O vôdo ao Divino, de Pinharanda Gomes

Nascido em Quadrazais, concelho do Sabugal, Pinharanda Gomes é um dos mais prolixos escritores portugueses, com largas dezenas de livros publicados. Diversa é também a temática abordada, que vai da Filosofia à História, passando pela Religião, a Etnografia e mesmo a Biografia.

Para além da actividade literária propriamente dita Pinharanda Gomes é um homem da vida. Incapaz de recusar um pedido, a vida levou-o a manter colaboração, regular ou pontual, com uma imensidade de jornais e de revistas, a proferir largas dezenas de conferências, e a escrever perto de cem prefácios e posfácios em livros alheios, tendo ainda colaborado em dezenas de dicionários e enciclopédias.
A sua área de excelência é a Filosofia, onde integra o «pensamento português», na esteira de Leonardo Coimbra, Álvaro Ribeiro e José Marinho. Uma boa parte da obra literária está pois dedicada ao pensamento. Outra faceta importante, que talvez secunde o trabalho filosófico, é a dos textos de índole religiosa, alguns apologéticos outros historiográficos, todos realçando a profundeza e o enraizamento da doutrina católica nas convicções do nosso povo.
Dentro desse mesmo espírito se enquadra o volume «A Cidade Nova», que reúne um conjunto de reflexões acerca da religião e da sociedade. Seguiu-se a «Duas Cidades», sendo-lhe uma espécie de segundo volume, por dar continuidade ao tratamento dos mesmos temas. Os ensaios abordam a temática religiosa em diferentes quadrantes: a relação da Igreja Católica com as demais religiões, a renovação do pensamento católico, o papel de Maria no catolicismo e, por fim, o culto do Divino Espírito Santo em Portugal.
Precisamente neste último ponto, Pinharanda aborda a teologia do Divino numa perspectiva popular. Explica como esse culto se tornou tão celebrado entre o povo e como evoluíram as festividades, integradas no «ciclo da alegria», que se segue ao Domingo de Páscoa. Ali nos fala das loas, ou folias, dedicadas ao Espírito Santo, levando-nos até ao vôdo, ou bodo, que era a dádiva destinado inicialmente aos mais pobres e carenciados, e que depois evoluiu para lauto banquete, cuja confecção e composição variam consoante o lugar:
«O vôdo pode constar de caldo de carne, a sopa do Divino, e carne e pão e vinho, como nos Açores; ou leite, o que sucede em Vila Franca do Rosário (Açores) em que o promitente do voto traz as vacas para serem ordenhadas na praça pública e, o leite, distribuído pelos pobres. No Continente, onde o gado bovino de trabalho abundava mais do que o gado leiteiro, raro era o costume de matar a vaca. Preferiam-se os borregos, os cabritos, os coelhos, e outros animais miúdos, e também os comeres com ovos: chouriças embebidas em gema, fritas; enchidos vários; biscoitos de farinha triga e ovos, os coscoréis, espécie de filhó, amassada com ovos, uma base de farinha triga. Por então cantavam os moços:
É a moda dos coscoréis
E também a das rosquinhas
E também a das amêndoas
Que se dão às raparigas.»
«Sabores Literários», crónica de Paulo Leitão Batista

leitaobatista@gmail.com

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