O indevido uso de fatos de banho escandalosos

Estamos, já o disse inúmeras vezes, na era da pouca-vergonha e da desfaçatez, adjectivações derivadas da desregulação da vida em sociedade, de que é triste exemplo a ousadia das mulheres que de há um tempo a esta parte se vestem (ou desvestem) com roupas mínimas no tempo do calor, cujo maior exemplo é o famoso biquini, que praticamente as deixa desnudas.

Ventura ReisA primeira vez que vi uma mulher nos preparos de um biquini foi em meados dos anos 1960, na praia de Paço d’Arcos. Eu era homem casado, e pai de filhos já bem espigadotes, e logo adivinhei que dali vinha desgraça ao Mundo. Não me enganei no prognóstico, porque a imoralidade cresceu à razão da expansão do uso das duas pequenas peças de roupa feminina
Os anos e as décadas passaram e eu, que até sou por natureza pessoa conservadora, habituei-me a ver o tal fato de banho de mulher que apenas tapa o busto e o baixo-ventre. Porém, há algo que considero desadequado e que de forma alguma deveria tolerar-se, que é o frequente uso dessa roupa ousada e sensual fora dos locais onde é aceitável a sua utilização.
Antigamente a vida em sociedade tinha o seu sentido ético. A lei impedia o uso de fatos de banho fora das praias, piscinas e outros lugares destinados à prática da natação. A proibição era rigorosa e sujeita a intensa fiscalização, a cargo dos agentes da segurança pública e da autoridade marítima, dentro das respectivas áreas de jurisdição.
Uma norma de 1941, o decreto-lei n.º 31247, de 5 de Maio, impunha que o uso de fatos de banho, passíveis de se interpretar como critica às autoridades implicaria severa punição, que poderia significar a aplicação de uma multa de 30 a 5000 escudos. A multa, se não paga imediatamente, era logo substituída por prisão à razão de 10 escudos por dia. O julgamento seguia a forma sumária, no próprio dia em que fosse lavrado o auto e o infractor fosse preso.
Não se brincava com a moralidade. O acto irresponsável e atentatório à dignidade humana que era o uso de fatos de banho escandalosos ou fora do lugar apropriado, levava a um outro acto redentor: o produto das multas revertia para o fundo de socorro a náufragos.
«Tornadoiro», crónica de Ventura Reis

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