Capeia – Um fenómeno comunitário

Fernando Lopes - A Quinta Quina - © Capeia Arraiana

Sempre considerei que a capeia era a actividade que envolvia toda a comunidade, directa ou indirectamente. A capeia arraiana tem sido contada, estudada, fotografada, filmada, noticiada… mas penso que sempre faltou um estudo centrado numa perspectiva mais sociológica e até antropológica. Obviamente, que não pretende esta crónica sê-lo! Mas, aproveito este início de época das capeias, agora que a capeia é património nacional cultural imaterial, para analisar o anúncio que a inventaria.


O documento apresenta as razões que levaram a comissão a considerar a capeia património. E neles, estão alguns aspectos que sustentam a minha ideia. A primeira é que ela é «identitária e de ancoragem territorial». Identitária porque identifica, não só os que são das aldeias onde se realizam mas, também, os de todo o concelho. Territorial porque, sendo de uma parte, ela é regional, enquanto concelho. É esta identidade e identificação com a capeia que, praticamente, nos torna gente com uma matriz social e cultural única. Mas importa verificar que, o anuncio, aponta dois pontos que me parecem os mais relevantes, «a produção e reprodução efectivas que caracterizam esta manifestação do património cultural na actualidade, devendo ser salientado o papel de mobilização social e de reforço identitário que esta prática cultural desempenha no interior da respectiva comunidade» e «a efectiva transmissão intergeracional desta manifestação». Relevantes, porque a capeia é um fenómeno aglutinador e dinamizador. A realização da capeia é um trabalho que envolve toda a comunidade. É verdade que são responsáveis os mordomos (e não serão estes mordomos os herdeiros daqueles, que as cartas de foral autorizavam os «vizinhos» (habitantes) dos concelhos a escolher como recolectores de impostos(?!), mas no momento em que são nomeados, toda a comunidade o é. È preciso escolher os touros, fechar a praça, tapar os caminhos do encerro, andar com o rol, cortar e fazer o forcão… todo este trabalho é feito pela comunidade, por todos. E reparem que, mesmo o esperar o touro e afoliá-lo é uma actividade que envolve todos. A capeia é, efectivamente, um polo de mobilização social. Junta todos e, aqui, não só os da comunidade que a organiza, mas toda um região.
O outro ponto que me parece relevante, é o facto de a capeia ainda ser um fenómeno de transmissão intergeracional. Numa altura em que, por motivos que aqui agora não importa desenvolver, os saberes, os sabores e, portanto, muitas tradições se perdem porque não têm um veículo de transmissão às gerações seguintes, a capeia, ainda, repito, ainda, é uma tradição que se vai transmitindo às gerações futuras. E aqui, reforço, porque ela é uma tradição identitária e que não pertence a nenhuma elite, a nenhum grupo, mas porque é de todos.
Ora, o facto de a capeia ter sido considerada património cultural imaterial nacional, não representa um prémio, no sentido de nos terem dado um rebuçado, mas representa um acrescentar de responsabilidade. Já não é só nossa, partilhamo-la com todo o país. Contudo, é a nós, arraianos dessas aldeias, e sabugalenses, que compete a tarefa de a preservar, manter, divulgar e, essencialmente, transmiti-la às gerações futuras. È esta a principal tarefa e ninguém se pode excluir, porque seria negar a sua própria identidade.
Oxalá saibamos ser dignos da consideração com que nos distinguem a herança que recebemos.
Ó forcão rapazes!

P.S. Desejo a todos uma santa e óptima Páscoa.
«A Quinta Quina», crónica de Fernando Lopes

6 Responses to Capeia – Um fenómeno comunitário

  1. kim tomé diz:

    Na verdade existe um livro que contém o que pensa ainda não ter sido feito.
    Se não conhece, e penso que deve ser o caso, aconselho vivamente a leitura do livro “O FORCÃO” de que sou coautor com o Senhor vitor Cabanas onde é apresentado um texto que considero de grande qualidade, que apresenta a Capeia Arraiana sobre os seus mais diversos aspectos, históricos, antropológicos e sociológicos.
    De facto a Capeia Arraiana é um acontecimento cultural único no mundo, que tem raizes profundas na história da humanidade no que ao culto do touro diz respeito, tendo na nossa região adoptado caracteristicas muito peculiares, daí que eu tenha sugerido a sua classificação como património da humanidade. Tendo sido a primeira pessoa a fazê-lo.
    Mas também por isso, e não só, me dediquei anos, a retratar os mais diversos aspectos desta manifestação cultural.
    Veja as fotos que estão no livro mas acima de tudo, leia o excelente texto que o Senhor Vitor Cabanas escreveu.
    Acredito que vai gostar. 🙂

  2. fernando lopes diz:

    Kim Tomé, conheço todos os títulos publicados sobre o forcão e a capeia arraiana, e continuo a pensar que esse estudo ainda não foi feito. Sobre esse título, “O Forcão”, concordo consigo em que as fotos são fantásticas (os meus parabéns para si) e o texto é excelente, mas a visão à qual me refiro ainda não foi feita.
    Quero agradecer-lhe o comentário, o interesse e consideração.
    Um abraço e boa Páscoa.

    • FERNANDO LOPES justifica, sabia, suscinta e profundamente, a patrimoniedade da CAPEIA RAIANA.
      Geograficamente local;
      Temporalmente perene;
      Socialmente sem barreiras.
      Sob o primeiro aspecto, é privativa da orla raiana do Concelho.
      Quanto ao segundo, o deus Cronos, despota entre os despotas, que consome toda a sua sequência, do segundo ao milenio, passa-lhe indemnde.
      Relativamente ao terceiro, o sabugalense da linha de fronteira, rico, remediado ou mesmo pobre, doutorado, medianamente culto ou analfabeto, monárquico integralista ou marxista de franjq, vive a capeia com a mesma unção e intensidade.

    • Joao Valente diz:

      o estudo da envolvente social e etnográfica, tainda em de ser feito. Concordo!

    • Dantas diz:

      Na sequência dos vossos comentários, gostaria de contribuir com um trabalho de seminário (no próximo ano 2013) sobre as Capeias Raianas e o desenvolvimento do Concelho. Assim pedia a todos, se podiam facilitar informação (estatística, leitura, net…) que fosse relevante para um trabalho de final de licenciatura em Geografia pelo IGOT – Universidade de Lisboa.
      Informo que moro em Lisboa e a minha esposa é de Alfaiates.
      Segue o meu email: rdantas63@gmail.com Tm. 919507640
      Muito obrigado.

  3. Joao Valente diz:

    Sim… é uma responsabilidade acrecida!

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