gigantescas e ingovernáveis, equipá-las com meios técnicos e laboratórios científicos, desenvolver actividades para-escolares que atraiam as crianças e os jovens (informática, fotografia, instrumentos musicais, coleccionismo, desporto, etc.). Tudo o resto virá por acréscimo. E a leitura também. Incluindo a leitura online – de blogues como este, por exemplo.
«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares

ad.tavares@netcabo.pt

One Response to Sexto aniversário do Capeia Arraiana

  1. António Emídio diz:

    Senhor Doutor:

    O pouco que se lê não é o mais recomendável, lê-se o que os grandes consórcios da cultura e da industria estabelecem, o que eles impõem no mercado através da publicidade e da sua influência nos meios de comunicação de massas. Não é de admirar que os senhores da televisão sejam os que mais vendem. Cada escritor tem um padrinho, sem ele não vai a lado nenhum!

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