A preocupante falta de dadores de sangue

Os mais atentos terão captado nos diferentes serviços noticiosos que o Instituto Português do Sangue tem em curso uma campanha de dádivas, designada «Dador-Salvador», tendo em vista aumentar as colheitas de sangue.

Ventura Reis - TornadoiroBem pode a campanha andar pela comunicação social, tentando sensibilizar os portugueses para a dádiva benévola de sangue, que nada conseguirá comparando com as dádivas de outro tempo em que o dador era verdadeiramente compensado e louvado pelo seu gesto em favor dos outros.
O senhor Ministro da Saúde deu o exemplo, no passado dia 9 de Agosto, em Carcavelos, dando sangue e apelando para que as pessoas lhe sigam o exemplo. Só que o mesmo senhor ministro quer acabar com as isenções de taxas moderadoras para os dadores, dizendo que não é isso que faz as pessoas darem o seu sangue. Eu julgo que este homem está desfasado da realidade, pois acabar com a regalia que resta a quem dá sangue poderá colocar em causa a própria campanha em que ele mesmo se envolveu.
O problema actual da falta de dadores prende-se com o facto de se ter acabado com os incentivos para isso. E eu sei muito bem do que falo, porque fui dador durante uma boa parte da minha vida, deixando apenas de o ser quando o correr dos anos me conduziu à velhice.
Mas no meu tempo as dádivas eram compensadas, nomeadamente com dias de dispensa ao trabalho. Como funcionário público, a trabalhar numa repartição de finanças, ainda beneficiei dessas compensações e até recebi medalhas, diplomas e louvores de que me orgulho, pois ganhei-os com a minha generosidade em favor dos outros.
Nas forças armadas e nas forças policiais a compensação pela dádiva de sangue era um preceito seguido com todo o rigor, tendo em consideração a importância de fomentar a prática da dádiva entre militares e polícias, que assim prestariam um serviço essencial à sociedade.
No meu tempo de garoto ainda recordo que se usava a prática de se sangrarem as pessoas quando tinham maleita ruim ou andavam demasiado extenuadas. Acreditava-se que sangrando as pessoas retirava-se-lhe o sangue nocivo, possibilitando que o mesmo sangue se renovasse, ganhando assim uma melhor qualidade. Falo nisto porque nós, os que viemos das aldeias do interior para Lisboa, encarávamos a dádiva de sangue como algo que até nos ajudaria a renovar a seiva que nos corria nas veias e artérias, e fazíamo-lo com uma perna às costas. Ora se a isto se juntava o direito a dias de dispensa no trabalho, então a disponibilidade era ainda maior.
Recordo uma circular que existia na Policia de Segurança Pública, em 1948, definindo os critérios de compensação aos agentes dadores:
«Os agentes chamados aos hospitais para voluntariamente, e com autorização do Comando, darem sangue, devem fazer-se acompanhar no seu regresso de uma nota sobre a sua quantidade.
Os mesmos agentes serão louvados em Ordem de Serviço, receberão a medalha de agradecimento da Cruz Vermelha e serão dispensados do serviço conforme a tabela seguinte:
10 a 50 c.c. – 4 a 5 dias,
50 a 100 c.c. – 5 a 10 dias,
100 a 250 c.c. – 10 a 15 dias,
250 a 500 c.c. – 15 a 20 dias.»
O espírito de ajuda entre as pessoas e as regalias atribuídas aos dadores garantiam que noutro tempo se ultrapassassem com a maior das facilidades as faltas de sangue nos hospitais.
«Tornadoiro», crónica de Ventura Reis

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