Num desvão da Serra d’Opa

Estão de volta as grandes romarias da Região, sinal da chegada do bom tempo. Estranhamente, ou talvez não, continuam a arrastar milhares de pessoas aos seus santuários, geralmente pequenos demais para tantos automóveis e tendas de vendedores ambulantes. A Senhora da Póvoa afirma-se no panorama regional como uma das mais concorridas.

Senhora da Póvoa

António Cabanas - «Terras do Lince»Depois de uma quebra nos anos 60 e 70 em que de 3 dias acabou em 1, ei-la de novo em grande! Aos poucos foi crescendo e depressa os «tendeiros» sentiram necessidade de ir de véspera para guardar o lugar, levando a que na tarde de Domingo já houvesse muita gente, muitas tascas e arraial. Hoje vêm na véspera da véspera e já têm de novo dificuldade em obter o tão desejado espaço em sítio adequado, entenda-se onde passe muita gente.
Há os que apenas vão pela devoção religiosa, comungam dos actos religiosos, acendem uma vela, perfilam-se na procissão e rezam na igreja.
Há até quem se martirize de joelhos, em seu redor, pagando uma bênção divina, ou requerendo-a.
Cá fora, o Zé-povinho, numa espécie de orgia colectiva, percorre a feira em busca de uma qualquer pechincha, canta e dança, abraça os amigos, enche o bandulho com opíparos repastos, emborca copos de tinto e de cerveja.
Há muito nos interrogamos sobre a sua origem. Naturalmente, como tantos outros cultos a santos e santas que o nosso povo estima, terá provavelmente origens muito remotas, em antigos cultos pagãos. No cimo da Serra d’Opa há claros indícios de um santuário sacrificial. É um local de cume, também de actuais e antigas divisões administrativas, talvez mesmo muito antigas, pois era normal que elas passassem pelos acidentes geográficos, pelas alturas, ou pelos rios intransponíveis. Mas era também nesses locais que se efectuavam manifestações guerreiras ou, pelo contrário se juntavam as tribos para festejar a paz, eram assim locais de aproximação, de reencontro, provavelmente de festejos, onde quem sabe, se acertavam romances que miscigenavam o sangue.
Como nesse tempo longínquo continuam hoje a afluir gentes de diversas origens. No caso da Sra. da Póvoa vêm de Belmonte, do Fundão, do Sabugal, das Idanhas e de outras paragens mais distantes, além das aldeias do concelho de Penamacor. Ali, se juntaram sempre gentes do norte e do sul, o pandeiro redondo e o pandeiro quadrado. Gaiteiros e tocadores de harmónio, adufeiras e tamborileiros desafiavam os mais dançarinos. Qualquer realejo servia para fazer um baile! Enquanto os foliões se divertiam, os vendedores faziam negócio vendendo foices, tamoeiros, albardas, ancinhos, cabeçadas, e toda uma panóplia de objectos e alfaias de uso doméstico.
Os dias que antecediam a festa eram de muita ansiedade e de muito trabalho: o plantio e a rega da horta ou a apanha do feno. Eram por vezes dias de trovoada, ameaçando estragar os trabalhos agrícolas e a própria festa.
Pior ansiedade ainda provocavam as conversas dúbias lá de casa, que escondiam incógnitos jogos de interesses. O pai que perguntava:
– Não prometeste de ir à Senhora da Póvoa?
A mãe que respondia:
– Não, que está o feno para apanhar.
– Se não vamos, a santa castiga-nos com alguma trovoada!
– Não me apetece preparar a merenda!
– Mas a mãe já fez almôndegas de bacalhau! – Atalhava eu a pensar no realejo e na moto de três rodas, feita em lata pintada e que daria brincadeira para todo o ano.
– Cala-te fedelho, que não são contas do teu rosário!
Por fim, chegava o dia, não havia escola – e mesmo que houvesse! – A madrugada era um corrupio, regar a horta, tratar dos animais, preparar o burro, ou então esperar pela camioneta, na estrada. Muitos autocarros nem sequer paravam, vinham cheios, com gente de pé no corredor. Os vidros abertos deixavam escapar a animação das concertinas e adufes e contagiavam os que aguardavam na paragem:

Nossa Senhora da Póvoa
Onde ficais situada
Num desvão da Serra D’ Opa
Numa casa caleada

Nossa Senhora da Póvoa
A vossa Capela Cheira
Cheira a cravo cheira a rosa
Cheira a flor de laranjeira

Nossa Senhora da Póvoa
Já cá vamos à Meimoa
Que terá o vosso sino
Que o vosso sino não toa

«Terras do Lince», opinião de António Cabanas
(Vice-Presidente da Câmara Municipal de Penamacor)
kabanasa@sapo.pt

