Ao forcão rapazes!

Depois da poeira da batalha eleitoral, é preciso que cada um, entre vencedores e vencidos, saiba encontrar o seu papel, na tradução exacta do mandato que lhe foi confiado pelos votos dos eleitores. Uns e outros, embora de forma diversa, assumiram compromissos e responsabilidades perante os sabugalenses e estes esperam que os seus eleitos estejam à altura de tais desafios.

Câmara Municipal do Sabugal

António Cabanas - «Terras do Lince»Desde o meu ingresso no Instituto de Conservação da Natureza e na Reserva da Malcata, já lá vão mais de 20 anos, tornei-me um amante do Sabugal, da sua riqueza histórica e cultural, das suas especificidades, das suas belezas naturais e, obviamente, das suas gentes. Fui descobrindo, confesso até com alguma inveja, as imensas potencialidades deste enorme município raiano. Alguém, nessa altura, já nem me lembro quem, ofereceu-me uma cópia do «Maria Mim», que estava esgotado, e li um dos exemplares das «Caçadas aos Javalis na Serra da Malcata» que havia na pequena biblioteca da Reserva. Daí para cá descobri, entre outros interessantes comunicadores, esse fascinante escritor, que dá pelo nome de Leal Freire. Tenho adquirido, lido e coleccionado todos os livros do Sabugal, as suas monografias, os estudos, os livros de poesia e romance. E que Rica surpresa ao ler «Celestina», onde encontrei referências ao carlo-miguelista penamacorense Francisco Pina Ferraz!
Apesar do meu feitio, ríspido, tenho granjeado bons amigos nas terras de Riba Côa, na actividade política e profissional, nos convívios gastronómicos, nas actividades de lazer, e, claro, nas inevitáveis capeias. Conheço e sou amigo dos presidentes de câmara e vereadores, permanentes e da «senha», que têm passado pelo Município. Tenho amigos na esquerda e na direita, numa e na outra margem desse belo rio Cuda, acerca do qual o professor Zé Manel lembrava, cheio de oportunidade, que nenhum rio teria foz se não tivesse nascente.
Remato, afirmando que se não fosse natural de onde sou, da Princesa da Cova da Beira, só gostaria de ser de Riba Côa. E dito isto, já se entende onde quero chegar. É que tinha prometido a mim mesmo não escrever uma linha que fosse sobre a política local sabugalense. E se não resisto à tentação de transigir nesta minha promessa, há apenas dois motivos: a actual situação política sem paralelo nas terras transcudanas e a estima que me merecem os seus protagonistas.
Tenho acompanhado o aceso debate político sobre a gestão dos assuntos autárquicos sabugalenses e as recentes posturas dos grupos eleitos, como acompanhei, com interesse a campanha eleitoral, desde o anúncio dos primeiros nomes e a feitura de listas, até ao rescaldo eleitoral. Pelas razões que se entendem, sempre recusei os vários convites dos contendores para intervir neste ou naquele evento que pusesse em causa o meu distanciamento. Mas só nesses.
Na última «Capeia das Capeias», em Aldeia da Ponte, lá estive, entre amigos, ao sol tórrido do Verão, misturado nas conversas tauromáquicas de emigrantes e espanhóis, alguns deles também amigos. Mas a conversa mais absorvente não era sequer em redor dos toiros, mas sim das eleições. Noutros territórios vizinhos, fizera-se uma pausa, uma trégua, foi-se a banhos e esperou-se pela rentrée para se voltar à luta pura e dura da política. No Sabugal, não! Ninguém quis tirar férias, a luta ficou até mais encarniçada, havia um ar pesado que ameaçava borrasca, marcava-se à zona, homem ao homem, taco a taco. No apinhado bar da praça, espaço de