A pita assada e não comida de Joaquim Dias

Paulo Leitão Batista - Contraponto - © Capeia Arraiana (orelha)

O professor Joaquim R. Dias publicou, no início de 2008, um fabuloso livro dedicado à sua terra, os Fóios, ou Daquelado, fórmula popular que gosta de repetir, a que deu o sugestivo e saboroso título de «A Pita do Ti Zé Plim».

A Pita do ti Zé PlimO livro constitui uma saborosa viagem, com o seu quê de epopeico, aos tempos de juventude. Há uma passagem pelos lugares dessas memórias vivas e tecem-se curiosas apreciações acerca da vida cheia desses tempos idos.
Um grupo de jovens estudantes dos Fóios decidem aproveitar o tempo de férias para procurarem uma aventura que não era nada usual naquela época: ir acampar junto à aldeia espanhola das Eljas, portanto uns bons quilómetros para lá da linha de fronteira. Quim Dias, Chico Léi, Chico Jiró, Léi Carloto, Mário Mateus, Zé D’avó e Zé da ti Chão, são os heróis desta gloriosa façanha juvenil.
Metem-se a caminho decididos, mas o frio e a fome sobrevieram logo após a primeira noite dormida no campo. O facto motivou o regresso furtivo de dois aventureiros à aldeia em busca de agasalhos. Não queriam ser vistos por vergonha de revelarem medo à frialdade das noites de Verão. Na arremetida notaram também que era importante prevenir a fome, e decidiram rapinar a galinha ao Ti Zé Plim, exemplar único da sua capoeira.
E a pita morta lá foi com os convivas para ser assada sobre as brasas quando chegados ao destino, como justa recompensa pelo esforço da viagem. Só que com o calor a carne do animal já fedia e acabaram por não lhe por o dente:
«Tratámos de montar as tendas e de preparar o lume para fazer de comer. A galinha que trazíamos vinha mesmo a matar. Depená-la e deixá-la pronta para ir à brasa foi num ápice, porque todos tínhamos um ratito no estômago.
Começou-se a assar a galinha. Porém, quando a maior parte de nós se dispunha a saborear o pitéu, que estava quase pronto e de que o Zé da ti Chão, por ser o benjamim do grupo, já tinha provado a bassó, forma nossa para cujo conteúdo se utiliza correntemente o termo moela, o Léi Carloto apurou o seu sentido de olfacto e, torcendo o nariz, afirmou que a galinha já cheirava mal, no que foi secundado de imediato pelo Chico Léi que logo sentenciou que estava estragada, o que afinal nem era de admirar, uma vez que, morta como vinha, tinha connosco feito todo aquele percurso em horas de calor.»
Escrito numa linguagem fluente, pejada de expressões populares e de frases de forte sentido irónico, o livro é uma peça importante da nossa literatura regional, pois trata-se de um excelente contributo para a recolha das nossas formas de expressão. À medida que a aventura dos jovens se desenrola, o autor aborda aspectos fundamentais das vivências colectivas dos que habitam Daquelado. Lá estão saborosíssimas descrições da matança de um cochino, das capeias arrainas, das façanhas do contrabando e da emigração. No que toca à candonga há até uma história comovente de transporte de carregos a cavalo, os quais, tal como os contrabandistas, também era por vezes vítimas do fogo dos guardas:
«Embora não haja cruzeiros a assinalar as mortes dos cavalos, também estes, muitas vezes, eram vitimados pelas mesmas balas. E, apesar de poder parecer estranho, quando isso acontecia, a carne destes animais era aproveitada por alguns para, pelo menos nessas alturas, matarem a fome devidamente ou, como por cá se diz, com l’é dado.
Os animais eram esquartejados no mesmo local em que os tinham feito tombar e a carne era metida em vinha-d’alhos. A tristeza e a dor dalguns eram, afinal, contentamento de fartura pontual para outros.»
«Sabores Literários», crónica de Paulo Leitão Batista

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