5 Responses to Num desvão da Serra d’Opa

  1. Ramiro Matos diz:

    Embora não católico, voltei à Sra da Póvoa este sábado, tendo tido o privilégio de assistir`ao vestir da imagem (ainda não a verdadeira) pelas mordomas…
    Relembrei as vezes sem conta que, na carreira de Belmonte ali me deslocava cumprindo uma promessa que todos os anos o meu avô fazia de ir a Sra da Póvoa com o neto, promessa que sempre cumprimos enquanto ele foi vivo.
    Grande romaria da Beira Baixa, hoje infelizmente, sem a importância de há décadas, salientando-me o pároco que hoje, domingo, ali iria tanta ou mais gente que amanhã dia da festa…

    Mas não posso deixar de referir que o Concelho do Sabugal também tem a sua Sra. da Póvoa, na Sacaparte em Alfaiates onde amanhã também é dia de festa.
    E perdoem-me os habitantes do Vale da Sra da Póvoa, mas a nossa Sacaparte é muito mais bonita que o local onde se realiza a vossa festa.

    Ms parece que nem sempre “deus dá dentes a quem tem (boas, digo eu) nozes…

    Ramiro Matos

    • António Cabanas diz:

      O velho convento da Sacaparte é impressionante! Uma joia do concelho do Sabugal que oxalá um dia possa ser aproveitada para algum uso compatível com status do edifício.
      Quanto ao local a nossa Sra. da Póvoa tem um santuário muito agradável, com muita sombra e com a Serra d’Opa ao lado. Talvez por isso o tenha escolhido Nuno de Montemor para o epílogo do seu Maria Mim.
      Um grande abraço.
      A Cabanas

  2. Fernando Latote diz:

    Amigo Cabanas “adoro” ler o que escreve… e eu não gosto de ler… mas o que escreve cativa à leitura.
    O amigo Ramiro não lhe fica atrás…

    Parabéns a ambos.

    Também deixo a minha achega…

    Nossa Senhora da Póvoa
    Quem vos varreu o terreiro
    Foram as moças da RAIA
    Com um ramo de loureiro

    Segundo minha mãe e minhas tias e outras jovens octagenárias” conterrâneas , esta quadra cantavam elas e as moças da sua época na Sacaparte em Alfaiates.. mas há mais

    Nossa Senhora da Póvoa
    Aqui da entrada vos digo
    Mandai semear o terreiro
    E pró ano dará trigo

    Nossa Senhora da Póvoa
    Já chegámos aos Carvalhos
    Cá vem para vos visitar
    O ranchinho dos Forcalhos

    Nossa Senhora da Póvoa
    Linda Senhora Arraiana
    Virai costas a Castela
    Não queirais ser Castelhana

    Nossa Senhora da Póvoa
    O nosso rancho pôs o ramo
    E já fizemos a promessa
    De cá voltarmos pró ano
    ……

    “Iamos dos Forcalhos atrás do ti Tonho Carriço, que tocaba a concertina”

  3. António Cabanas diz:

    Nossa Sra da Póvoa
    Eu pró ano não prometo
    Que me morreu o amor
    Não posso cá vir de preto

    Nossa Sra da Póvoa
    Mandai sol que quer chover
    Que se molham os vestidos
    Das que vos querem vir ver

    Os versos são às centenas, repetindo-se pelas romarias da região.
    Acabo de chegar da festa, fiquei para apanhar os alfinetes, ou as canas, se quiserem. Não comprei a santinha de acúcar, que me não deu nas vistas. Comprei um ancinho para apanhar o feno. Enquanto regateava o preço, alguém gritou de longe: – Ponha-lhe o pé de cima!
    Aproveito para dar umas novidades. Almocei com os Srs padres, dos dois concelhos (Penamacor e Sabugal), estavam os dois Aciprestes, e um padre de Cória. A convite meu, vieram almoçar connosco o Presidente da Câmara do Sabugal e a Vice-presidente. Só faltou o Presidente de Penamacor que não pode estar. Afinal a Sra da Póvoa é mesmo dos dois concelhos!
    O padre César, pároco local, deu-nos outras novidades: depois dos restauros, a capela está um brinco, o que comprovei, durante as celebrações foram dadas as boasvindas aos peregrinos espanhóis, o que não comprovei, por ter faltado à missa, e que pretende, no futuro, organizar postos de apoio aos peregrinos que vêm a pé. Boas ideias de um pároco jovem, simpático, diria até cativante, mas acima de tudo, dinâmico.

    António Cabanas

  4. joao Valente diz:

    Pelo menos o almoço, foi em boa companhia… E ainda bem que estas romarias estão vivas. A religião e a tradição também fazem parte da cultura de um povo.

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