homens, juntavam-se os candidatos, sempre rodeados pelos seus mais próximos colaboradores e por candidatos às Juntas de Freguesia. Pagavam-se rodadas e mais rodadas de cerveja. Mas a espuma que pairava no ar, não era a da cerveja dos muitos copos que se bebiam ou dos que ficavam cheios, rejeitados em cima do balcão, era outra a espuma, era outro o éter que as conversas destilavam, entre meias palavras e entre grupos que se faziam e desfaziam, no leva e traz de quem vai despejar a bexiga. Sentia-se que a coisa estava dividida! No meio da confusão de quem apoia a quem, pressentia-se que o PSD estava mais fragilizado do que habitualmente e que o Partido da Terra viera baralhar as contas a uns e outros. Uma incógnita das grandes!
Contados os votos, o povo, mais esclarecido, ou mais alienado, disse o que queria. Se não o disse claramente, foi porque não o quis dizer, o que também quer dizer alguma coisa. Expressou a sua vontade e cada um ficou com um pedaço da manta que, como sempre, não estica: ou tapa os pés ou a cabeça.
Terão agora os eleitos que entender o que o eleitorado disse nas entrelinhas.
Confesso que tenho assistido com alguma expectativa à catadupa de acontecimentos em redor da acomodação no poder. Tranquiliza-me a convicção que tenho de que, apesar da poeira que ainda paira no ar, das feridas por sarar e das diatribes da campanha que alguns tardarão em esquecer, «maioria» e oposição saberão ultrapassá-las com elevação, com sentido da causa pública e do interesse municipal. É assim que sempre procedem as sociedades civicamente evoluídas.
Bem sei que já há quem se posicione para daqui a 4 anos, mas ninguém pense que ganhará o que quer que seja com jogadas precipitadas ou irreflectidas, a tanto tempo de distância. Ganhará, isso sim, quem for mais forte e mais inteligente, atributos que se demonstram na prática da acção política, nas opções e posições assumidas e quantas vezes na recusa da pressão dos aparelhos partidários e dos interesses particulares.
Quem ganha sem maioria terá que ter a humildade de dialogar, chegar a entendimentos duradouros, sob pena de não conseguir garantir a governabilidade e se fragilizar ainda mais. Mesmo quando se ganha com maioria há que ser magnânimo e respeitar as oposições.
Quem perde tem também que assumir as suas responsabilidades. Não há vitórias morais: ganha-se ou perde-se. E quem perde não pode querer o poder para si.
Quem ganha sem maioria sabe o que o espera: que a oposição, se quiser, pode emperrar o exercício do poder. E uma situação pantanosa que perdure será prejudicial ao Sabugal, numa altura do quadro comunitário em que todas as energias devem estar concentradas no desenvolvimento de novos projectos. Um presidente e uma câmara que desperdicem o tempo e as energias a resolver os litígios do poder, dificilmente poderão ter um bom desempenho. Por certo que os sabugalenses não querem que isso aconteça, desejarão antes que a sua câmara os governe com justiça e saber e esteja na primeira linha do combate aos muitos problemas com que o Sabugal, como todo o interior, se debatem.
Não haverá outro caminho, e braços de ferro dão quase sempre mau resultado, designadamente para quem os levanta.
Sempre admirei a forma raçuda como o raiano sabugalense encara a vida do dia e dia e as suas dificuldades. Mais admiro o seu orgulho e a defesa que faz das tais especificidades. Como dizia há dias o Antoine das trutas: isto é como ao forcão, temos que lhe pegar todos juntos!
Ao forcão rapazes!
«Terras do Lince», opinião de António Cabanas

