A Revolução Liberal do Porto

Madrugada de 24 de Agosto de 1820 (há precisamente 190 anos), o Coronel Sebastião Drago de Brito Cabreira, reuniu as suas tropas no campo de Santo Ovídeo, no Porto, juntando-se-lhe outras guarnições da mesma cidade. Foi o início da Revolução Liberal em Portugal. A partir daí começam as lutas liberais, uma guerra entre portugueses que durou alguns anos, uma guerra caseira. É nesta Revolução Liberal que se encontram as raízes mais profundas do 5 de Outubro de 1910, da implantação da República.

António EmidioA Revolução teve o apoio do povo e a adesão das forças vivas da cidade, que se juntaram na Câmara Municipal do Porto. Foram militares e juristas os principais chefes rebeldes, como o brigadeiro António da Silva Pinto da Fonseca, o coronel Drago Cabreira, o desembargador Manuel Fernandes Tomás e o jurista José Ferreira Borges, entre outros.
Uma revolução não surge de um dia para o outro, esta já tinha tido o seu prólogo em 1817, mas nessa altura foi neutralizada pela Regência do Reino. Também em 1817 se dá a revolta de Pernambuco, no Brasil. Terá uma coisa a ver com a outra? As ideias liberais começavam a ter muita força e a serem aceites na sociedade portuguesa de então.
Por mais estranho que pareça, foram as invasões francesas com o seu cortejo de morte e destruição que deixaram a marca do liberalismo. Em 1820, Portugal estava num impasse político, D. João VI e a Corte estavam no Brasil, com essa ausência, havia um vazio de poder em Portugal. Também no exército português a supremacia de Inglaterra era notória, já durava pelo menos há uma década, o povo via isso como uma tutela política, como uma humilhação. A Inglaterra significava para os liberais uma barreira ao progresso das novas ideias. Convém recordar que tanto em Inglaterra como em França, era o liberalismo que dominava, mas em França era radical, jacobino, em Inglaterra era um liberalismo conservador. O liberalismo português era de origem francesa.
No plano externo, foi a Constituição de Cádis em Espanha, chamada a «Revolução de Espanha», cujo artigo 2º dizia: «A Nação Espanhola é livre e independente não é património de nenhuma família nem pessoa», vê-se aqui um ataque ao absolutismo real, que influenciou depois a Constituição Portuguesa saída das Cortes.
Só em 1821, depois das Cortes legislarem é que foi extinto o Conselho Geral do Santo Ofício e as Inquisições, a Revolução Liberal terminou com essa instituição diabólica que durava há trezentos anos!!!.
Lisboa aderiu à revolução passados uns dias.
Porquê o Porto baluarte do liberalismo? A Inglaterra tirava grandes vantagens de ordem política e comercial na protecção que dava ao País. O tratado anglo-luso foi muito favorável a Inglaterra. Esta situação prejudicou a burguesia a partir de 1815, especialmente o comércio duriense, isto também foi uma das causas da Revolução. Antes disso, no século XVIII, a exportação de vinhos finos pela barra do Douro trouxe riqueza à cidade, abrindo-a também à cultura das luzes, chegavam lá ilustrações de França e Inglaterra, havendo muitos assinantes da imprensa estrangeira. No Porto havia também muitos clubes jacobinos que fomentavam a revolta.
Este pequeno artigo, é uma também pequena homenagem, mas sincera, que quis prestar ao Exército Português. Foi em 1820, pela primeira vez, que a força das armas impunha o destino político. A partir daí, até Abril de 1974, o Exército teve muita influência no desenrolar político de Portugal.
«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

ant.emidio@gmail.com

3 Responses to A Revolução Liberal do Porto

  1. João Duarte diz:

    Caro António Emídio:
    O Exército (para além dos outros ramos das Forças Armadas) teve muita influência no desenrolar político em Portugal, não até 25 de Abril de 1974, mas sim até 25 de Novembro de 1975.
    Aconselho a leitura de “Origens e Evolução do Movimento de Capitães” e os dois Volumes de “Apogeu, Ascensão e Queda do MFA”, ambos do major Dinis de Almeida ou “Abril nos Quartéis de Novembro” de Cesário Borga, Avelino Rodrigues e Mário Cardoso (que li este ano, como político que sou e faço gala de o ser) para se ter uma ideia da influência do desenrolar político-militar em Portugal, neste caso , sobretudo, a partir de Abril de 1974.

  2. João Duarte diz:

    O título do livro do major Dinis de Almeida é , na verdade, “Ascensão, Apogeu e Queda do MFA”

  3. joao Valente diz:

    Curiosamente li recentemente um estudo sobre o assunto. A alma do movimento foi Manuel Fernandes Tomás e toda a junta governativa que saíu do movimento ( só a título de curiosidade) era maçónica.
    Apesar de a junta republicana que organizou o 5 de Outubro também ser maçónica, a república não tem raízes no vintismo, embotra algumas figuras do vintismo tivessem chegado a levantar a hipótese da instauração da republica.
    Os liberais vintistas eram na sua maioria essencialmente monáquicos (legitimistas) e maçons e as ideias republicanas só começaram a ter alguma expressão entre os liberais e na maçonaria portuguesa a partir dos meados do século XIX, na sequência da republica francesa de 1848.

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