Os perigos do egoísmo

Há pessoas de má catadura que não observam os deveres para com a sociedade, pois só de má vontade se submetem às leis e cumprem as obrigações que lhes cabem enquanto cidadãos.

Ventura ReisEnsina-nos a moral que todos os homens são irmãos e devem auxiliar-se mutuamente em caso de precisão. A caridade e a generosidade para com os semelhantes são sentimentos nobres que se esperam de cada homem.
Esses valores estão a ser esquecidos em resultado de uma cultura da competição, traduzida na disputa acirrada entre as pessoas, na ambição desmedida e no louvor aos que sobem a pulso, pisando tudo e todos sem qualquer pejo.
Hoje, mais do que nunca, cultiva-se o egoísmo, com cada qual a bater-se por si, cooperando apenas por razões de ambição, para atingir uma meta.
Vivemos tempos de crise, com a mocidade sem emprego, com as famílias oprimidas pelas dívidas aos bancos e sem dinheiro para comprar o essencial para a vida. Anda por aí muita gente com a corda na garganta, com a vida transformada em inferno, sem alegria e sem esperança no futuro. Ora a experiência diz-nos que há dias sadios e dias aziagos, e o bom senso manda que o indivíduo se previna das fatalidades.
Noutro tempo cultivava-se a ideia de que o homem responsável economizava sempre uma certa quantia do seu salário ou do seu rendimento, tendo em vista a aquisição do que necessitava ou simplesmente para poupar e fazer face a uma fatalidade que o apoquentasse. Só que a mocidade de agora nasceu e cresceu na abundância, na facilidade da vida, com os paizinhos a amparar-lhe os movimentos. Não foram preparados para as dificuldades e andam desesperados com a vida.
A longa idade que tenho dá-me a experiência necessária para considerar que os tempos, sendo difíceis, obrigam à provação e ao sacrifício. Mas temo bem que a mocidade não esteja preparada para enfrentar dificuldades maiores, que obriguem a uma saída da redoma em que se encontra.
Nada se fará pela via do egoísmo e do individualismo. Os moços de hoje têm de dar as mãos e batalhar juntos, em vez de andarem por aí na casmurrice, numa disputa constante.
Tornou-se comum o uso da palavra solidariedade para designar a caridade e a benevolência de antigamente. Ser solidário é ajudar o semelhante, participar no esforço comum para uma melhor vida social, contribuir para que os pobres e ofendidos também singrem ou sejam menos infelizes. Porém nada disto se consegue com comportamentos egoístas, sucedâneos da ambição desmedida e do individualismo extremo, que hoje se cultiva e ensina.
«Tornadoiro», crónica de Ventura Reis

4 Responses to Os perigos do egoísmo

  1. Debalde tenho tentado explicar como os discursos radicais, apesar de estarem em latitudes diferentes, lutam pelos mesmo ideais e objectivos. Obrigado senhor ventura por tornar tudo tão mais claro.

  2. Carlos Rosa diz:

    O senhor Ventura é uma voz de lucidez neste mundo onde a loucura vem demasiadas vezes ao de cima.

  3. Antonio Emidio diz:

    O seu problema senhor Ventura, não é um problema de arcaísmo. O seu problema é que ainda traz os Estatutos da Inquisição no bolso, o dia que atirar com eles, verá e dirá muitas verdades, mas de outra maneira…

    Deixe-me dizer-lhe uma coisa, há muita gente mais nova, mais jovem do que o senhor ( se por acaso é o que está na fotografia…) que tem na mesinha de cabeceira como leituras e, ao mesmo tempo, os Estatutos da Inquisição, os Estatutos do Partido de Estaline e, os Estatutos do Partido Nacional Socialista de Hitler. São pessoas, algumas, muito queridas e aceites…

  4. joao valente diz:

    Santo Agostinho no “Da Ordem” chama a isso que combate o egoísmo, a amizade: “Comunhão nas coisas do mundo e do espírito, com benevolência e caridade”. Mas isso só é possível em homens bons, de espírito, que não abundam em sociedades incultas e intolerantes.

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