kabanasa@sapo.pt

4 Responses to Ao forcão rapazes!

  1. António Antão diz:

    Já se vai vendo pouco disto…
    Eu não conheço pessoalmente este colaborador activo do Capeia Arraiana. E tenho pena, muita pena!
    Além do espírito folgazão, alegre, franco e cordial, de alguém que está satisfeito com a vida, que deixa transparecer com toda a naturalidade, o que se coaduna perfeitamente com a minha maneira de ser, pensa bem e escreve melhor, como eu também gosto que se deve pensar e escrever.
    É que, nos dias que correm, cada vez mais dominados pelo rigor do cientismo e da cultura materialista que o envolve, quem pense bem vai escasseando e quem escreva melhor cada vez há menos. Com efeito, as consequências do acentuado declínio do interesse pelos estudos humanísticos, por parte dos nossos jovens, dadas as dificuldades em encontrar uma boa colocação profissional, são cada vez mais notórias nas nossas escolas secundárias. E os resultados aí estão, quotidianamente visíveis, na penúria de muitos escritos públicos e na pobreza sintáctica de muitos discursos das nossas mais proeminentes figuras públicas, qual triste exemplo para quem como tal os tem.
    Eu não sei qual é a formação deste excelente analista do fenómeno social e político do nosso concelho. Não quero eu dizer que, para se pensar e apresentar com correcção aquilo que se pensa, tenha de se ter elevados graus académicos. Considero até que basta, para começar, ter um grande coração e, depois, um bom exercício do espírito de observação e de reflexão, com algumas leituras dos grandes construtores da língua portuguesa, pelo meio.
    Seja qual for o caso, tenho que dizer que dá gosto ler os pensamentos deste António Cabanas. Dá gosto pela riqueza do conteúdo, pelo brilhantismo que evidencia no recurso à linguagem linguagem conotativa, em algumas situações… enfim, dá gosto pela excelência da sua apresentação morfológica e sintáctica, mesmo apesar da extensão dos seus textos. Com efeito, não cansa lê-los.
    Já se vai vendo pouco disto…

  2. António Antão diz:

    E, ainda por cima, diz com grande simpatia que, se não fosse da Meimoa, gostava de ser das nossas terras.
    Já se vai vendo pouco disto

  3. jose morgado diz:

    Para se fazerem crónicas, tão bem pensadas, oportunas e realistas, nada melhor do que não estar, em nenhum dos lados da barricada, pois como ele refere «tenho amigos, na esquerda e na direita, numa e noutra margem deste belo rio Côa» e não é parte interessada, como diriam os juristas.
    Tenho lido com prazer os seus Posts de linguagem cuidada, sem ser erudita e com um rico sabor raiano.
    È uma grande valia para o Capeia Arraiana.
    Parabens ao Penamacorense, cuja alma se estende até ás terras do Riba-Côa.
    Cada vez são mais os sabugalenses adoptivos!
    José Morgado

  4. V.M. diz:

    Corroboro na íntegra o texto produzido pelo António Cabanas.
    Efectivamente, do que tem sido a dar a conhecer a todos os Sabugalenses, são as guerras de poder que se criam para salvaguardar posições que se querem passar por posições de principio, que foram assumidas perante os eleitores.
    É por mais que evidente que um candidato a Presidente do Município apresente o seu programa de governo e o submeta ao eleitorado para ser sufragado. Claro será que em democracia (que suponho que também tenha chegado ao Sabugal) vence que obtém a maioria dos votos (relativa ou absoluta), pelo que, terá que responder por esse conjunto de propostas que se propôs realizar. Também há a referir que os candidatos derrotados têm a sua legitimidade de dizer que mesmo não tendo ganho as eleições, têm que respeitar as promessas realizadas aos seus eleitores. Resta então perante tais factos, que se verificando a intransigência por parte dos intervenientes, em manter o confronto das suas posições, que se caia no impasse que se tem vindo a assistir até ao presente momento no concelho do Sabugal. A actual conjuntura política resultante das pretéritas eleições, deve ser vista por um momento de oportunidade para o Sabugal, pois não conta com um governo de maioria absoluta, mas sim com um confluir de três movimentos de pessoas, com o fim de contribuírem para o desenvolvimento de um povo que tem sido vetado às diversas oportunidades que têm vindo a perder nestes últimos anos.
    Portanto em meu entender ou se ultrapassam as quezílias político/pessoais e se tenta confluir para um todo, ou não sendo possível ultrapassa-las, deveram-se accionar os mecanismos institucionais no sentido de os resolver, nem que para isso se convoquem novas eleições, pois o Sabugal não pode parar mais.

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