A República

«O Governo Republicano é legitimado pela prossecução do interesse geral. Nele aflora também ideologia positivista que propugna o governo científico e aponta como inevitável o advento do Estado Positivo, em substituição dos Estados anteriores, Teólogo e Metafísico», Joaquim Manuel Correia.

António EmidioHoje, 5 de Outubro de 2010, comemoram-se em todo o País os cem anos da implantação da República. Aqui, na cidade do Sabugal, a Comissão Municipal para as Comemorações do Centenário da República, irá falar-nos dos ideais republicanos e da história da Primeira República. Serão também homenageados os republicanos ilustres deste Concelho.
Com todo o respeito que me merecem, quero dizer aos órgãos de comunicação social do Concelho que irão estar presentes, o seguinte: a cultura e a história pertencem a todos, não são feudo de ninguém. Dai-lhe o mesmo tratamento, no mínimo, ou elevai-o muito mais, do que já foi feito à história e à cultura privadas.
Não irei falar (ou escrever, como queiram) da história da República, nem das causas que lhe deram origem Falarei de aspectos diversos, das coisas boas e menos boas dos 16 anos da Primeira República. Antes disso, quero dizer que o republicanismo tem uma natureza social e política, não foi um fenómeno conspiratório, subversivo e maçónico, como nos querem fazer crer alguns historiadores. O republicanismo é a ideologia preponderante das camadas sociais urbanas excluídas e marginalizadas do sistema monárquico. É a arma dos pobres e dos fracos desse mundo urbano, para uma Revolução Republicana que os emancipe. Esta é a ideologia da República.
Querido leitor(a), o único que existe é a história concreta feita pelo homem, logicamente que está condenada a ser o mesmo que o homem é. Por isso, Carlos da Maia, um oficial da armada do 5 de Outubro, teve esta frase: «Uma revolução pode mudar as instituições, mas em nada altera o carácter dos homens. Eles continuaram a ser o que eram: perversos e imbecis». Começarei pelas partes menos boas da República, que também as teve.
As «púrrias», esses grupos violentos pertencentes aos partidos e que eram o seu sustentáculo. Chegaram a boicotar a posse de um governo. Foi o efémero governo de Fernandes Costa (1920). A população comandada por dois «púrrias», conhecidos, um, pelo «Ó Ai Ó Linda» e outro pelo «Pintor», ameaçaram de morte o novo Presidente do Governo e os seus colegas que se encontravam reunidos no edifício da Junta de Crédito Público, para irem a Belém tomar posse. Já não foram. Foi chamada a Guarda Republicana, mas não compareceu…
Outro episódio, este dramático, foi a «Noite Sangrenta», em que foram mortos António Granjo, Machado dos Santos, o herói da Rotunda e, Carlos da Maia, entre outros.
Para bem, ou para mal, de 5 de Outubro de 1910 a 28 de Maio de 1926, a I República conheceu 45 governos e 29 intentonas revolucionárias.
Foi a segunda República Moderna da Europa, depois da francesa, era natural que suscitasse as atenções internacionais. Consideravam-na no estrangeiro, como populista, dogmática e adepta da política pela política.
Tudo foi suplantado, a parte mais negativa, pela nova estética, pelas artes, pela moda, pelos novos costumes, pelos novos ideais, pelo anticlericalismo, e pelo nacionalismo. As mulheres invadem campos exclusivamente masculinos, surgem as primeiras funcionárias do Estado. Muda também o traje delas, a mulher, principalmente a urbana, abraça a moda de Paris, simplifica o vestuário, substitui o espartilho pelo soutien. Adquire autonomia com os homens na frente de guerra, conquistam novas ocupações, passeiam sozinhas e, já frequentam cafés. Mas os republicanos impedem-nas de votar…
Protege-se a natureza, o dia da árvore tornou-se celebração obrigatória.
Veneram-se símbolos, bandeira e hino.
Glorificam-se heróis.
Surgem os valores da educação, cria-se o ensino infantil, o ensino primário tornou-se obrigatório, criam-se escolas técnicas, agrícolas, comerciais e industriais. Formam-se professores.
Criam-se as Universidades de Lisboa e do Porto.
O campo das letras e das artes vê surgirem pintores como Columbano Bordalo Pinheiro e José Malhoa. Escultores, Caricaturistas, músicos como Viana da Mota e Luís Freitas Branco.
Foi criado o Concelho de Arte Nacional que inculcou uma cultura humanista. O primeiro passo do modernismo literário surge com a revista Orpheu, à qual pertencem Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro.
Foram também tomadas medidas para proteger trabalhadores, como um dia de descanso semanal, oito horas de trabalho diárias, seguro social, etc.
Valeu a pena a República, foram e, são ainda ideais de Liberdade, Igualdade, Fraternidade, Laicismo e Democracia.
Querido leitor(a), ainda somos um País soberano, embora alguns homens ligados à governação vejam nisso um factor negativo para Portugal. E a nível axiológico – de valores – não atingimos a alienação, algo de bom e verdadeiro está na alma de muitos portugueses.
Um bem-haja à Comissão Municipal para as comemorações do Centenário da República.
«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

ant.emidio@gmail.com

One Response to A República

  1. joao valente diz:

    O drama e que nao se educou o povo para a consciencia de cidadania!

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