Saltos acrobáticos nas Capeias

Paulo Leitão Batista tem sido um atentíssimo «repórter» das capeias que neste Verão decorreram na Raia sabugalense. Nós, os leitores do blogue «Capeia Arraiana», estamos-lhe todos muito gratos por isso, sobretudo aqueles que, como eu, não puderam assistir ao vivo.

Salto ritual do touro. Pintura a fresco, Palácio de Cnossos, Creta, c. 1450-1500 a.C.
Salto numa corrida landesa. Sul de França, 2010 Salto mortal por um recortador. Navarra, Espanha, 2011 Salto-de-anjo numa corrida landesa. Sul de França, 2011

(Passe o cursor nas imagens para ver a legenda e clique para ampliar.)

Adérito Tavares - Na Raia da MemóriaA propósito do texto de Paulo Leitão Batista intitulado «Os malabarismos das capeias» peço-lhe licença para acrescentar algumas «notas» antropológicas e históricas.
Na verdade, estes saltos acrobáticos remontam a uma tradição antiquíssima. Muito provavelmente, aqueles que, de forma tão ágil e corajosa os praticam nas nossas capeias, fazem-no tão espontaneamente que nem lhes passa pela cabeça que, na ilha de Creta, há cerca de 3500 anos, outros como eles faziam o salto mortal por cima de touros sagrados. Numa das fotografias aqui reproduzidas podemos ver um fresco do Palácio de Cnossos que nos mostra três momentos de um salto acrobático ritual. Os cretenses da época minóica veneravam o touro como símbolo da fertilidade e estas “acrobacias taurinas” efectuavam-se no âmbito de cerimónias religiosas. Muito provavelmente foram estas práticas que deram origem ao mito do minotauro.
Mas o curioso é que este ritual permaneceu na memória popular dos povos da orla mediterrânica e ainda hoje persiste: no sul de França efectuam-se as chamadas «corridas landesas» (courses landaises), nas quais jovens como o Frank ou o Balhé saltam por cima de vacas bravas ou dos pequenos touros da Camargue, conforme podemos ver nas fotografias. Também em várias regiões de Espanha encontramos uma prática semelhante, chamada «recorte»: rapazes destemidos e fisicamente bem preparados, chamados “recortadores”, saltam por cima de touros bravos, neste caso animais encorpados e poderosos.
As capeias arraianas sempre tiveram este segundo momento: depois do forcão «corria-se» o touro, com ou sem acrobacias. É sobretudo a pensar nesta segunda parte que Joaquim Manuel Correia chama «folguedo» à capeia. Ainda bem que estes rapazes, muitos deles «franceses-arraianos», alegram as capeias com a sua agilidade. Cabe-nos aplaudi-los.
Lembro-me bem de alguns dos mais «leves» rapazes de Aldeia do Bispo fazerem saltos espantosos, tanto por cima dos bois como para cima das calampeiras. Quando eu era garoto, dizia-se que o mais «leve» de todos era o António da Ti Claudina, também conhecido por António das Meninas: com as suas calças de pana metidas dentro das meias e as suas alpergatas espanholas, foi durante muitos anos um verdadeiro «líder» das capeias de Aldeia do Bispo. Morreu há pouco, com 93 anos. Merece descansar em paz e que a terra lhe seja leve.
«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares

ad.tavares@netcabo.pt

4 Responses to Saltos acrobáticos nas Capeias

  1. Caro amigo Adérito

    Obrigado por mais este belo, elucidativo e cultural texto histórico.

    Magister dixit, é o único comentário que me ocorre.

    Um grande abraço

    José Valente

  2. João Valente diz:

    Boa achega, prof. Adérito! isto tudo porque a nossa capeia, que desgraçadamente tiveram a infelicidade de baptizar assim, tem a ver com os ritos e festivais dionisiacos da fertilidade em que Dionísio era representado sob a forma de touro.. Por alguma razão o povo chamava a esta tourada “folguêdo”… é que ele, na sua ignorância sabe mais que muitos “eruditos”.

  3. Manuel Luis Nunes diz:

    Caro amigo e conterrâneo Adérito.

    Também eu, apesar de alguns anos mais novo, me recordo do ti António das Meninas de ser um dos “homens mais leves” de Aldeia do Bispo. Era da geração do meu falecido pai e de outros “vultos” , também já falecidos, da arte de “lidar os touros”, tais como o Manuel Luís Pastora, Manel Fogeiro, Gregório e Domingos ” Patrão” e tantos outros das décadas de 50 ,60 e 70 . Ou de outros mais novos como o Ismael Pastora, “Tó Vermelho”, os filhos do ti Àlvaro Mariano, “Santiagos” e outros cujos nomes recordo , mas que me é quase impossível referir sob pena de omitir alguém que mereceria ser referido e de outros mais recentes e cujos nomes omito por opção, etc… Foi um dos grandes pilares das capeias de Aldeia do Bispo nas “corridas ” dos touros a par de outros “jovens” na nossa terra na arte de ” pegar ao forcão” Lembro-me que, era dos poucos (2 ou 3) que pegavam no meio do forcão, como pode ser constatado e visto em fotografias das décadas de 60/70 do século passado.
    Faleceu em Janeiro deste ano com a “bonita ” idade de 93 anos. Há vários anos as artroses e múltiplos lesões que o atormentaram nunca o impediam de incentivar os jovens na manutenção da tradição.
    No dia 13 de Agosto, dia da capeia de Aldeia do Bispo, lamentavelmente, nem um minuto de silêncio foi guardado, em sua homenagem, a par de outro ícone das capeias arraianas, o ti Manel José “Tamborleiro”. para além de outros que mereceriam igual tratamento.
    Digo, apenas que eu ainda tentei, junto dos mordomos, mordomas e restante elementos da organização mas o meu pedido “caíu em saco roto”.
    São os sinais dos tempos modernos!….
    Apenas alerto que, nessa altura, os touros eram “corridos em pontas” e vinham todos a pé no encerro. Nada de transporte em camião!
    Sempre me pautei por valores e a memória nunca terá limites!

    • Adérito Tavares diz:

      Ao meu velho amigo e fiel leitor deste blogue, Prof. José Marques Valente, obrigado por mais estas palavras de apreço.
      Ao ilustre companheiro de escrita neste espaço, Dr. João Valente, obrigado pelos seus sempre oportunos comentários.
      Ao caríssimo conterrâneo e parente Dr. Manuel Luís (Diogo), obrigado também pela sua achega acerca dos grandes “capeeiros” de Aldeia do Bispo. Aplaudo e subscrevo inteiramente as suas palavras “in memoriam” do Ti António das Meninas e do Ti Manel Zé Tamborleiro.
      Adérito Tavares

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