O infeliz desaparecimento dos correctores de hotéis

Antigamente havia um mister muito útil à economia que era o chamado «corrector de hotéis», o qual garantia, junto de viajantes e turistas, a angariação de clientes para as unidades hoteleiras, contribuindo ao mesmo tempo para a boa recepção e conveniente orientação das pessoas.

Ventura Reis - TornadoiroNão era qualquer um que atingia o ofício de corrector de hotéis, porque o Conselho de Turismo, punha exigência na selecção daqueles que lidariam com os que visitavam o país, no sentido de garantir que contribuiriam para prestar boa informação e defender a imagem de um povo que sabe acolher.
Para ser concedida a licença de corrector de hotéis tinha que ser apresentado registo criminal limpo, atestado de bom comportamento passado por autoridade policial, declaração de abonador idóneo que se responsabilizasse pelo impetrante no pagamento de eventuais penalizações pecuniárias e indemnizações resultantes do exercício de funções.
O peticionário tinha ainda que prestar provas exigentes, que incluíam leitura e escrita, conhecimento dos percursos, horários e preços dos meios de transporte colectivos, bem como das indicações a dar aos turistas quanto à maneira de reclamarem perante as autoridades de eventuais furtos, burlas ou quaisquer maus serviços prestados. O candidato a corrector tinha ainda de provar conhecer perfeitamente o valor cambial das principais divisas, as taxas e franquias a pagar pela prestação de serviços essenciais e falar uma de três línguas: francês, inglês ou alemão.
Cabia a esse profissional frequentar os cais marítimos e fluviais de desembarque de passageiros, as estações do caminho-de-ferro, os terminais das camionetas de carreira, e ai prestar o seu serviço de informação tendo em vista encaminhar os viajantes para os hotéis para que trabalhava.
Para não haver dúvidas e o serviço ser prestado com denodo, o corrector era obrigado a apresentar-se decentemente vestido, a ter uma linguagem comedida e a usar no boné ou chapéu uma chapa onde se lesse o seu nome e o do hotel que representasse, segundo o modelo aprovado pelo Conselho de Turismo. Era ainda obrigatório estar sempre munido da respectiva licença, que podia ser exigida pelas pessoas a quem prestasse serviços ou pela Polícia.
Cabia à Polícia Administrativa fiscalizar de perto o exercício deste mister, agindo compulsivamente em caso de violação dos regulamentos. Para além da responsabilidade civil e criminal, o corrector que transgredisse era de imediato punido com a suspensão da licença por 30 dias. Havendo segunda transgressão a suspensão era por 60 dias. A terceira por 90 e a quarta por 180 dias. No limite, a licença era cassada, deixando o sujeito de desempenhar a profissão por manifesta incapacidade.
A exigência dos regulamentos prova o cuidado que noutro tempo havia no controlo do exercício de determinados misteres, cujo bom desempenho era essencial para o desenvolvimento da economia nacional e para a paz social que a Nação queria gozar.
Nos dias de hoje tudo está desregulado. Acabaram com os correctores de hotéis, ficando os turistas nas mãos das chamadas agências de viagens ou de turismo, sobre cujos funcionários não existe o devido controlo por parte das autoridades policiais. São constantes os casos em que o turista é vítima de logro e esbulho. E isto nada me admira, pois é habitual vermos os estrangeiros passando pelas cidades sem guias que os acompanhem e os orientem nos percursos. Ficam entregues a si mesmos, na mira dos larápios e gatunos que empestam as ruas e deles fazem presas fáceis.
«Tornadoiro», crónica de Ventura Reis

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