Os nefandos maus-tratos a animais

Havia antanho muita sensibilidade para com os animais nossos amigos, que eram verdadeiramente bem tratados e protegidos dos perigos a que estavam sujeitos, ao avesso do que hoje sucede, em que maltratam os animais sem dó nem piedade.

Ventura ReisO maior maldade que fazem aos animais acontece com os cães e gatos que muita gente aprisiona em casa, em apartamentos fechados, tratando-os caprichosamente, como se de pessoas se tratassem.
Será também bom que cada um imagine o sofrimento dos frangos nos aviários industriais, habitando em autênticas estufas onde comem rações hormonais para crescerem rapidamente, sem direito a um fio de luz natural. Logo que estejam devidamente insuflados são abatidos por choque eléctrico ou por degolação. O mesmo se passa com o gado porcino, ovino e vacum, que igualmente nasce e cresce em armazéns, onde a humanidade dos tratadores não existe.
Pois meus caros, isso não se passava antigamente, no tempo em que o lavrador vivia com os animais que criava, pois tratava-os com a devida humanidade. E ai de quem o não fizesse, porque as leis vigentes eram duras e a actuação das autoridades implacável para com os prevaricadores.
Vejamos o que rezava o decreto nº 5.864, de 12 de Junho de 1919, que se manteve em vigor até à década de 1970. Aquele saudoso diploma legal proibia de forma expressa as situações de violência ou de outros maus-tratos para com os animais.
«Hei por bem decretar que, entre outros, se devam considerar como violentos os seguintes actos, cuja punição deve ser promovida pelos agentes do Ministério Público». E enumerava esses actos criminosos: espancar animais, oprimi-los com trabalhos excessivos, obrigar ao trabalho animais doentes, pretender obrigar a levantá-los à custa de pancada, amarrar aos cães e gatos objectos que os assustem, apedrejar animais, assulá-los uns contra os outros, abandonar animais velhos, doentes ou recém-nascidos, cegar aves para cantarem.
Dez anos depois, por um decreto de 1929, o nº 16.637, de 16 de Março, estabeleceram-se medidas máximas para os ferrões, ou aguilhões, das varas dos lavradores, para que não ferissem os animais. «O bico do aguilhão terá forma cónica e o seu cumprimento não deverá exceder 0,004 m e a sua espessura, na base, não poderá ser superior a 0,002 m; o topo da vara deverá ser plano e terá o diâmetro mínimo de 0,01 m», dizia aquele diploma legal, que passou a ser o terror dos lavradores, porque muitos pensavam que podiam aguilhoar ferozmente os animais de tiro. A multa importava em 100 escudos e, na reincidência, ia para o dobro.
O meu pai, que Deus tenha à mão direita, porque era um santo homem, gostava, como os mais lavradores, de ter bons ferrões, ainda que raramente castigasse com eles as duas vacas de trabalho que possuía. Mas os guardas-republicanos daquele tempo atendiam a tudo e era um perigo passar por eles com aguilhões que excedessem as medidas legais. Sempre que apareciam praticávamos o «truque» que o nosso pai nos ensinara, batendo com a ponta da aguilhada na calçada ou numa pedra para que o ferrão ficasse mais curto.
Aqui se prova como as autoridades andavam atentas aos direitos dos animais, o que hoje não sucede, pois são imensos os cães e gatos que estão aprisionados e torturados em casa de gente caprichosa.
«Tornadoiro», crónica de Ventura Reis

One Response to Os nefandos maus-tratos a animais

  1. josnumar diz:

    “A maior maldade que fazem aos animais acontece com os cães e gatos que muita gente aprisiona em casa, em apartamentos fechados, tratando-os caprichosamente, como se de pessoas se tratassem”.

    “Aqui se prova como as autoridades andavam atentas aos direitos dos animais, o que hoje não sucede, pois são imensos os cães e gatos que estão aprisionados e torturados em casa de gente caprichosa”.

    Senhor Ventura Reis, pelo que escreve, antigamente os animais tinham Direitos que eram tidos em conta pelas autoridades de então. As Leis eram feitas cumprir pelas autoridades que castigavam os infractores. O medo das multas levava pessoas como por exemplo, o seu querido pai, a bater com o aguilhão no chão indo contra o gosto dele exibir um bom ferrão.
    Hoje indigna-se com o facto de cães e gatos viverem “aprisionados” em casas, em apartamentos e torturadas, segundo as suas palavras. Tenho a certeza que desconhece a realidade e os actuais Direitos dos Animais. Actualize-se e leia a Lei dos Direitos dos Animais.

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