O problema da mendicidade simulada

É habitual encontrar gente praticando a mendicidade, sobretudo nas cidades. Muitos são estrangeiros, que se colocam junto aos semáforos, simulando deficiências, exibindo chagas ou segurando bebés nos braços, para melhor estimularem os sentimentos de caridade. Na maior parte das vezes trata-se porém de falsos mendigos, que abusam da sensibilidade alheia.

Ventura ReisÀs vezes são um bando de garotos, munidos de balde e escova, que se atiram a limpar os vidros dos carros ligeiros. Quando alguém lhes diz «não», corre o risco de ver o automóvel pontapeado ou riscado, pelo que acabam por condicionar as pessoas, que optam por lhes dar dinheiro.
Outras vezes é no metropolitano que os encontramos, tocando harmónio ou fingindo-se cegos, sempre no intuito de «sacar» dinheiro aos que abordam.
Na minha mocidade esta mendigagem falsa era proibida e reprimida. Eram considerados pedintes falsos os que exploravam a caridade pública em proveito próprio, nomeadamente através de forma aparente ou disfarçada.
Os inválidos ou incapazes encontrados a mendigar eram, conforme os casos, entregues às famílias ou a quem lhes garantisse o sustento e o agasalho. Se fosse necessário, eram internados em estabelecimentos adequados ou remetidos às comissões de assistência e socorro.
Porém os indivíduos aptos para o trabalho que fossem encontrados a mendigar eram remetidos ao Comissariado do Desemprego, entidade do Ministério das Obras Públicas, que lhes arranjava trabalho nas obras do Estado ou por este comparticipadas.
Por outro lado, havia serviços de assistência aos que realmente eram indigentes e absolutamente necessitados. Esses serviços tinham a missão de fornecer géneros alimentícios, artigos de vestuário, hospedagem, bem como assistência hospitalar ou farmacêutica. Este apoio à indigência estava espalhado por todo o país, através de comissões de assistência municipais e paroquiais.
Hoje nada disso existe, porque o Estado se demitiu de funções. A assistência é garantida por associações, que angariam géneros alimentícios e mobilizam voluntários. Mas isso não garante um apoio igual ao que existia antigamente através das zelosas e beneméritas comissões de assistência.
Outra coisa que hoje, infelizmente, não existe é a repressão da mendicidade, pois ela é actualmente de exercício livre, como se tal fosse um direito que a todos assiste. Pois bem, antigamente os indivíduos encontrados pelas autoridades a mendigar de forma abusiva e ostensiva, procurando condicionar os sentimentos alheios, eram detidos e imediatamente conduzidos ao albergue ou ao asilo mais próximo. Claro que se concluísse tratar-se de mendicidade simulada, então os indivíduos eram entregues ao Comissariado do Desemprego. E os que, nestas últimas condições, se recusassem a trabalhar eram enviados a juízo, sendo equiparados a vadios.
Por que razão não se recuperam essas práticas virtuosas e moralizadoras, que defendiam a justiça e a paz social?
«Tornadoiro», crónica de Ventura Reis

One Response to O problema da mendicidade simulada

  1. joao valente diz:

    A mim preocupa-me mais a pobreza dissimulada!

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