Memórias sobre o Hospital do Sabugal (7)

Dentro dos contributos para a história do Hospital do Sabugal, apresenta-se mais uma transcrição do Bloco de Recordações do Sr. Dr. Francisco Maria Manso, onde fala da actividade do Hospital logo após a sua inauguração e descreve a sua acção enquanto médico.

Romeu Bispo«Hospital – 20-11-1938
Poucos dias depois de inaugurado o Hospital, foi internado o menor Francisco Monteiro Ferreira, com febre tifóide. O doente deu entrada no hospital depois de tratado duas semanas em sua casa. O estado do doente inspirava sérios cuidados e colhi o sangue para confirmação do diagnóstico de Widal. O diagnóstico foi confirmado e principiou-se com abalneoterapia fria. Deram-se dois banhos por dia. As temperaturas ao fim de uma semana fizeram uma descida em lisis e actualmente podemos considerar o doente livre de perigo. A temperatura de manhã está normal e à tarde tem um acréscimo para 37 º. Parece pois que o Hospital se iniciou bem, se atendermos a que o doente foi internado por temor de morte próxima.
Manuscrito de Francisco Maria MansoUm facto que desejo exarar é o do primeiro doente morto no hospital. Sucedeu ontem, dia 19 de Novembro de 1938. Pelas 7 horas da noite fui procurado em minha casa para ir ao hospital ver um homem que ficou debaixo de uma camioneta e estava em perigo de vida. Fui imediatamente e encontrei sobre a mesa de observações do consultório um homem de 28 anos, robusto, com o fácies cadavérico, as extremidades frias, sem pulso e proferindo com frequência que estava morto. Dei uma injecção de cafeína. Mandei dar outra de óleo canforado, passados instantes e verifiquei a realidade terapêutica. Pela palpação notei a fractura da 4º costela direita, dando crepitação óssea quando o doente mudava de posição. Mandei que se despisse o doente e ao voltá-lo sobre o lado esquerdo notei uma deformidade do osso “sacrum” que estava fracturado com uns oito centímetros de saliência da região direita para a esquerda. A perna direita encontrava-se assim sem movimentos e a fractura da bacia trouxe ao doente um estado de dor muito acentuado. Deviam existir grandes lesões dos órgãos abdominais. O doente sucumbia uns 30 minutos depois da sua entrada no hospital, depois de o ter mandado deitar sobre a primeira cama do lado esquerdo da enfermaria à direita (quando se entra para o corredor). Este pobre homem era do Meimão e deixou três filhitos. Era extremamente pobre. Mandei que fosse levado para a capela do cemitério e ali esperasse pela vinda da família.
Foi este o primeiro óbito havido no Hospital de Sabugal. O pobre homem vinha numa camioneta e pretendeu descer sem avisar o chaufeur, descendo em movimento. Perdeu o equilíbrio e a roda de traz passou resvalando pelo tórax, abdómen, para passar por cima dos ossos da bacia que fracturou internamente».
Romeu Bispo
(Provedor da Santa Casa da Misericórdia do Sabugal)

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