A geração que nada sabe sobre os animais

Nos dias de hoje a generalidade das pessoas não lidam habitualmente com animais, tirando as que, de capricho, detêm em casa cães e gatos, que cuidam como se de seres humanos se tratassem, atentando contra os seus direitos.

Ventura ReisVem daqui que a maior parte dos jovens de agora nada sabe sobre animais. E digo isto porque há tempos, ao assistir à transmissão televisiva de uma tourada à portuguesa, em que uma pobre vaca de cabresto caiu extenuada, vi um moço de forcados esforçar-se por ajudar o animal a levantar-se puxando-lhe pelo colar e erguendo-lhe a cabeça. O rapaz, ao ser moço forcado deveria perceber algo mais sobre animais, mas sucede que nada entendia porque estará afastado da vida do campo. É forcado por mero gosto pelos actos de valentia, sendo ao mesmo tempo um ignorante acerca da vida dos animais que enfrenta corajosamente.
Pois no meu tempo de garoto recebi na instrução escolar, como os demais condiscípulos, os ensinamentos básicos para lidar com os animais, em complemento portanto ao que se aprendia nos livros escolares. E esses ensinamentos foram-nos muito úteis, pois na maior parte éramos filhos de lavradores.
Rezava assim a cartilha do professor Frederico, de Vila Boa, que ainda hoje guardo numa gaveta entre outros papéis antigos:
«Animais caídos na via pública – instruções.
Quando qualquer animal caia na via pública e se não levante imediatamente por cansaço deve dar-se algum tempo para que descanse e recobre as forças. Se mesmo assim não se conseguir erguer, deverá ser auxiliado.
Tratando-se de animal bovino, tenha-se em atenção que para se levantar o mesmo eleva primeiro a parte detrás do corpo e membros posteriores e, só depois, os membros anteriores e a parte de diante, de modo que, por esse facto, o auxílio a prestar para o levantar consiste unicamente em segurar a cauda e elevá-la ao mesmo tempo que a garupa.
Tratando-se de animal solípede (cavalo, burro ou muar), tenha-se em atenção que quando se levanta eleva primeiramente a cabeça e o pescoço, para estender para a frente os membros anteriores e levar a parte de diante do corpo, depois do que eleva a parte de trás e endireita os membros posteriores. Assim sendo, o auxilio a prestar a um solípede para se empinar deve ser levantar-lhe a cabeça e o pescoço e estender-lhe, se caso for, os membros anteriores para diante, animando-o com a voz a fazer o movimento. Caso o animal continue a não conseguir levantar-se, então passa-se por debaixo do cilhadouro um pano ou uma tábua e, ao mesmo tempo que se levanta a cabeça, ergue-se suavemente o peito do animal.»
Nas nossas aldeias do interior já pouco se vêem os animais de tiro, que antigamente existiam para ajudar as pessoas nos trabalhos agrícolas, nos transportes de mercadorias e noutras tarefas. A modernidade afastou as pessoas do campo e atirou-as para a cidade, fazendo com que as gerações posteriores nada percebam da vida do campo e do modo como se devem tratar dos animais.
«Tornadoiro», crónica de Ventura Reis

2 Responses to A geração que nada sabe sobre os animais

  1. ACHO MUITO EDUCATIVO O FACTO DE EXPL.ICAR COMOS E DEVE TRATAR ESSES ANIMAIS QUE REFERE , MAS PARECE-ME MUITO SUPERFLUO DIZER QUE ” DETÊM ANIMAIS DOMESTICOS(CAES E GATOS ) POR CAPRICHO ATENTANDO CONTRA OS SEUS DIREITOS”!!!SOBRETUDO PORQUE NAO ARGUMENTA NADA A ESSE RESPEITO …APENAS O DIZ IRONICAMENTE E PARECE NAO ADMITIR OUTRAS OPINIOES COMO SE DE UMA CERTEZA ABSOLUTA SE TRATASSE….ESTA CLARO QUE A FORMA DE TRATAR OS MESMOS ANIMAIS NO CAMPO OU NA CIDADE NAO PODERA SER A MESMA …COMO TAMBEM NAO É A DE TRATAR UMA< CRIAÇA E ISSO NAO QUER DIZER QUE SÓ A FORMA DE AGIR "NO CAMPO" É A CORRECTA ….. NAO GOSTEI ….

  2. joao valente diz:

    Kant dizia que um velho que só pensa que o passado é que é bom, é um “lunático”…

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